O maracatu é uma manifestação da cultura popular brasileira, no entanto, em alguns locais, é conhecido de maneira equívoca, como folclore. Por meio desse movimento, o povo se expressa, seja por instrumentos, rítmos, danças ou loas - como são chamadas as músicas tocadas no maracatu.
A expressão traz em suas raízes uma mistura das culturas africana, portuguesa e indígena, e tem ligação forte com as religiões de matriz africana. Sendo assim, é uma manifestação genuinamente brasileira, criada em Pernambuco, e que se tornou, em 2014, por meio do Iphan (Instituto Histórico Artístico Nacional), patrimônio cultural imaterial do Brasil.
Em Araçatuba, que fica a mais de dois mil quilômetros do berço do maracatu, a expressão começou a ter força nos últimos anos. Além de ser representado em grupos religiosos de matriz africana, o maracatu também ganhou um grupo no município.
Agora, a expressão é prestigiada com mais um capítulo na cidade. Isso porque foi votado, e aprovado, na Câmara de Araçatuba, na última segunda-feira (27), o projeto de lei que institui o 1º de agosto, como o Dia Municipal do Maracatu. Na data, já se comemora o Dia Nacional do Maracatu.
Por se tratar de uma cultura que sofre preconceito, o Hojemais Araçatuba ouviu líderes mulheres que são ligadas à cultura e religião de matriz africana, sobre a perspectiva de ter um dia específico para celebrar o maracatu e se isso poderia realmente contribuir com a diminuição do racismo.
Nação Porto Rico
A batuqueira da Nação Porto Rico de Recife (PE), Aline Benitez, fundou em Araçatuba o grupo Baque D´Orum, que no final de 2023 completa 5 anos. O grupo é de maracatu de baque virado, que usa instrumentos específicos, danças e loas.
O movimento Baque D´Orum responde para a centenária nação do maracatu Porto Rico, de Recife, fundada em 1916, onde os líderes são Mãe Elda de Oxóssi e o Mestre Chacon Viana. Especificamente o maracatu Porto Rico é uma manifestação dos negros que foram escravizados em algumas regiões da África e deportados. No Brasil, eles usaram esse movimento para trabalhar sua religiosidade, costumes, de uma forma escondida do homem branco.
Dessa forma, Aline destaca que a aprovação da lei na cidade cumpre seu papel legal em reconhecer, segundo a lei federal 12.345 de 2010, alta significação étnica e cultural do maracatu para a sociedade brasileira. Para Aline, o Dia do Maracatu é uma reparação histórica, um reconhecimento de que tem cultura afro-brasileira na cidade.
"Para Araçatuba, fica o legado de ter uma manifestação legítima de maracatu, filha de uma nação centenária chamada nação de maracatu Porto Rico. Algo de extrema importância cultural tanto pra cidade quanto pro movimento nacional do maracatu, que ultrapassou os limites metropolitanos de Recife e chegou até o noroeste paulista".
Ações
A líder do grupo comenta que o Baque D´Orum ainda é um movimento novo na cidade, que ainda precisou enfrentar esse período de pandemia e precisou se ajustar. Porém, mesmo com alguns entraves, o projeto já trouxe para Araçatuba oficinas percussivas, de manutenção e confecção de instrumentos.
"Ensinamos a história toda do maracatu, sempre alinhada com a realidade sociocultural ao longo dos tempos. Desenvolvemos apoio pedagógico durante 12 meses para as crianças entre 3 e 11 anos".
