Qual a probabilidade de sobrevivência de uma criança que nasce de 26 semanas de gestação e pesando 880 gramas?
Pois esse é o desafio enfrentado pela equipe médica da UTI (Unidade de Terapia Intensiva) Neonatal da Santa Casa de Araçatuba com relação a Vitória (nome fictício), que nasceu no último sábado (9) e ocupa um dos leitos do hospital, que é referência nesse tipo de atendimento para 40 municípios da região.
O que chama a atenção é que ela não é o único bebê nascido com menos de 28 semanas que está em tratamento médico na UTI neonatal da Santa Casa de Araçatuba.
Segundo o coordenador técnico do Serviço de Neonatologia da Santa Casa, o neonatologista intensivista e pediátrico Anderson Dutra, dos dez leitos da UTI, cinco eram ocupados por prematuros extremos, que são bebês nascidos de 22 a 28 semanas de gestação e com até um quilo.
Somando as duas UTIs, que juntas oferecem 22 leitos, 12 eram ocupados por bebês prematuros. “O fato é que estamos diante de um grande desafio”, disse o médico.
Ele contou que devido à grande quantidade de leitos ocupados, durante a semana teve que dar alta a um bebê com pouco mais de 1,1 quilo porque precisava da vaga para outra criança que necessitava mais da UTI do que ele.
Dutra explica que o hospital consegue oferecer esse tipo de atendimento porque tem boa estrutura e a equipe é bem treinada. “Como instituição, a Santa Casa faz o que pode e o que não pode”, argumenta.
Prematuridade
Ele explica que há dois tipos de prematuridade. Uma delas é consequência de gestações múltiplas que são induzidas, feitas por pais que não podem engravidar.
Essa é bastante comum em países desenvolvidos, como a Suécia, que segundo ele, tem a menor taxa de mortalidade neonatal precoce, mas que também vê crescer os casos de prematuridade extrema.
No caso do Brasil, o neonatologista informa que a prematuridade precoce é consequência de fatores sociais e culturais.
Uma das principais queixas, de acordo com ele, é com relação ao diagnóstico tardio da gravidez, apesar de haver teste gratuito para detecção.
Segundo Dutra, há muitos casos de mães que vão descobrir gestação com 18 semanas, 16 semanas de gravidez. “Isso é o absurdo do absurdo se tem o teste gratuito na rede. Por que que não é feito o diagnóstico precoce?”, questiona.
Outra causa é a falta de realização do pré-natal, que é o acompanhamento médico prestado à gestante durante a gravidez.
O ideal é que a grávida passe por pelo menos seis consultas no período. Apesar de o serviço prestado pelos agentes da ESF (Estratégia Saúde da Família) ter proporcionado um avanço nesse sentido, Dutra informa que a maioria das mães não fazem esse acompanhamento.
“A gravidez na adolescência, com meninas sendo mães aos 13, 14 anos; questões sociais; baixa renda; falta da presença do pai; baixa escolaridade. Tudo isso tem contribuído para o aumento nos últimos anos da prematuridade extrema”, comenta.
Informação
A pediatra e neonatologista Rhaísa Maschio comenta que talvez falte informação dos profissionais de saúde e dos pais, que não buscam essa informação. Isso, de acordo com ela, reflete no tempo de internação e causa complicações nos bebês, que podem deixar sequelas, além de gerar alto custo no tratamento.
No Brasil, 12,3% dos partos são de gestações com menos de 37 semanas e vem ocorrendo um incremento da prematuridade extrema, abaixo 28 semanas. Nesses casos, segundo Dutra, a média de internação é de 60 dias, mas pode passar de 200 dias.
“Esse tipo de bebê precisa ser visto muito antes. Bebê de 22 a 28 semanas, terá que se desenvolver fora da barriga da mamãe. Quer dizer, todo o impacto social que caiu sobre a gestante culminou com o nascimento de uma prematuridade extrema", alerta.
O grande desafio, de acordo com o neonatologista, é reduzir os casos de prematuridade extrema, pois o índice de sobrevida dos bebês prematuros, acima de 28 semanas de gestação, é de 95%. “O desafio é com os bebês de 22 a 28 semanas de gestação e isso passa pelo planejamento dessas famílias e quando nos deparamos com essas situações”, diz.
Dutra comenta que é importante que a população cobre o poder público, pois as políticas socais que começam com a população encontram ressonância no governo.
O médico argumenta que o dinheiro tem que ser bem investido e argumenta que a política de prevenção da prematuridade é barata diante do custo de uma uti neonatal para cuidar de tantas crianças prematuras.
Porém, entende que também é preciso investir no atendimento aos bebês prematuros, mas esse investimento deve ser feito em instituições com resultado comprovado, como a Santa Casa. “Essa desarticulação é até pior do que a falta de dinheiro”, conclui.