A doutora em educação, Maria Inês Fini, criadora do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), esteve em Araçatuba no início de setembro ministrando palestra para diretores e coordenadores de escolas das redes municipais da região.
Na ocasião, ela conversou com a reportagem do Hojemais Araçatuba sobre o cenário atual da educação no País.
Entre as principais atividades exercidas, Maria Inês atuou na reforma curricular do ensino no Estado de São Paulo, na gestão de José Serra. De 2007 a 2010, foi responsável pelo projeto São Paulo Faz Escola, cujo foco é a unificação do currículo escolar para as escolas estaduais.
Maria Inês foi diretora do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), cargo o qual foi exonerada pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL), no início do ano. Atualmente é diretora acadêmica da Educare e da EduCat, entre outras atividades.
Panorama
Nós temos um comportamento do governo federal extremamente atípico. Nunca o Ministério da Educação foi tão omisso em relação às políticas públicas ou tão controverso nas suas atitudes como tem sido agora. Não só pelo contingenciamento de recursos, mas pela ausência de uma política educacional. E essas atitudes que você vê, que já foram tomadas em termos de política, são de fato desastrosas e colocam o Brasil numa condição de 30, 40 anos atrás.
Eu me refiro, por exemplo, à política nacional de alfabetização. É lógico que a falta de sucesso na alfabetização tem sido um fato doloroso para escola e para sociedade brasileira. Mas não é dessa maneira. Nós já tínhamos evoluído muito e não é voltando atrás, obrigando a escola a ter um único método, ultrapassado, que vamos superar esse problema.
Ensino municipal
Se de um lado a gente partilha desta ação federativa, porque nós somos uma federação, de outro lado, estados e municípios têm muita vantagem, porque a única rede que o governo federal tem são as universidades e institutos. São os estados e municípios que têm o ensino fundamental, infantil e médio nas mãos pra gerir.
Os prefeitos têm um papel muito importante nesse momento do Brasil e os governadores estaduais também. Porque eles têm a condição de fazer essa gestão da rede e fazer a pressão para que o governo federal cumpra a sua função na rede de distribuição de impostos arrecadados por meio do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação).
Formação
Os prefeitos têm essa importância e os secretários municipais e estaduais têm todas as condições de fazer uma boa gestão da rede. Hoje, temos a Base Nacional Comum Curricular que indica quais são os direitos de aprendizagem de cada criança, em cada etapa da escolarização. E temos o sistema de avaliação que vai se aprimorar pra ajudar esta base, mas o papel mais importante é o de formação de professores.
É então que entra de novo o governo federal, porque ele faz a regulação das universidades particulares e a gestão das universidades públicas. Então, tem que haver uma sinalização muito positiva para uma nova formação de professor. O professor precisa começar aprender aquilo que ele tem que ensinar e não a fazer grandes filosofias.
Colégios militares
Os colégios militares fazem um trabalho muito bom no Brasil. Eles já têm uma rede significativa e acolhem mais civis do que filhos de militares, e acho que essa rede não precisa ser estendida em hipótese alguma. O que se quer é uma militarização da disciplina, o que no meu ponto de vista é um erro, não é política certa.
Veja, o governo (federal) retirou todos os recursos que estavam destinados a escolas de tempo integral. O que foi um equívoco muito grande. Acho que não é por aí. Agora, Escola Sem Partido é uma verdadeira aberração, porque não existe isso. Acredito que essa discussão já tinha sido superada. Só pessoas extremamente limitadas do ponto de vista de formação ideológica é que são capazes de advogar uma postura assim.
Pseudopolêmicas
Me surpreendi muito com a atitude do governador João Dória (PSDB). (O político mandou recolher apostilas da rede estadual, justificando que o material continha apologia à “ideologia de gênero”. Porém, o Tribunal de Justiça do Estado anulou o ato). Não esperava isso dele. Quem coordenou a elaboração desse projeto São Paulo Faz Escola fui eu.
A informação é fundamental para a formação das novas gerações e em hipótese alguma uma informação bem tratada vai induzir qualquer pessoa a assumir uma postura em relação a sua sexualidade que não seja aquela que ele mesmo quer. Desnecessário imaginar que um jovem vai fazer sua cabeça por ler uma informação científica que o próprio Ministério da Saúde referendou.
Nós tínhamos que contribuir para a formação de uma política de paz e não ficar fazendo essas pseudopolêmicas, porque não são polêmicas verdadeiras. São absolutamente excludentes.
Enem
O Enem original tinha uma proposta muito diferenciada desta que o então ministro da Educação Fernando Haddad transformou. O Enem original, há 21 anos, já ia mais na direção do que a Base Comum Curricular está pregando. Já tinha uma concepção muito moderna, avaliava competências e habilidades. Quando o Haddad assumiu, ele transformou o Enem num exame muito conservador, embora seja muito bem-feito.
Agora, com esse novo formato, você democratizou muito o acesso ao ensino superior. Você melhorou demais, abriu muitas portas. Operacionalizou de uma maneira muito diferente o acesso, de tal forma que você não precisava viajar pra fazer prova em um lugar. O uso para o Fies, Prouni, foram agregações extremamente positivas.
Tecnologia
Não adianta a gente fingir que a tecnologia não invadiu a nossa vida cotidiana. Hoje, você tem crianças com cérebros absolutamente acelerados. O aluno tem a possibilidade de interagir com vários estímulos ao mesmo tempo. E não adianta a gente fingir que não está vendo isso.
A pior atitude que uma escola pode ter é fazer o aluno deixar o celular em casa. Temos que aprender a usar o celular para ensinar. O mundo mudou e nós, pra não fecharmos enquanto escola, precisamos nos reinventar.
Transformação
Quem vai fazer essa transformação é o professor, mas ele precisa aprender a fazer e tem de ser apoiado. Estamos num momento em que a educação brasileira tem tudo pra fazer a virada de qualidade. (...) Essa escola que nós temos, nesse formato, que transmite informação, acabou. Ela não tem mais lugar na sociedade.
Ou nós transformamos a escola para de fato ela ser uma estrutura que vai intervir na vida das pessoas reais, que tem um contexto absolutamente diferente daquilo que nós vivemos e fomos educados, ou nós vamos fechar. A escola tem que ser criativa e devastadora.