Cotidiano

Agentes escolares: homens que estão no cargo se orgulham do que fazem

Atuação de homens em Araçatuba é contestada por grupo de mães que quer mudança na legislação municipal

Aline Galcino - Hojemais Araçatuba
13/10/19 às 13h00
Agente escolar com turma do berçário 1, que atende crianças de até 1 ano e 3 meses (Foto: Aline Galcino/Hojemais Araçatuba)

Por volta das 15h de quinta-feira (10), dezenas de crianças, com idades entre 1 e 2 anos, estavam sentadas em mesas finalizando uma refeição. Ao lado delas, vários profissionais, entre eles, dois homens. Um sai com uma bandeja recolhendo os pratos dos alunos, enquanto o outro chama um a um para voltar à sala de aula.

Em outra sala, com crianças menores ainda (de até 1 ano e 3 meses de idade), duas mulheres e um homem se desdobram para dar comida para uma dúzia de bebês já postos em cadeirinhas e que aguardam ansiosamente pela colherada.

Pouco depois, a reportagem visualiza, pela porta aberta da sala das crianças que antes estavam no refeitório, um homem e uma mulher, lado a lado, cada um trocando uma criança. Nas mãos, luvas e lenços umedecidos.

“No mundo inteiro, em outras cidades de São Paulo, do Brasil, sempre existiu homens na Educação. Aqui (em Araçatuba) estamos no início desse divisor de águas”, afirma um agente escolar, de 26 anos, sobre a polêmica e os protestos de um grupo de mães que não quer homens atuando como agentes escolares (Ver matéria ao lado).

O agente está entre os primeiros homens a assumir o cargo, criado por leis municipais em 2017, cujas vagas foram preenchidas por meio de concurso público realizado pela Prefeitura no ano passado. Dentre as atribuições estão o banho e a troca de fraldas e roupas de crianças. No edital, a concorrência estava aberta para homens e mulheres.

Oportunidade

Formado em administração de empresas, o agente escolar ficou dois anos desempregado e viu no concurso uma oportunidade de trabalhar numa área com a qual sempre se identificou. “Desde pequeno eu gostava do ambiente escolar e até o final da minha adolescência foi o único ambiente que eu vivi. Fora isso, eu já trabalhava com crianças fazendo animação de festas infantis, porque sempre gostei desse público, é um mundo mágico”, conta o agente.

O trabalho é com 24 crianças do berçário 2, que atende crianças 1 e 2 anos de idade, ao lado de uma ADI (agente de desenvolvimento infantil), que é formada em pedagogia, conforme exigência da rede, e outro agente escolar, que, no caso, também é um homem.

Ele afirma que nunca recebeu comentário negativo, seja da família, dos amigos ou mesmo dos pais das crianças que cuida, por isso se assustou com algumas mensagens que leu em redes sociais. “A gente sai de casa para desempenhar nossa função, que agora é uma profissão, da melhor maneira possível, com respeito à sociedade, às crianças e aos pais delas. Mas quando você vê pessoas que nunca frequentaram um ambiente escolar generalizando e colocando desconfiança, isso gera um choque, uma grande tristeza, na verdade.”

Cultural

Tristeza. Essa também foi a palavra usada por outro agente escolar, de 26 anos, para definir a polêmica envolvendo a atuação dos homens na educação.

“Eu já esperava o preconceito. Acho que me surpreendi mais por ter demorado tanto a surgir esse assunto. É triste, mas, às vezes, você olha essa situação e não tem como debater, porque o preconceito nosso é cultural, está enraizado na sociedade. É o machismo, aquele olhar de que é a mulher quem tem que cuidar da criança, por isso que temos tanta criança abandonada pela figura masculina”, opina.

Na escola, ele destaca que existem câmeras de monitoramento e vários profissionais, o que garante a segurança das crianças e deles mesmos. “Eu tenho no meu coração que se todas essas pessoas que têm esse pré-julgamento tivessem a oportunidade de trabalhar com essas crianças, não pensariam dessa forma. Eu estou com minha consciência tranquila e quero mostrar para a sociedade que não é assim, que fazemos um trabalho bem-feito e que não somos esses monstros”.

Caráter

Para o profissional, o desvio de caráter não está apenas no sexo ou na escolaridade, por isso, refuta comentários de que médicos, por exemplo, podem lidar com crianças porque foram preparados para isso, enquanto eles não. “Somos todos seres humanos. Um médico pode ter um desvio, assim como uma mulher. É da pessoa, do ser humano, não tem essa distinção.”

A importância da imagem masculina no desenvolvimento infantil também é citada pelo agente como algo positivo nessa nova configuração da rede municipal. “Isso ajuda a criança a ter uma imagem que, muitas vezes, ela não tem em casa”.

O agente escolar trabalhava numa indústria antes de prestar o concurso e chegou a ter medo de cuidar de crianças tão pequenas - ele atua no berçário 1, que atende bebês de até 1 ano e 3 meses de idade. Na sala com 16 bebês ele tem a companhia de uma ADI, que é pedagoga. “É um aprendizado para a vida”, resume.

