Cultura

Dia Municipal do Maracatu é uma forma de lutar contra o racismo

Líderes acreditam que o projeto de lei que institui o Dia do Maracatu em Araçatuba, pode combater o racismo cultural, estrutural e religioso

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba
02/04/23 às 11h30
Foto do maracatu Nação em Pernambuco (Cristiana Dias/Secretaria de Cultura de Pernambuco)

O maracatu é uma manifestação da cultura popular brasileira, no entanto, em alguns locais, é conhecido de maneira equívoca, como folclore. Por meio desse movimento, o povo se expressa, seja por instrumentos, rítmos, danças ou loas - como são chamadas as músicas tocadas no maracatu.  

A expressão traz em suas raízes uma mistura das culturas africana, portuguesa e indígena, e tem ligação forte com as religiões de matriz africana. Sendo assim, é uma manifestação genuinamente brasileira, criada em Pernambuco, e que se tornou, em 2014, por meio do Iphan (Instituto Histórico Artístico Nacional), patrimônio cultural imaterial do Brasil. 

Em Araçatuba, que fica a mais de dois mil quilômetros do berço do maracatu, a expressão começou a ter força nos últimos anos. Além de ser representado em grupos religiosos de matriz africana, o maracatu também ganhou um grupo no município.

Agora, a expressão é prestigiada com mais um capítulo na cidade. Isso porque foi votado, e aprovado, na Câmara de Araçatuba, na última segunda-feira (27), o projeto de lei que institui o 1º de agosto, como o Dia Municipal do Maracatu. Na data, já se comemora o Dia Nacional do Maracatu.

Por se tratar de uma cultura que sofre preconceito, o Hojemais Araçatuba ouviu líderes mulheres que são ligadas à cultura e religião de matriz africana, sobre a perspectiva de ter um dia específico para celebrar o maracatu e se isso poderia realmente contribuir com a diminuição do racismo. 

Nação Porto Rico 

A batuqueira da Nação Porto Rico de Recife (PE), Aline Benitez, fundou em Araçatuba o grupo Baque D´Orum, que no final de 2023 completa 5 anos. O grupo é de maracatu de baque virado, que usa instrumentos específicos, danças e loas. 

O movimento Baque D´Orum responde para a centenária nação do maracatu Porto Rico, de Recife, fundada em 1916, onde os líderes são Mãe Elda de Oxóssi e o Mestre Chacon Viana. Especificamente o maracatu Porto Rico é uma manifestação dos negros que foram escravizados em algumas regiões da África e deportados. No Brasil, eles usaram esse movimento para trabalhar sua religiosidade, costumes, de uma forma escondida do homem branco. 

Dessa forma, Aline destaca que a aprovação da lei na cidade cumpre seu papel legal em reconhecer, segundo a lei federal 12.345 de 2010, alta significação étnica e cultural do maracatu para a sociedade brasileira. Para Aline, o Dia do Maracatu é uma reparação histórica, um reconhecimento de que tem cultura afro-brasileira na cidade.

"Para Araçatuba, fica o legado de ter uma manifestação legítima de maracatu, filha de uma nação centenária chamada nação de maracatu Porto Rico. Algo de extrema importância cultural tanto pra cidade quanto pro movimento nacional do maracatu, que ultrapassou os limites metropolitanos de Recife e chegou até o  noroeste paulista". 

Ações

A líder do grupo comenta que o Baque D´Orum ainda é um movimento novo na cidade, que ainda precisou enfrentar esse período de pandemia e precisou se ajustar. Porém, mesmo com alguns entraves, o projeto já trouxe para Araçatuba oficinas percussivas, de manutenção e confecção de instrumentos.

"Ensinamos a história toda do maracatu, sempre alinhada com a realidade sociocultural ao longo dos tempos. Desenvolvemos apoio pedagógico durante 12 meses para as crianças entre 3 e 11 anos". 

Grupo Baque D´Orum (Foto: Divulgação)

De acordo com Aline, somente o grupo trouxe para cidade quase R$ 400 mil em ações culturais. Todas voltadas ao povo periférico. 

"A gente tenta abrir possibilidades pra quem está lá na periferia de Araçatuba, sem ser visto direito pela sociedade e sem oportunidade de absorver nada novo. Oferecemos um letramento racial, ensinando cultura afro, dando exemplos de negros que foram e que são brilhantes, mas que não estão nos livros tradicionais.
Oferecemos entretenimento e acesso ao bem cultural, porque estamos lá, na periferia, para a periferia. Oferecemos convivência social, trocamos história e com todas as idades, sempre em torno das africanidades". 

"Em Recife, nossa escola, o caminho de muita gente foi transformado pelo maracatu e eu tenho fé que aqui será assim também. Aos adultos, sempre despertamos pelo menos a curiosidade em saber mais da história dos povos de matriz africana. E nas crianças espero contribuir na formação cidadã. Uma certeza que eu tenho é que o movimento do maracatu pode transformar vidas. (...), em resumo, é a luta contra o racismo estrutural, institucional, religioso, cultural e de todas as formas", completa. 

