A ideia é de uma simplicidade tão marcante que ninguém jamais havia pensado em desenvolvê-la com tamanha grandeza: mostrar a demência senil de um idoso, sua falta de certezas, sua confusão mental, seus lamentáveis esquecimentos — os mais cotidianos e os mais essenciais, bem como suas vívidas lembranças, seu desequilíbrio e suas quedas no terror de se sentir absolutamente perdido em sua casa, exposto a um labirinto indecifrável, do seu próprio ponto de vista mental.
Adaptando uma peça de sua autoria e usando com proficiência notável um recurso tão simples quanto a decoração do set, o estreante em cinema, porém notável dramaturgo francês Florian Zeller, faz do próprio filme uma manifestação da demência que acomete seu protagonista. Um drama profundamente doloroso e felizmente humano, que se aproxima da doença com o tato da devoção e do carinho, mas também com a aspereza da verdade.
Sem grandiloquências na encenação, o cineasta vai mostrando os sucessivos encontros do protagonista com sua filha, sua cuidadora e seu genro no apartamento onde mora, com ressalva de que os intérpretes vão mudando de identidade, revelando os rostos acompanhantes de uma memória avariada para sempre, assim como os rumos inseguros de um homem que se sente não apenas atordoado, mas também enganado, formando assim uma espécie de “thriller de enganos”.
Não há dúvida de que o apartamento que se vê em cena pertence ao homem que ali está: o gosto masculino e decidido, o ambiente que transpira hábitos há muito vividos — tudo é como que um reflexo de Anthony (Anthony Hopkins), que ainda irradia a racionalidade, a competência e a autoridade de que provavelmente desfrutou a vida inteira.
Anthony, que Hopkins interpreta com formidáveis inteligência e desassombro, descarta impaciente as preocupações da filha e, para fazer pouco delas, faz pouco da própria Anne (Olivia Colman) e a fere com comentários maldosos.
Inseguranças
Anthony está marcando território, no sentido figurado e também no literal: pelo jeito como Anne entra no apartamento, pressente-se uma regularidade maior nas suas visitas; e, embora ela disfarce melhor do que muitos a apreensão, o pai é perceptivo demais para não se ressentir dela — porque, apesar de não o admitir nem para si mesmo, ele reconhece os sinais que Anne está detectando.
A insegurança de Anthony, enfim, é brutal. É como se sua vida se tivesse transformado em um quebra-cabeça que nunca se encaixa. Também o espectador luta para montar as peças da narrativa. A confusão mental do ser humano que se esgota é a nossa como espectadores, que enfrentamos a situação de não saber onde nos colocarmos ante um desafio que alcança até mesmo a esfera da moral.
Tecnicamente, o aspecto mais chamativo de ‘Meu Pai’, especialmente com relação aos demais filmes que abordam protagonistas com alguma deficiência física ou mental, é ter sua forma adequada à deficiência abordada (no caso, o Alzheimer), em que a experiência fílmica tenta de alguma maneira recriar através da imagem o sentimento de se estar com ela para que o espectador sinta mais empatia pelo referido deficiente.
No entanto, se essa escolha teoricamente garantiria uma maior proximidade ao personagem debilitado em termos de drama, na prática não traz exatamente esse efeito. Porque no fim das contas, o jogo difuso criado pela montagem com as memórias do protagonista sendo revividas em ordem não cronológica acaba desviando a atenção que deveria ser destacada à dramática de sua decadência, potencializada pelo seu ponto de vista.
Ainda assim, à sua maneira, ‘Meu Pai’ é implacável. Se o cinema americano costuma adocicar ou pelo menos abrandar o tema doença introjetando nele possibilidades de reconciliação, lições de vida ou superação, o cinema europeu é em geral bem mais desenganado. Neste sentido, em algum momento, o desfacelamento do pai torna impossível à filha encontrar terreno comum com ele, e é inevitável que eles se desprendam um do outro; é lindo, mas extremamente triste e emocionante.
‘Meu Pai’ está atualmente disponível no Brasil nos catálogos da Amazon Prime Video e da Apple TV+.
Título Original: The Father
Estreia: 8 de abril de 2021 (Brasil)
Duração: 97 minutos
Gênero: Drama
Direção: Florian Zeller
Elenco: Olivia Colman, Anthony Hopkins, Mark Gatiss, Olivia Williams, Imogen Poots, Rufus Sewell, Ayesha Dharker, Roman Zeller.