Cultura

Desequilibrado, ‘Thor: Amor e Trovão’ é só estética e piada ruim

“O diretor parece não conseguir equilibrar humor e, antes de tudo, alívio de tensão. Seu estilo de comédia cínico e juvenil, embora espirituoso, parece sempre deixar de lado situações de vulnerabilidades sinceras”

Válter Soares de Souza*
11/07/22 às 19h00
(Foto: Divulgação)

O diretor neozelandês Taika Waititi é engenhoso e visionário, fato. Seu humor irreverente não é para todos, mas como artista que celebra e faz questão de destacar a cinematografia, suas obras entregam uma identidade visual ímpar e belíssima, quase sempre carregadas de cores e de uma sinergia que sempre funcionam, especialmente se tratando do mundo amplo dos super-heróis. É uma pena, no entanto, que ele tenha feito escolhas de modo tão desequilibrado em ‘Thor: Amor e Trovão’.

O roteiro, escrito por ele próprio, é vazio e não se arrisca ir muito além do convencional. Se sustenta basicamente por sequências de ação embaladas por clássicos do rock e um humor requentado do filme anterior (‘Thor: Ragnarok’), por vezes pastelão, por vezes non-sense. Pouco restou, para o bem ou para o mal, do personagem apresentado ao cinema em 2011. Não é uma escolha ruim, já que super-heróis dos quadrinhos quase sempre funcionam melhor no cinema com uma boa dose de humor. Ainda assim, algumas sequências trazem piadas tão fora do eixo que nos arrancam do filme.

Na trama, o herói interpretado por Chris Hemsworth, está às voltas com questões existenciais depois de todas as perdas que precisou enfrentar como produto das últimas aventuras. Acompanhando os Guardiões da Galáxia em batalhas interplanetárias, Thor percebe que só a dedicação ao autoconhecimento poderá trazer a ele paz interior. Contudo, sua longa meditação é prontamente interrompida quando um assassino galáctico conhecido como Gorr, carniceiro dos deuses, decide extinguir os onipotentes desse universo como vingança pela morte de sua filha.

Enquanto isso, na Terra, a ex-namorada de Thor, Jane Foster, interpretada por Natalie Portman, passa a empunhar o lendário martelo Mjolnir, ganhando assim o título de Poderosa Thor. Consequentemente, o caminho dos dois heróis se cruza conforme o plano do antagonista entra em prática e se “desenvolve”.

Comédia

À primeira vista, apesar de toda a confusão narrativa que esses filmes carregam como herança um dos outros, a ideia de brincar com o gênero da comédia romântica – algo mais contido e construído em torno do afeto e conflito entre os dois personagens que se amam – dentro do contexto de super-heróis, parece promissora. No entanto, assim como em todas as recentes tentativas da Marvel de introjetar algum gênero diferente em seus filmes, a promessa não é totalmente cumprida.

O diretor parece não conseguir equilibrar humor e, antes de tudo, alívio de tensão. Seu estilo de comédia cínico e juvenil, embora espirituoso, parece sempre deixar de lado situações de vulnerabilidades sinceras – que poderiam potencializar o humor por contraste – para seguir uma ironia um tanto estranha e deslocada que, inevitavelmente, acomete aos personagens um modo de ser galhofa e rasteiro, até se anularem quase que completamente numa insípida persona jocosa e unidimensional.

O assassino de deuses, por sua vez, que empilha cadáveres de divindades ao longo de sua jornada desde que perdeu a filha ao não ter as próprias preces respondidas, como manda a cartilha, é um malvado que não é exatamente maligno, sendo somente um sujeito injustiçado que vai ao extremo. Mesmo com Christian Bale bem no papel e protagonizando boas sequências, o personagem não se salva da mediocridade de seu arco e da inerente subutilização do ator. É o trabalho dele, no entanto, que eleva o filme e o faz fugir de um fiasco.

Felizmente, o texto e a condução de Waititi entendem bem a necessidade por uma agilidade narrativa e a trama demora muito pouco para ser colocada em movimento. E, diferente do que estamos acostumados nas outras produções do estúdio, tudo o que é preciso saber, o roteiro nos conta. Todavia, a escolha estética e musical, somada ao uso sem limites de piadas, do jeito que ficou, até pode divertir, talvez, com bastante boa vontade, mas o longa não consegue nem ser um bom filme do Thor e, muito menos um bom filme de Taika Waititi.

Título Original: Thor: Love and Thunder

Estreia: 7 de julho de 2022 (Brasil)

Duração: 119 minutos

Gênero: Ação/Aventura

Direção: Taika Waititi

Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Christian Bale, Tessa Thompson, Jaimie Alexander, Taika Waititi, Russell Crowe, Chris Pratt, Pom Klementieff, Dave Bautista, Karen Gillan, Vin Diesel, Bradley Cooper, Sean Gunn, Matt Damon, Sam Neill, Luke Hemsworth, Melissa McCarthy, Kat Dennings, Stellan Skarsgard.

(Foto: Arquivo pessoal)

*Válter Soares de Souza Júnior é jornalista, pesquisador e entusiasta das mídias. Cinéfilo, com aprofundamento em críticas cinematográficas pelo Espaço Itaú de Cinema. Apaixonado por música e pelos esportes. Enquanto o Timão existir, estará sempre do lado alvinegro da Força!

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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