Entre os filmes traduzidos e conhecidos do grande público, estão Dia do Sim, Dançarina Imperfeita, Radioactive e O Informante, todos ficaram em primeiro lugar em uma das plataformas. Além dos longas-metragens, Matheus cita ainda o documentário ganhador do Oscar em 2021, Professor Polvo, legendado por ele.
Já entre as séries, estão a coreana All Of Us Are Dead, Será Isso Amor? -novela turca que foi um sucesso entre o público, e The Expanse, sua série atual preferida. Além dessas, Matheus destaca ainda as séries
How I Met Your Father
, que traduziu inteira, e alguns episódios de
How I Met Your Mother
.
Dinâmica
Por ser freelancer, Matheus trabalha em home office e conta que não existe uma demanda fixa de trabalhos por mês. No início da pandemia, por conta do número alto de pessoas consumindo os produtos audiovisuais, a demanda foi ligeiramente maior se comparada com meses anteriores. Com a pausa das gravações, alguns trabalhos ficaram parados, mas agora expectativa é que as produções sejam normalizadas e a demanda se mantenha alta por um tempo.
O profissional explica que o tempo médio de cada tradução varia bastante, dependendo do tamanho do arquivo e do tradutor. A média dos tradutores é um dia de trabalho para traduzir 30 minutos de vídeo. A remuneração, na maioria das agência, é por tempo de vídeo, ou seja, quanto mais longa for a produção, maior é a renda.
“O processo seria traduzir enquanto vejo o vídeo, depois ler somente o texto para encontrar erros e arrumar a naturalidade da legenda e, por fim, revisar o texto com o vídeo”.
Comédia
Em caso de documentários, que tem mais falas e conteúdo mais denso e técnico, ou reality show ou programa de variedade, o tempo pode ser maior, se comparado com um filme ou série de drama.
“Documentários geralmente envolvem muito mais pesquisa do que os outros. Os mais fáceis são os filmes de terror, suspense, porque geralmente não têm diálogos muito densos. Usam o linguajar mais popular. Em comédias, é preciso pensar bastante para adaptar piadas”, detalha.
No caso das piadas, a recomendação é evitar traduzir literalmente, já que assim a piada seria perdida na legenda e a cena não faria sentido para quem não tem conhecimento do idioma original. “É sempre melhor adaptar piadas para a cena fazer sentido dentro da própria legenda e ter o humor que o criador da série quis passar. É claro que há vezes em que não é possível, tipo algum trocadilho, aí usar a forma literal seria o mais indicado”.
Depois da entrega, o arquivo é enviado a um revisor e em algumas vezes, o trabalho passa por uma fase de aceitação, em que o tradutor tem acesso ao foi alterado e se concorda com a mudança.
Como tudo começou
Matheus começou sua trajetória profissional em 2013, porém, seu contato com o assunto surgiu bem antes. Em 2007, ele conta que começou a se interessar em assistir vídeos internacionais no áudio original, porque até então, só consumia obras dubladas. Porém, os filmes com os áudios originais não tinham legendas e ele tentava entender o contexto pelas cenas e usando o seu vocabulário em inglês, que na época era limitado. “Eu me esforçava, não entendia, mas continuava repetindo o mesmo processo”.
Três anos depois, teve seu primeiro contato com as legendas embutidas em arquivos de vídeo em .rmvb, disponibilizados por fansub, grupo de tradutores voluntários. Sem saber como as legendas eram feitas, em 2011, recebeu uma proposta de um colega para traduzirem um filme infantojuvenil que havia sido lançado. Mesmo informal, essa foi sua primeira tradução audiovisual.
Matheus foi descobrindo cada vez mais séries, assistindo e treinando o inglês, utilizando as legendas em português como ferramenta. Em 2013, sua série preferida da época, Being Human, havia ficado sem legendas na 3ª temporada. Uma das equipes de fansub resgatou a série e precisava de ajuda na criação das legendas. Matheus se ofereceu para ser voluntário e acabou ganhando um treinamento para usar o programa Subtitle Workshop.
Primeiro portfólio
No início de 2017, passou em testes como freelancer para duas empresas de streaming. “No começo de 2018 eu ainda não havia recebido projeto algum das empresas em que havia passado e pensei que não fosse dar certo. Fiquei com aquele sentimento de ‘mais um na multidão’. Eu estava recém-formado e também não conseguia encontrar emprego na área de formação. Continuei fazendo minhas legendas voluntárias e estudando até que algo surtisse efeito. Apesar do desânimo, em fevereiro daquele ano, peguei um curta de ficção científica no YouTube, fiz a legenda dele e tentei a sorte enviando ao diretor do mesmo — o meu pontapé inicial. Ele me agradeceu pela boa vontade e disse que colocaria a minha legenda nos canais oficiais onde o filme estava disponibilizado (YouTube e Vimeo). Foi ali que vi a minha primeira chance: o meu primeiro portfólio”.
Em menos de um mês, uma das empresas que atendem uma plataforma de streaming o chamou para participar do primeiro projeto. Depois disso, começou a ter mais oportunidades e foi se aperfeiçoando com os feedbacks dos revisores. Como consequência, Matheus desistiu de seguir carreira na engenharia, usando apenas os conhecimentos adquiridos dela nas próprias legendas: a linha de raciocínio e a organização.