“Você vê, ouve, as pessoas morrerem ao seu lado. Você vê a evolução das pessoas que chegam. Você pensa: ‘Meu Deus, será que vai acontecer comigo?’”. A jornalista Corina Batajelo, 41 anos, de Araçatuba (SP), ficou 31 dias internada na Santa Casa após contrair covid-19.
Somente na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) covid, foram 25 dias lutando contra uma infecção grave no pulmão, que rendeu a ela um comprometimento de 50% do órgão.
Às vésperas do Ano-novo, Corina recebeu alta. Porém, devido às sequelas, a jornalista, que ocupa o cargo de secretária do prefeito Dilador Borges (PSDB), ainda não voltou à rotina e segue em tratamento médico domiciliar.
Corina contou sua experiência com a covid-19, em entrevista concedida a distância ao
Hojemais Araçatuba
, que inicia neste domingo (10) uma série de reportagens contando a história de pessoas que tiveram sua vida ameaçada pelo coronavírus.
Em casa, Corina precisa da ajuda de uma sonda nasal para estabilizar a saturação (Foto: Arquivo pessoal)
Início
Como todos sabem, eu sou secretária do prefeito Dilador. Tivemos no ano passado uma campanha política e a esposa dele positivou logo após as eleições. Quando ela positivou, todos que ela teve contato, já entraram em quarentena. Na sequência, o Dilador também positivou. Até aí, eu não estava tendo nenhum sintoma.
Fiz o teste de sangue, que deu negativo. Mas não era o período de fazer o teste. Depois de dois dias, minha garganta começou a ‘raspar’ e aí eu me preocupei; paguei o teste do swab (RT-PCR), porque era feriado. Então, quando positivei, comecei a fazer o tratamento.
Tive acompanhamento de um médico diariamente, vendo a minha saturação, que é a parte da oxigenação, o fator mais importante, ligado diretamente ao pulmão. Na sequência, com muito medo, procurei a rede pública, o pronto-socorro municipal. Lá, fiz o raio x do pulmão, estava tudo bem.
Terminada a fase do tratamento de cinco dias com a medicação, recebei a visita de uma enfermeira da Secretaria Municipal de Saúde. Para minha surpresa, minha saturação estava muito baixa. Ela não hesitou; chamou o Samu. Fui para Santa Casa já regulamentada. Chegando lá, eles já queriam me internar, mas comecei a saturar melhor. Eu não queria ser internada e paguei para me consultar com um pneumologista, que me passou um tratamento. Ele pediu para alugar um concentrador de oxigênio para ajudar na saturação, porque ela já estava trabalhando baixo.
Não sentia falta de ar. Sentia um cansaço, como se tivesse feito uma atividade física muito prolongada.
Estado gravíssimo
Eu já tinha feito uma tomografia do pulmão, exames de sangue, todos os exames. Então, o pneumologista disse que o meu pulmão estava lesionado, em torno de 30%, mas que íamos tratar em casa. Dois dias depois, não me senti bem de madrugada. Meu namorado acionou o Samu. Minha saturação estava muito baixa. Fui para o pronto-socorro e depois me encaminharam para a Santa Casa.
Eu sou obesa, mas sem comorbidades, como diabetes ou pressão alta. Em dois dias, os pulmões já estavam comprometidos em 50%. É uma doença devastadora. Não tem como as pessoas calcularem isso, é tudo muito rápido.
Fiquei internada na enfermaria. Como não progredia, no dia 1º de dezembro, a enfermeira me comunicou que eu iria para a UTI. Nesse momento que a gente vai para a UTI, é terrível, porque você não sabe se vai ser intubada. É um misto de sensações. Fui para a UTI com saturação em torno de 65; uma pessoa normal satura em torno de 95 a 99. O meu estado era gravíssimo, mas não sabia dessas condições, somente minha família sabia.
Na UTI, o médico me avaliou. Na realidade, eu fui para a UTI para ser intubada, mas quando cheguei lá, o médico disse que me daria 72 horas. Nessa hora fiquei confusa, cheguei a pensar: “Será que eu tenho 72 horas para morrer?”. Entraram com a medicação e com os exercícios da fisioterapia. Se eu reagisse, não seria intubada. Foi quando comecei a travar essa guerra. Comecei a fazer os exercícios. A saturação foi aumentando e com a medicação, fui reagindo. O médico chegou à conclusão de que eu não seria intubada. Segui na medicação e fisioterapia.
Mas então começa aquela batalha, a batalha da resiliência, para administrar a ansiedade, porque na UTI a maioria dos pacientes não está acordada. Eu era uma das pessoas que estavam acordadas. É muito difícil você ter que administrar o seu psicológico, o emocional, a doença, a solidão, o medo nesse momento. Foi um trabalho de resiliência, fé em Deus, de muita força interna.
