“Sem o cavalo eu nem estaria andando”, acredita veterinário
“O cavalo é tudo na minha vida. É um animal nobre, me dá foco, liberdade e vontade de correr mais e mais para melhorar meu desempenho.” É assim que a paratleta Veridiana Real, de 24 anos, de São João da Boa Vista (SP), define sua paixão por provas equestres e a importância que o cavalo tem em sua vida.
Veri, como é carinhosamente chamada, teve uma anoxia cerebral, ou seja, falta de oxigenação no cérebro durante o parto, o que causou tetraparesia espástica nível motor 2, ptose bilateral (caraterizada pela pálpebra caída), ausência de movimento dos olhos, falta de visão esquerda, problemas de coordenação e falta de força nas pernas.
“Quando ela nasceu, os médicos me disseram que ela não ia andar nem falar, que era para deu deixar ela quietinha em casa. Quando ela tinha um ano e meio, eu dei um cavalo para ela e ela nunca mais saiu de cima dele”, conta a mãe Andréa Real.
O animal a ajudou a melhorar a coordenação motora e ganhar equilíbrio. Já o desejo de se tornar uma atleta veio mais tarde, após ver a mãe competir na prova de três tambores – prova realizada com um cavalo numa pista de areia onde se corre ao redor de três tambores e vence quem faz o menor tempo. “Quando eu vi aquilo (a mãe competindo), pensei: é o que eu quero fazer”, lembra Veri.
Os treinos foram interrompidos quando Veri tinha 15 anos e precisou passar por uma delicada cirurgia, que a deixou na cama por quatro anos. A recuperação foi gradativa, sempre tendo o cavalo como o maior aliado.
Categoria paratleta
Quando se recuperou, decidiu ir em busca de seus sonhos. Escreveu um e-mail para a ABQM (Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha) pedindo a criação de uma categoria para pessoas com deficiência. O pedido foi atendido.
A categoria paratleta na prova dos três tambores foi criada dentro do campeonato do quarto de milha em 2016 e regulamentada no ano seguinte pela associação. Como cada paratleta tem sua necessidade especial, a associação criou quatro categorias com níveis diferentes.
Em pouco tempo, as conquistas de Veri foram inúmeras: são oito fivelas, 42 troféus e duas escarapelas (prêmio do cavalo). E Veri não para. No ano passado realizou um de seus sonhos, que era participar do Grand Prix Haras Raphaela Três Tambores, em Tietê (SP), uma espécie de Barretos no segmento, e ainda conseguiu fazer seu melhor tempo em pista oficial: 21,375 segundos.
“Agora meu sonho é baixar para 17 segundos e eu estou treinando muito para isso”, disse. Em pista reduzida, Veri já conseguiu fazer 20,580 segundos.
Orgulho
Andréa é só orgulho da filha. “Ela é uma guerreira e eu posso afirmar que ela escreveu um novo destino por causa do cavalo. Ela pegou um limão e fez dele uma limonada. As pessoas que são contra provas equestres não sabem a importância que o cavalo tem para uma pessoa como a a Veri”, destacou a mãe.
As provas dos três tambores do paratleta serão realizadas neste domingo, a partir das 8h.
“Sem o cavalo eu nem estaria andando”, acredita veterinário
Diferente de Veridiana Real, que nasceu com paralisia, o médico veterinário Gabriel Augusto Claro, 27 anos, ficou totalmente paraplégico aos 17 anos, depois de uma mielite transversa aguda, uma infecção na medula espinhal.
Morador em Campos de Holambra, um distrito de Paranapanema (SP), Claro nasceu na zona rural e montava cavalos desde criança, chegando a participar de competições. “Depois da doença, fiquei um ano em uma cadeira de rodas e o médico falou que eu não voltaria a andar e muito menos a montar. Mas eu sai do hospital com a certeza que voltaria a participar de provas equestres”, conta.
A recuperação foi gradativa. Um ano depois de ter alta do hospital, conseguiu andar com ajuda de muletas. Passou para a bengala e depois conseguiu se livrar dos equipamentos. “Fiquei com força de grau 1 na perna esquerda e de grau 4 na direita, ou seja, falta de força muscular nas pernas. Eu consigo andar, mas ainda não consigo correr. Correr, só com o cavalo.”
Para o veterinário, o cavalo foi determinante para sua recuperação. “Eu voltei a montar cavalo escondido, o médico não tinha permitido e eu tenho certeza que me ajudou muito no controle de troco e equilíbrio. Eu acho que sem o cavalo eu nem estaria andando”, afirma.
Treinos
Logo voltou a treinar para competições, mas precisou se adaptar às novas condições físicas. Deixou de praticar o laço comprido, que exigia muito equilíbrio (nesta prova, uma mão fica solta para segurar o laço) e passou a treinar a prova dos três tambores, competindo na categoria amador.
“Como meu tempo era muito alto, eu estava desanimado, quase desistindo das competições. Foi então que criaram a categoria de paratleta e eu vi que havia pessoas com muito mais dificuldades do que eu. Passei a me dedicar ainda mais e comecei a baixar meus tempos”, lembra.
O recorde dos três tambores na categoria paratleta é de Claro: 17,600 segundos. “Eu já consegui o feito de correr nos 17,200s, só que eu derrubei um dos tambores. E muitos olhavam e falavam que eu não seria capaz, que o cavalo era muito rápido e iria me derrubar. Quando mais falavam, mais vontade de treinar eu tinha”, destaca. A meta agora é baixar o tempo para 16 segundos.
O veterinário também representou o Brasil em um campeonato mundial para paratletas, no Panamá, em 2017, e ficou na segunda colocação nos três tambores.
Categorias
Além dos três tambores, Claro compete nas categorias western pleasure (que analisa o andar do cavalo) e rédeas (onde o animal em que cumprir um percurso sem apresentar resistência aos comandos do competidor).
Em Araçatuba, Claro irá participar das provas do western pleasure e três tambores, ambos na categoria paratleta, e na prova de rédeas, categoria amador pela primeira vez. As provas serão no domingo, a partir das 8h, no encerramento do 42º Campeonato Nacional da Raça Quarto de Milha que ocorre em Araçatuba desde o dia 20.