Ninguém da direção ou representante da Coopbanc (Cooperativa de Consumo dos Bancários de Araçatuba) se dirigiu ao grupo que fez uma manifestação pacífica em frente ao supermercado na manhã desta quinta-feira (4), em protesto contra o racismo e o preconceito.
Na terça-feira (2), a produtora cultural Flávia Nascimento dos Santos, 23 anos, que mora a poucos metros do estabelecimento, disse que foi retirada à força do prédio enquanto fazia compras. Ação, segundo ela, ocorreu após ela questionar um segurança sobre o motivo de estar sendo seguida enquanto fazia compras. A jovem é afrodescendente.
Após cerca de uma hora e meia de manifestação e sem haver nenhum tipo de retratação pessoal por parte da cooperativa, apesar das insistentes cobranças do grupo, Flávia contou novamente o ocorrido à imprensa.
Ele confirmou que foi constrangida e agarrada pelo pescoço por um homem que disse ser o gerente do estabelecimento. Disse ainda que esse homem é que partiu para cima dela de forma agressiva, enquanto o segurança apenas acompanhava a discussão entre os dois.
Como até agora, inclusive com a manifestação, não houve nenhum tipo de contato pessoalmente com a produtora cultural, ela falou que a partir de agora não tem mais conversa e o caso será decidido pela Justiça.
“Eles soltaram nota nas redes sociais, soltaram nota para imprensa, mas eu, Flávia Nascimento dos Santos, até agora ninguém teve contato comigo. A partir de agora eu que não quero mais. A partir de agora a gente vai pra Justiça e a justiça vai ser feita”,
declarou.
Manifestação
A manifestação foi convocada pelas redes sociais para as 10h desta quinta-feira. No horário marcado, o grupo que estava concentrado em frente ao portão do Colégio Salesiano, na rua Cussy de Almeida, de onde partiu em passeata até o mercado, que fica na esquina com a rua Humaitá.
Muitos participantes carregavam cartazes e livros relacionados aos temas abordados e, com auxílio de um megafone, foram lidos trechos da Constituição Federal, que garante o mesmo direito a todos.
A Polícia Militar, que foi comunicada pelos próprios manifestantes sobre o ato, interditou o trecho da rua Humaitá para que o protesto pudesse acontecer em frente ao prédio.
No início do ato, seguranças fizeram uma espécie de cordão na entrada do prédio, mas não houve nenhuma tentativa de ameaça ou de invasão por parte dos manifestantes, que permaneceram o tempo todo na rua, apenas mostrando apoio à produtora cultural, com pedidos de justiça e respeito.
Poucos clientes que faziam compras no mercado se manifestaram, alguns em apoio ao ato, mas também houve os contrários. Um deles, idoso, saiu do estabelecimento, gritou Bolsonaro em direção ao grupo e foi chamado de racista.
Ameaça
No início da tarde de quarta-feira (3), o gerente da Coopbanc esteve na delegacia acompanhado de uma advogada e registrou um boletim de ocorrência.
Ele comunicou à polícia sobre a postagem feita no Instagram por Flávia, na qual ela cita que teria sido vítima de racismo por parte do segurança da empresa, inclusive com agressão física.
O gerente relatou que a narração comoveu algumas pessoas, que teriam acreditado que tais fatos realmente aconteceram. E que após a publicação, a advogada da Coopbanc tomou ciência de que
“as declarações inverídicas de Flávia”
promoveram em certas pessoas uma revolta inconsequente.
Foram citados à polícia nomes de pessoas que fizeram postagens no Facebook incitando a população a
"atear fogo"
no mercado e convocando a manifestação defronte ao comércio.
Ao registrar a ocorrência, o gerente disse temer possíveis conflitos, gerando danos e principalmente risco de agressão a clientes e pedestres. Ele argumentou ainda que a cooperativa é idônea, estabelecida em Araçatuba há 60 anos, sempre preza pelo bem comum e é metódica cumpridora dos deveres legais.
Admitiu
Na nota enviada à imprensa na última terça-feira, a Coopbanc informou que a pessoa que teria agredido e expulsado a cliente do estabelecimento não foi o gerente, mas, sim, um profissional da área administrativa.
Disse ainda que esse funcionário havia sido afastado das funções e que está discutindo e reavaliando todos os procedimentos internos de segurança para evitar que situações semelhantes voltem a acontecer, e que essa atuação seja sempre pautada pelo respeito.
“Entendemos que todas as pessoas devem ser tratadas com respeito, independentemente do gênero, raça, idade ou orientação sexual”,
informou em nota.
Investigação
O advogado André Luís Martinelli de Araújo acompanhou a manifestação e falou com imprensa representando a cooperativa. Ele disse que a Coopbanc vê o ato com respeito e admitiu que houve excesso de força por parte do funcionário na abordagem à cliente.
Entretanto, disse que precisa ser averiguado se realmente foi um ato racista, o que será apurado pelo estabelecimento e principalmente pela polícia e pelo Ministério Público.
“O que nós encaramos por hora, foi um excesso na abordagem, que realmente aconteceu, inclusive nós já admitimos isso por nota e nos solidarizamos com a Flávia”,
comentou.
Segundo o advogado, a cooperativa espera a oportunidade para conversar com a jovem e a advogada dela, pois por enquanto não foi possível realizar o procedimento interno para apurar o que de fato aconteceu.
“Aqui é uma cooperativa, começou como uma cooperativa restrita aos bancários, mas já faz muito tempo que qualquer pessoa pode fazer compras. Aqui todos são bem-vindos”
, finalizou.