Aline finaliza, explicando que o grupo está de portas abertas para quem quer ajudar e para quem quer participar e aprender. O Baque D´Orum se encontra aos domingos, das 15h30 às 17h, na Estação Cidadania. As inscrições podem ser feitas pelo link: https://docs.google.com/forms/u/1/d/e/1FAIpQLSeiQbfFogQJYCy8t8tktjeYuezma-pny_BDBgDu6_5HgxERBg/viewform?usp=send_form

Resistência e visibilidade

A ekeji Eliandra Barreto, presidente do Centro Cultural Obadará - espaço voltado para a comunidade, com o objetivo de preservar memória e disseminar conhecimento etnológico, com sede em Araçatuba -, explica que o maracatu é uma manifestação cultural que exalta os povos africanos e se contrapõe à ideologia de embranquecimento.

Vale destacar que no candomblé, ekeji (termo que vem do yorubá, que também pode ser escrito como equede ou ekedi) é a "função" ocupada por uma mulher, que tem a responsabilidade de cuidar do terreiro quando a chefe está incorporado.

Eliandra destaca que o "processo histórico da colonização e da escravidão promoveu o apagamento, o preconceito e a deturpação da arte e da cultura dos povos africanos e dos povos originários". Sendo assim, o maracatu representa um importante mecanismo de militância e resistência. 

"O maracatu dá visibilidade a essa diversidade cultural que compõe lindamente a identidade do povo brasileiro. E essa capacidade do povo brasileiro de criar, de sobreviver e de inventar todos os dias, apesar de todos os seus problemas sociais e econômicos e ter seus saberes apagados por conta do racismo institucional e do racismo religioso que promovem políticas públicas de exclusão", diz Eliandra.  

Nesse sentido, e como exemplo, a ekeji destaca a lei 10.639/03 que alterou a Lei de Diretrizes de Bases da Educação Nacional e estabeleceu a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e africana na educação básica. Ela frisa que essa lei completa 20 anos, porém faz um questionamento: "de fato vem sendo implementada?". 

Grupos ligados ao maracatu participaram da sessão ordinária (Foto: Divulgação)

Combate ao sistema proselitista

"Vimos muito pouco e alguns temas com debates e reflexões muito rasas. As instituições escolares desempenham um papel muito importante nesse processo, as demandas por reparações visam com que o Estado e a sociedade civil criem mecanismos para a criação de políticas públicas antirracistas, mesmo que sejam na força da lei", lembra Eliandra. 

Por isso, a ekeji afirma que em Araçatuba, ao se comemorar o Dia Municipal do Maracatu, traz à tona a diversidade cultural carregada de simbologias dos signos da cultura e liturgia negra e será um dia, não só para Araçatuba, mas para toda a região, para combater um sistema proselitista - sistema que se empenha em converter as pessoas a determinada ideia ou religião, sem que a iniciativa parta delas.

"O racismo institucional, o racismo religioso e o desconhecimento não podem ser elementos para refinar critérios e métodos para as definições de políticas públicas. O dia 1º de agosto deve ser destacado no calendário cultural municipal como forma de promover políticas e práticas que estimulem a interação, a compreensão, o respeito entre as diferentes culturas do município e promover a preservação de uma memória" finaliza Eliandra. 

Projeto de lei

O projeto de lei nº 168 de 2022, de autoria do vereador Wesley da Dialogue (Pode), foi aprovado em sessão ordinária realizada na última segunda-feira (27). A matéria institui e inclui no calendário de eventos da cidade, o Dia Municipal do Maracatu. 

À ocasião, o vereador destacou a importância da manifestação para a construção da identidade do País; citou a Carta Magna e leis federais que discorrem sobre a necessidade de reconhecer e estabelecer datas comemorativas para segmentos étnicos que são importantes para a sociedade.

De acordo com Wesley, o maracatu tem essa importância histórica e patrimonial para o Brasil,  que na prática, tem um impacto positivo em comunidades e na vivência das pessoas, principalmente das crianças, que muitas vezes não têm oportunidade de conhecer mais sobre a cultura do País. 

Nesse sentido, o vereador usou do seu tempo na Tribuna, para também destacar o trabalho do grupo de maracatu Baque D´Orum, que realiza projetos em comunidades de Araçatuba.  

"(...) instituir o Dia Municipal do Maracatu traz representatividade, mas para além disso, atua como uma política afirmativa de valorização desses grupos e enaltece o seu  valor patrimonial que reside em sua capacidade de comunicar elementos da cultura brasileira e carregar elementos essenciais para a memória, a identidade e a formação da população afrobrasileira", disse na justificativa do projeto. 

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