Um tratamento intensivo que utiliza uma tecnologia desenvolvida pela Nasa está se tornando acessível a famílias da região por meio da Justiça. É o Therasuit, método que traz melhora significativa para pacientes com disfunções neuromusculares.
Desenvolvido nos Estados Unidos por um casal de fisioterapeutas que tem uma filha com paralisia cerebral, o tratamento é um programa individual elaborado a partir de avaliação específica para identificação das necessidades e objetivos do paciente.
No programa, são utilizadas polias e pesos para fortalecimento e alongamento, o suit (vestimenta) e uma espécie de gaiola para realização de exercícios.
O suit é uma espécie de roupa com cordas elásticas que são ajustadas ao corpo do paciente. Essa vestimenta é baseada nas roupas criadas por pesquisadores russos para contrapor os efeitos negativos vividos por astronautas durante a longa permanência no espaço, num ambiente sem gravidade, e que por isso, trazia sérios problemas anatômicos e fisiológicos, como osteoporose, atrofia muscular, problemas cardiocirculatórios, entre outros.
Os pesquisadores perceberam que as instabilidades e disfunções motoras que surgiam nos astronautas após as missões são semelhantes às disfunções que as crianças com paralisia cerebral têm.
Tratamento
No Therasuit, a roupa e os elásticos que são presos à gaiola permitem que o paciente que não tem movimentos ou força muscular, por exemplo, consiga sustentar o corpo e fazer exercícios de fortalecimento, favorecendo a evolução.
Segundo a terapeuta ocupacional Cíntia Vieira, o grande diferencial do Therasuit é a intensidade. São três horas por dia, durante quatro semanas, de segunda a sexta-feira. Passado esse período é feita uma manutenção, com exercícios duas vezes na semana. O ciclo só pode recomeçar após quatro meses e custa a partir de R$ 12 mil.
“Nesse tratamento a possibilidade de neurogênese, que é a criação de um novo neurônio, é muito maior do que na terapia convencional”, afirma a terapeuta ocupacional, que tem formação na técnica.
Bactéria
Apesar de oferecer resultados surpreendentes, o método não é disponibilizado pelo SUS e nem faz parte do rol da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), que regula os planos de saúde no Brasil. Na região, é disponibilizado em uma única clínica particular, a Therapy Center, em Araçatuba.
E para ter acesso a esse tratamento, famílias da região estão recorrendo à Justiça, como fez a pedagoga Daniele Muniz Pereira, de 30 anos, e o administrador Anderson Brandão Cazelato, 39, pais de Lorena, de 3 anos.
Daniele conta que teve uma gestação tranquila, sem intercorrência, e Lorena nasceu no tempo certo e saudável. No entanto, quando tinha duas semanas, começou a ter choro excessivo, que foi inicialmente tratado como cólica.
Quando completou um mês de vida, a bebê foi levada ao médico com estado febril e uma espécie de espinha na parte de cima da coluna.
Vários exames foram feitos e Lorena foi internada na UTI neonatal com pneumonia nos dois pulmões. Os exames não conseguiram detectar o que era aquele carocinho na coluna, que começou a crescer.
Uma ressonância magnética foi feita. “O médico disse que conseguiu ver que a coluna dela estava toda esbranquiçada e que as vértebras estavam corroídas. Ela tinha 41 dias de vida e ele disse que abriria para ver o que era, pois havia algo comprimindo a medula”, lembra a mãe.
Na cirurgia, o médico viu que o pus era provocado por uma bactéria e algumas vértebras precisaram ser retiradas. “O médico então notou que havia pus na cicatriz da vacina que ela tinha tomado, a BCG. Foi feita análise e o material era o mesmo. A conclusão foi de que a bactéria, que não se sabe onde estava, entrou pela aplicação da vacina e até hoje não se sabe se foi do pulmão para a coluna ou vice-versa”, contou Daniele.
Calo ósseo
Lorena passou três meses internada para tomar antibióticos e usou um colete para estabilizar a coluna e não lesionar a medula por oito meses. No entanto, no lugar das vértebras que ela precisou retirar, foi formado um calo ósseo.
Com a orientação do médico de Araçatuba, a família procurou um especialista em São Paulo, que faz o acompanhamento de Lorena até hoje. No ano passado, ela passou por uma cirurgia para retirada desse calo, que estava comprimindo a medula e impedindo o movimento das pernas e quadril.