Cultura

'A academia de letras tem que ser para a cidade um ponto de referência', diz novo presidente da AAL

Carlos Eduardo Brefore Pinheiro, 43 anos, assumiu a presidência da Aacademia Araçatubense de Letras no final de novembro; ao Hojemais Araçatuba, ele fala dos planos para o próximo ano, parcerias e da importância da cultura e educação andarem juntas

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba
12/12/22 às 20h30

"Gerir uma instituição tal qual a AAL é ter como prerrogativa que o principal objetivo de um órgão como esse, tendo como palno de fundo uma sociedade globalizada e midiática, tecnológica e imediatista, informada e desinformada, polarizada e partida, multifacetada em suas diversas correntes ideológicas - o nosso objetivo basilar é mostrar às pessoas que a arte é uma ferramenta imprescindível no processo de educação do homem". 

O trecho acima faz parte do discurso de posse do novo presidente da AAL (Academia Araçatubense de Letras), Carlos Eduardo Brefore Pinheiro, 43 anos, que ficará no cargo pelo biênio 2023 - 2024. Escritor e professor, Pinheiro tomou posse no final de novembro, após votação dos membros da AAL, marcando os 30 anos de instituição e sendo o 11º presidente do grupo. 

O novo presidente é membro da academia desde 2017; escreveu dois livros, Entre o ínfimo e o grandioso, entre o passado e o presente: o jogo dialético da poética de Manoel de Barros  e Clarice Lispector e a Tragédia do Tédio da Repetição,  ambos frutos de suas teses do doutorado e pós-doutorado, respectivamente, pela USP (Universidade de São Paulo). 

(Foto: Manu Zambon/Hojemais Araçatuba)

Ao Hojemais Araçatuba , o presidente falou dos projetos para o próximo ano, parcerias e da importância da educação e cultura andarem juntas.

Projetos

"O primeiro ponto é resgatar a questão da discussão literária. A academia tem essa perspectiva de fomentar a criação de escritores locais. Penso que a academia também precisa investir na divulgação dessa literatura sem fronteiras. Nós somos um ponto de referência regional. Temos que saber o que está acontecendo com a literatura brasileira, vestibulares, autores estrangeiros, literatura clássica, contemporânea", explica. 

Nesse sentido, para 2023, Pinheiro conta que já pensou em algumas estratégias, que envolvem as áreas da pedagogia e cultura. Sendo assim, ele explica que irá basear algumas ações no calendário anual de celebrações, para pautar reuniões fechadas do acadêmicos.

Como exemplo desse calendário de celebração, ele destaca os 50 anos da estreia da obra O Bem-Amado, 200 anos de nascimento de Gonçalves Dias, Dia Mundial da Poesia, entre outras datas. "A proposta é trazer um resgate dessa literatura e abrir espaços para discussões literárias", complementa. 

Para o público

Além das sessões fechadas, Pinheiro lembra das ações abertas ao público. Para esses eventos, a ideia é unir ainda mais a cultura com a educação. Para debater diferentes temas, levantar reflexões e falar de áreas de conhecimento, professores serão chamados para palestrar para o público presente. "Para as reuniões abertas, tenho essa proposta, que é de ligar a academia com a escola".

A sessões abertas são sempre divulgadas nas redes sociais do grupo e são gratuitas. 

Grupo Experimental

Além da ponte com a escola, a academia também pretende manter a proximidade e criar ainda mais vínculo com o GE (Grupo Experimental), que é uma parte importante e de certa forma ligada à AAL, pois revela novos escritores. 

Segundo ele, já são dois projetos engatilhados com o grupo; no primeiro semestre de 2023, em cada reunião do GE, um acadêmico da AAL irá falar de literatura sertaneja, cujos representantes são José de Alencar, Euclides da Cunha, Raquel de Queiroz, Guimarães Rosa, entre outros escritores.  

"Será um espaço de discussão, que eu acho que é muito interessante pensando nesse público que compõe o Grupo Experimental".

Para o segundo semestre, a ideia é falar sobre Lygia Fagundes Telles (1923-2022), escritora importante que integrava a Academia Brasileira de Letras. "Em reuniões, um acadêmico irá trabalhar um conto de Lygia. O objetivo é resgatar essa escritora importantíssima". 

Vídeos

Além de vislumbrar os novos projetos, Pinheiro pretende manter parcerias e atividades que estão em andamento. Um dos exemplos é o programa "Nossos Escritores”, iniciativa que teve início no ano passado, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura de Araçatuba. 

O projeto consiste em uma série de vídeos com alguns escritores da AAL, que levam ao público informações sobre obras e pontos de vista sobre literatura e sociedade. 

Já em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, Pinheiro vê a possibilidade de retomar o projeto Caminho das Letras, com alunos da rede municipal de ensino de Araçatuba. Por meio desse ação, alunos têm a chance de conhecer a AAL e participar das atividades sob orientação dos membros da academia e acompanhados de seus professores.

"A arte, cultura e educação andam de mãos dadas. Precisamos resgatar, porque a arte está resistindo, assim como a universidade, a pesquisa, as editoras".  

Momento  

Já sobre a situação atual da AAL, Pinheiro lembra primeiro do momento delicado em relação à cultura e educação pelo qual o Brasil passa. "Os últimos anos foram bastante complicados (...). Penso que estamos passando por um momento de transição, independente do governo que entra e sai. A gente tem que bater o pé em relação à defesa da cultura, ensino público, ensino universitário, da pesquisa. Não tem como a gente construir uma sociedade politizada sem esses pilares". 

Por isso, Pinheiro frisa que a academia tem um papel importante na sociedade. "A Academia de Letras tem que ser para a cidade um ponto de referência, assim como é a secretaria de educação, de cultura. Por isso tenho esse desejo de fazer parcerias com o pessoal da cultura, da educação. Nós temos várias atividades ao longo do ano". 

Junto com Pinheiro, três novos acadêmicos assumiram cadeiras na AAL. São três pessoas jovens e que reforçam a ideia de que o público tem que saber que a academia é um lugar plural e não apenas de pessoas mais velhas, que já têm uma longa trajetória.

"A academia é mista. Temos os acadêmicos jovens entrando, as pessoas aposentadas, profissionais que estão na ativa, produzindo, em sala de aula, escrevendo para os jornais, e temos gente começando. Isso é fundamental para o diálogo. Ter diferentes faixas etárias no grupo, homens e mulheres, diferentes etnias. O espaço cultural tem que ser plural", finaliza. 

(Foto: Antônio Reis/Divulgação)
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