Cotidiano

Do sonho ao medo: pandemia impede casal da região de retornar para o Brasil

Érico e Eliana viajaram em janeiro para a Itália, quando os casos de coronavírus estavam restritos à China

Aline Galcino - Hojemais Araçatuba
30/03/20 às 10h00
Érico e Eliana programaram durante muito tempo a viagem dos sonhos e agora não conseguem retornar (Foto: arquivo pessoal)

Conhecer a Itália era o sonho do engenheiro Érico de Oliveira Costa Zini, de 41 anos, e da funcionária pública Eliana Munhoz Amoroso Zini, 42, moradores em Mirandópolis (SP), a cerca de 80 quilômetros de Araçatuba.

O casal passou anos planejando a viagem, que inicialmente teria duração de 51 dias pelo país, incluindo passar uns dias na terra natal do bisavô de Érico, a cidade de Medicina.

Eles pegaram voo em Guarulhos, em 29 de janeiro, com escala em Lisboa (Portugal) e destino a Bolonha (Itália). A previsão de retorno, também via Portugal, era 20 de março.

Quando embarcaram, o coronavírus parecia ser apenas um problema localizado na China, sem alcance em outros países. “Chegamos e estava tudo normal por aqui. Passeamos, conhecemos várias cidades e ficamos em alguns hotéis. Quando já estávamos próximos da data de retorno, fomos para a casa de um primo, em Medicina (a 45 km de Bolonha) e foi quando tudo aconteceu”, conta Érico.

A pandemia foi declarada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em 11 de março. Dois dias depois, Érico e Eliana viram um comunicado do fechamento das fronteiras de Portugal e o cancelamento dos voos da TAP, empresa aérea pela qual eles retornariam ao Brasil.

Lookdown

“No desespero, eu comprei um voo direto para o Brasil pela Alitalia, por meio da Smiles. Consegui um voo de última hora para o dia 17 de março. Deixamos tudo pronto para o retorno. Porém, no dia 16, as autoridades de Medicina fizeram um lookdown, bloqueando todas as fronteiras da cidade até o dia 3 de abril”, contou.

Medicina está classificada como zona vermelha e foi colocada em quarentena por causa das infecções confirmadas pelo novo coronavírus.

Desde então, o casal vive uma verdadeira luta para tentar voltar para o Brasil. Pediram ajuda ao Consulado, fizeram contato com autoridades locais e até requerimento formal usando um canal criado pelo governo local, todos sem sucesso. Ninguém entra ou sai de Medicina, por enquanto, até o dia 3 de abril.

O casal teve que cancelar o voo pela Alitalia e ainda não sabe se conseguiu o estorno das passagens.

“O aeroporto de Bolonha está operando. Os voos estão mais restritos, mas continuam a ocorrer. Porém estamos presos em uma cidade onde o exército e a polícia locais bloquearam todas as passagens. Não consigo sair daqui e ir até o aeroporto que fica a 30 km. Se não fosse o bloqueio, nós já estaríamos no Brasil”.

Preocupação

As preocupações do casal são várias, desde com os familiares que estão em isolamento social no Brasil até a manutenção dos empregos. Ambos trabalham no serviço público, porém Eliana atua na área da Saúde, cujas férias foram suspensas devido às medidas emergenciais adotadas para combate ao vírus no Brasil.

Oficialmente, ela retornaria ao trabalho no último dia 23. Devido à situação, Eliana conseguiu a liberação de uma licença-prêmio de 15 dias.

“Se ficarmos aqui mais do que isso, não temos o que fazer. Temos toda comprovação que estamos presos, que queremos voltar, mas não estamos conseguindo. Esse é o nosso maior desespero. Minha esposa chora todo dia querendo voltar”, conta Érico, que deveria retornar ao trabalho até 2 de abril. Na data, eles ainda estarão na Itália.

“Depois que perdemos os dois voos, ficamos sem opção. Comecei a pesquisar diariamente nos sites das companhias e hoje (quarta-feira, dia 25), consegui um voo para o dia 16 de abril. Eu comprei, mas não queremos ficar até essa data aqui. Precisamos ir embora antes.”

Vista da janela do apartamento onde eles estão sem sair há três semanas; carros estacionados mostram que todos estão em casa (Foto: arquivo pessoal)

A questão financeira também tem tirado o sono. “Planejamos uma viagem de 51 dias. No entanto, o coronavírus afetou a economia mundial. O euro está um absurdo e não temos mais tanto dinheiro em espécie. Meus primos estão sem trabalhar e não sabem se vão receber. Temos que comer e pagar as despesas aqui. Se tivermos que ficar mais 15 dias ou um mês, vamos ter dificuldades, pois saiu fora do nosso controle”.

Rigor

O casal conta que não sai de casa há três semanas. Na cidade, de 16 mil habitantes, só funcionam farmácias e supermercados. O restante, incluindo os transportes, parou.

A população obedece à risca as determinações. Para sair de casa, é preciso ter uma autocertificação, um documento que ateste para onde a pessoa está indo, sendo liberada a saída de uma única pessoa por família. “Eles têm o endereço da pessoa. Se ela sai de casa para ir ao mercado, mas resolve mudar de direção, ela pode ser presa ou autuada. Se tiver mais de uma pessoa no carro é a mesma coisa.”

Nos supermercados e farmácias, a entrada é controlada e a distância entre as pessoas, obrigatória. Uma das últimas medidas que os mercados estudam adotar é deixar apenas cestinhas para que as pessoas comprem em poucas quantidades, para não correr risco de desabastecimento.

Quarentena

Érico e Eliana afirmam que estão conscientes da gravidade do problema mundial de saúde. Embora nenhum dos seis moradores do apartamento que dividem em Medicina tenha qualquer sintoma da covid-19, o casal afirma que sabe que terá que ficar em quarentena quando chegar no Brasil e não vê a hora disso acontecer.

“Em casa, a gente tem mais conforto, acesso à moeda local. Aqui, tudo é mais difícil”, finaliza.

Na Itália, o número de mortes por covid-19 passa de 10 mil, segundo dados oficiais do país até sábado (28). São 92.472 casos registrados e 889 novas mortes nas últimas 24 horas.

Érico e Eliana com os primos na cidade do Vaticano, dias antes de "fecharem" as cidades (Foto: arquivo pessoal)
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