Banho

Os agentes escolares contam que a rotina é puxada. No berçário 2, por exemplo, os profissionais têm 40 minutos para dar banho em 24 crianças.

O banho também não é como o de casa, onde os pais fazem uma limpeza bem detalhada nos filhos, principalmente nos órgãos genitais. Nas unidades escolares são chamados “banhos pedagógicos”, que é mais superficial e o profissional não tem contato direto com a pele da criança, pois usam materiais próprios, como luvas.

Comportamento

Para a diretora da escola, entre os benefícios de se ter homens no quadro de funcionários está a mudança no comportamento das crianças, que passaram a respeitar mais os profissionais, ao mesmo tempo em que elas participam com mais frequência de brincadeiras que demandam muita energia, como jogar bola. Na parte administrativa, houve uma integração maior da equipe que se dispôs a ajudar os colegas no estabelecimento da rotina na escola.

“É uma quebra de paradigmas. São coisas pequenas que estão mudando gradualmente na escola, no caso dos profissionais. Já para as crianças, tudo aconteceu de uma forma muito natural”, conta a diretora. Na escola são quase 200 alunos e 24 profissionais - 21 mulheres e três homens.

"Não se trata de preconceito, mas prevenção", afirmam mães

Um grupo de mães de Araçatuba esteve na Câmara dos Vereadores na segunda-feira (7) para protestar contra a atuação de agentes escolares homens na rede municipal de ensino. A polêmica chegou até a Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), por meio da deputada Janaína Paschoal (PSL).

“Nossa reivindicação não é tirar esses trabalhadores da Prefeitura. Todo mundo precisa trabalhar e eles passaram em concurso. O que a gente pede é que sejam passadas outras funções para eles, pois não há necessidade de um homem dar banho ou trocar bebês e crianças”, disse, lembrando que a orientação dos pais é sempre para que as crianças não deixem ser tocadas por outros adultos.

Outro ponto que a mãe citou é a falta de formação, já que o concurso exigia apenas o ensino médio. “Estão usando como exemplo profissionais, como pediatras, para justificar que um homem pode lidar com crianças, mas um médico tem formação especial para exercer esse atendimento”, disse.

Reunião

Durante a sessão da Câmara, o vereador Carlos Roberto Santana, o Carlinhos do Terceiro (SD), pediu que a presidente da Casa, vereadora Tieza Marques (PSDB), buscasse informações sobre o caso. Tieza propôs marcar uma reunião com a secretária de Educação (Silvana de Sousa e Souza) para entender e discutir o assunto, o que não seria possível durante uma sessão ordinária. A sugestão foi acatada pelos vereadores e registrada em ata.

Alesp

Na Alesp, a deputada do PSL sugeriu que prefeito, secretários e vereadores de Araçatuba avaliassem os pedidos das mães e na medida do possível baixassem uma norma disciplinando as atividades que podem ser desempenhadas pelos homens que ocupam o cargo. Para Janaína, a medida é uma precaução, e protege as famílias e os próprios servidores que podem passar por constrangimento desnecessário.

“É óbvio que existem pessoas boas e más, do sexo feminino e masculino (…) ninguém está dizendo que um profissional por ser homem vá cometer algum tipo de maldade com as criancinhas e ninguém está dizendo que o fato de a profissional ser mulher garanta que alguma coisa errada também não possa acontecer. O problema é que as mães estão agoniadas porque não se sentem confortáveis em ter um homem limpando os seus bebês”, disse.

A deputada ressaltou que a lei aprovada pelo município é constitucional e legal, mas que está estudando uma maneira de propor uma lei estadual que proíba esse tipo de atividade mais íntima realizada por pessoa do sexo masculino. 

55 homens atuam como agente escolar no município

De acordo com a Prefeitura, o cargo de agente escolar foi criado pela lei municipal nº 7.973, de 12 de setembro de 2017, e lei complementar nº 260, de 3 de outubro de 2017. Antes, só existia a função do ADI (agente de desenvolvimento infantil), que exige formação superior em pedagogia.

São atualmente 105 agentes escolares, sendo 55 homens - 37 deles atuam na educação infantil e 18, no fundamental.

“Ressaltamos que até o momento não tivemos o registro de nenhuma ocorrência envolvendo tais profissionais e também não houve tentativas de conversa com esse grupo de mães que nunca procurou a secretaria para tratar do assunto”, afirma a assessora executiva da Secretaria Municipal de Educação, Vera Guglielmi.

Na nota enviada pela assessoria de imprensa, o Executivo explica que as contratações ocorrem por meio de concurso público, onde é necessário prevalecer princípios como a legalidade e a impessoalidade.

“Desta forma não se trata de opção por homem ou mulher para desempenhar a função de agente escolar e, sim, de cumprimento das normas legais, que inclui a igualdade de oportunidade de acesso para homens e mulheres.”

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