No auge dos seus 88 anos, dizer que Elza Soares é uma das maiores cantoras e compositoras do País é muito pouco. Com uma capacidade surpreendente de se reinventar, segundo a crítica, a Elza do século 21, ou melhor dizendo, “a mulher do fim do mundo”, canta para o mundo atual, para públicos diversos; dos mais novos aos mais velhos.
Sua trajetória e relevância no meio artístico são indissociáveis à cultura brasileira. Com mais de 30 discos gravados (sem contar as coletâneas), Elza não para. No mês passado lançou o clipe da música “O que se cala”, do álbum “Deus é mulher”, indicado ao Grammy latino deste ano. A canção, que fala de liberdade, é de autoria de Douglas Germano.
Em 2016, recebeu o Grammy Latino de melhor álbum com “A mulher do fim do mundo” e foi eleita, em 1999, a cantora brasileira do milênio pela Rádio BBC de Londres. Com a turnê “A Voz e a Máquina”, Elza subiu ao palco na praça João Pessoa, em Araçatuba (SP), em novembro de 2018, finalizando a programação do Festara (Festival de Teatro de Araçatuba).
Em entrevista coletiva concedida após a apresentação, a cantora deixou sua mensagem sobre violência contra a mulher, feminismo, luta e música.
Feminismo
“Já nasci gritando.” Essa é a frase que Elza usou para explicar o momento em que se descobriu feminista. De acordo com a cantora, desde criança lutava pela “mulher de dentro de cada um”. “Eu acho que a gente grita até sem consciência. A mulher vem aí pedindo não mais silêncio. Por isso que hoje eu peço: gritem bastante”, comenta, fazendo referência à canção “Dentro de Cada Um”.
Um dos exemplos de música considerada um símbolo da sua militância está “Maria da Vila Matilde”, que compõe o disco “A Mulher do Fim do Mundo” (2015). Elza lembra que conheceu, há um tempo atrás, uma mulher de Belo Horizonte (MG) que era agredida pelo marido e que fez a denúncia graças à canção e conseguiu se reerguer após esse período.
Mesmo sendo uma pioneira do movimento ativista feminino, a artista comenta que não se sente feliz ao inspirar aquelas que sofrem qualquer tipo de violência. “Seria tão bom se não acontecesse isso. Mas eu podendo colaborar, me sinto bem colaborando. Mas não me faz feliz.”
Luta
Elza relata que nunca teve um artista ou música que a encorajasse em sua trajetória. Ela mesma foi o seu único suporte de incentivo. “Eu, na minha coragem, criança, numa família pobre e negra, precisava de um apoio. Não tinha em quem me apoiar, além de mim mesma. Não tive ninguém que me falasse para ir lá e fazer”.
Se por um lado a “mulher do fim do mundo” não teve quem a encorajasse, seus shows são repletos de mensagens de empoderamento e luta. “A gente tem que mostrar a realidade das negras, de músicas fortes, incentivando as pessoas a terem a coragem pela luta e pela vida. Pular é muito fácil”.
Mesmo acreditando ser sensacional o recorte abordado pelo Festara neste ano, em que a cultura negra foi a temática principal na maioria das apresentações, Elza se diz incomodada com a dualidade dos termos “pessoas negras” e “pessoas brancas”.
“Eu vejo gente, eu vejo povo. Não vejo diferença entre as pessoas. Ainda não sei explicar muito bem isso. Somos iguais, nascemos iguais, sofremos iguais. Não há diferença na dor.”
Realidade
A sua capacidade de se reinventar e falar por meio da música com fãs de todas as idades tem como objetivo, segundo ela, passar a realidade. “A nossa juventude sofre muito. Não temos bons colégios. Não temos nada de tão bom. Eu cito o Cazuza nos shows para ajudar que eles cresçam.”
Ainda sobre a realidade vivida hoje pelos brasileiros, Elza afirma que o cenário pede que todos continuem lutando por seus direitos. “Eu pensei que a gente já estivesse num tempo de descanso, mas vejo que a luta vai ficar mais árdua. Lutar e resistir.”