Então, quando eu comecei a usar o CPAP (um aparelho que auxilia o fluxo da respiração), e a pronar (termo usado em hospitais que indica a posição de bruços de pacientes) para o pulmão expandir, consegui saturar melhor. Fazia fisioterapia duas vezes por dia. Eu não saía da cama; tomava banho na cama. Só me levantava para as refeições. De resto, o tempo todo deitada ou pronada ou virada para os lados, que era quando a saturação subia mais.
‘Não posso morrer’
Você vê, ouve, as pessoas morrerem ao seu lado. Você vê a evolução das pessoas que chegam. Você pensa: ‘Meu Deus, será que vai acontecer comigo?’ Só pensa no que pode acontecer. Eu penso que a parte emocional da covid-19 é muito difícil. Sou extremamente ansiosa. Tiveram até que aplicar medicação para diminuir o grau de ansiedade, que interfere na saturação. Eu não queria estar intubada, mas ao mesmo tempo estava ali, acordada, vendo tudo e ouvindo o que acontecia.
Desde o momento que desci para a UTI, só imaginava uma coisa: eu não posso morrer, tenho um filho de 13 anos. Como vai ficar a vida do meu filho? É muito difícil de administrar isso. Não conversava com ninguém. Ficava reclusa. Quem me visitava todos os dias às 11h era meu namorado ou minha irmã. Eles ficavam num vidro, que se chama aquário. Levavam o meu celular e a gente conversava por telefone. Era 15 minutos que a gente conversava, que eu tinha notícias. Isso ia me fortalecendo.
Minhas amigas e amigos mandavam cartinhas, bilhetes, livros. Eu li seis livros nesse período que fiquei na UTI. Recebi muito carinho dos meus amigos, fora as orações. Tinha muita gente orando. Era isso que me ajudava a superar a cada dia meu estado lá dentro.
Gratidão
A UTI covid da Santa Casa está muito bem estruturada. Desde a equipe médica até os enfermeiros, fisioterapeutas, o pessoal da limpeza. É um tratamento muito humanizado que eles têm. Isso faz toda a diferença para quem está lá. Para terem uma noção, tomava banho no leito e teve um dia que os enfermeiros lavaram meu cabelo. Isso foi uma glória para mim. Não é fácil. Eu estava exposta, vulnerável, de fralda.
O trabalho da equipe é emocionante. Eu estava acordada, conseguia fazer as coisas, mas e os outros que estão intubados? Eles também têm a mesma prática. A fisioterapia também tem de ser feita, o banho. Eles cuidam, conversam com eles. É uma coisa emocionante de ver. É muito amor; temos que ter gratidão por eles.
Sequelas
Foram 25 dias da UTI. No dia do Natal, tive alta e fui para o isolamento. Fiquei mais uns seis dias para ver como a saturação trabalhava. Comecei a usar o cateter nasal, porque eu estava caminhando para ter alta e voltar para casa. A previsão era que eu voltasse sem o oxigênio, mas infelizmente não consegui por conta da lesão nos pulmões. Voltei para casa com as sequelas da covid-19 e sigo em tratamento domiciliar.
Na UTI, fiz todo o tratamento da infecção, mas os pulmões vão levar um longo tempo para voltarem ao normal. Na minha fase de faculdade, eu era fumante e fumei por um bom tempo. Parei de fumar há 13, 15 anos, mas o pulmão sente o peso do cigarro ainda e isso contribuiu para que eu chegasse a essa situação.
Ainda faço fisioterapia três vezes ao dia. Estou sendo acompanhada pela equipe da UBS do bairro Dona Amélia. Tem as medicações que tenho que tomar em casa. É um recomeço. Tive de reaprender até a caminhar. Emagreci 15 quilos, perdi massa magra.
A covid é muito traiçoeira. Mexe com o psicológico, com a vida. Sorte de quem tem só a ‘gripinha do Bolsonaro’. Como não tive essa sorte, estou aqui viva, agradeço a Deus pela oportunidade, mas com sequelas que ainda vão demorar para passar.
Ivermectina
Me cuidei muito, porque eu não parei de trabalhar. Meu filho ficava em casa; meu namorado. Eu tinha muito medo. O namorado pegou de mim, mas foi tranquilo. O meu filho não pegou. Tudo o que falavam, eu fazia. Fiz o protocolo da ivermectina, usava o álcool em gel, máscara, mas acabei sendo afetada.
Tomei ivermctina a cada 15 dias. Fiz o protocolo de três meses logo que iniciou a pandemia. Não cheguei a ter uma instrução, não fui no médico. Eu, muito medrosa, fui fazendo tudo o que falavam que era bom para imunidade.
As pessoas ficam festando, falando que é política, mas só tem dimensão quando pega a doença ou passa pela situação que passei, ou tem alguém próximo que pegou ou perde alguém. As pessoas não têm dimensão da gravidade, os hospitais estão lotados. Criticam, reclamam, mas não têm noção da realidade. A situação está ficando cada vez pior, porque já chegou uma variante do vírus. Será cada vez pior sem a vacina.