Cultura

Em ‘Não! Não Olhe!’, Jordan Peele cria filme intenso em que a expectativa pode condicionar a experiência

“Coisas caem do céu em trama alienígena que se passa em um rancho onde cavalos são treinados para atuar em filmes”

Valter Soares de Souza Junior*
28/08/22 às 16h00
(Foto: Divulgação)

Após o elogiado ‘Corra!’ e o enigmático, mas menos popular ‘Nós’, Jordan Peele em sua terceira incursão como realizador de um longa-metragem, mais uma vez utiliza o potencial do cinema de gênero para criar alegorias incitantes dentro de uma determinada abordagem de ideias, com pretensão de ir além de uma leitura simples e superficial de roteiro.

Em ‘Não! Não Olhe!’, o diretor mostra que não é refém do que deu certo e cria um espetáculo de tensão crescente, que amplifica o impacto das “revelações” no clímax da aventura.

Longe dos ambientes claustrofóbicos de ‘Corra!’ e ‘Nós’, a ação aqui é grandiosa, arquitetada em locações em que o elemento humano parece minúsculo. Daniel Kaluuya interpreta OJ Haywood, que assume as responsabilidades do rancho da família, em Aqua Dulce, no Deserto da Califórnia, após a morte do pai Otis (Keith David), morto devido uma misteriosa e inexplicável chuva de objetos. Ao lado da irmã Emerald (Keke Palmer), eles tentam dar continuidade ao legado do pai e à importância do rancho, no qual cavalos são treinados para filmagens em Hollywood.

Com dificuldades em lidar com a pressão de seguir os passos do pai e à beira da falência, OJ depara-se certa noite com um fenômeno que não consegue explicar que o aterroriza, similar ao que causou a morte do pai meses antes. Com a ajuda da sua irmã, de um técnico de instalação, Angel (Brandon Perea), e de um fotógrafo de cinema, Antlers Holst (Michael Winicott), OJ parte em busca de explicações, o que pode envolver grandes desafios. Ainda há o núcleo de Ricky Park (Steven Yeun), ex-ator mirim que passou pelo trauma do ataque de um macaco assassino em um set de filmagem e depois virou dono de um parque de diversões vizinho ao rancho, também afetado pelo mistério no céu.

Alien

Era uma questão de tempo até que Peele chegasse à “temática alien” e, quando finalmente a aborda, acaba por romper muitas das fórmulas pré-estabelecidas do gênero e por lhe conferir um twist muito curioso à sua noção. Para tal, o diretor utiliza o poder da sugestão, uma combinação de direção, montagem e trilha sonora, para materializar o perigo constante da presença alienígena. Há um exercício sobre prender a atenção sendo constantemente empregado para manipular a curiosidade.

O trabalho técnico insere uma imersão experimental única ao fazer o público se sentir atraído em contemplar o que quer que seja o fenômeno que se passa. Para isso, planos fechados e movimentos de câmera do ponto de vista capturam bem essa sensação e artifício do cineasta, já que sua temática, predominantemente, se trata de discutir a fixação por espetáculos e o quão condicionamos nossa atenção a isso. Quando, enfim, somos levados à revelação que lança o grande desfecho, ‘Nope’ (título original) torna-se mais previsível e menos enigmático, mas até então revela-se um jogo de sombras e mistérios que vai fomentando teorias no espectador.

Quem é que está por detrás do grande mistério? Serão mesmo aliens? Será fantasia? Será ficção? Será uma entidade divina? Toda a expectativa em torno do que é e quem é o responsável resulta de uma criativa construção narrativa que é acompanhada por um nível cênico e técnico muito interessante. Jordan Peele consegue fazer caber um discurso denso e, por vezes, complexo, em um filme que nunca perde de vista seu caráter de entretenimento.

Mitos e simbolismos

Entretanto, para além da trama central, o longa também é permeado por mitos e simbolismos dentro da própria narrativa. Sob a perspectiva de conjecturas religiosas e mensagens intrigantes, como o poder da imagem, a percepção do olhar ou a perspectiva do que é um milagre, por exemplo, Peele monta uma teia de “sinais” que vão ampliando o mistério e que, em conjunto fazem sentido para a interpretação final da narrativa.

Pessoalmente, creio que uma vez mais, Jordan Peele não conseguiu igualar a excelência de ‘Corra!’, mas tal como em ‘Nós’, apresenta um projeto de ficção e fantasia diferenciado que aborda uma temática popular e transforma-a em algo imprevisível. ‘Não! Não Olhe!’ talvez não seja o filme que esperávamos, até porque não segue propriamente um estilo mais convencional, mas é sem dúvida um projeto à medida do seu diretor que, mais uma vez, nos deixa curiosos para saber o que fará a seguir.

 

Título Original: NOPE

Estreia: 25 de agosto de 2022 (Brasil)

Duração: 130 minutos

Gênero: Suspense/Terror

Direção: Jordan Peele

Elenco: Daniel Kaluuya, Keke Palmer, Steven Yeun, Brandon Perea, Michael Wincott, Keith David, Wrenn Schmidt.

(Foto: Arquivo pessoal)

*Válter Soares de Souza Júnior é jornalista, pesquisador e entusiasta das mídias. Cinéfilo, com aprofundamento em críticas cinematográficas pelo Espaço Itaú de Cinema. Apaixonado por música e pelos esportes. Enquanto o Timão existir, estará sempre do lado alvinegro da Força!

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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