Cultura

Procura por livros escritos por mulheres aumenta no Brasil

Destaque de vendas na 26º Bienal, a literatura feita por mulheres ganha cada vez mais visibilidade no Brasil com projetos e iniciativas que incentivam e estimulam a representatividade

Da redação - Hojemais Araçatuba
28/07/22 às 21h00
(Foto: Divulgação)

A Bienal Internacional do Livro de São Paulo encerrou sua 26ª edição com um recorde de público: 660 mil visitantes - número 10% superior ao da edição de 2018 - e aumento de 40% no ticket-médio, que foi de R$ 226,94, segundo pesquisa realizada pela SMTur (Secretaria Municipal de Turismo), por meio do SPturis (Observatório do Turismo, da São Paulo Turismo). 

Além dos números positivos e do bom resultado com o público, outro destaque foi a procura por obras escritas por mulheres. Na Rocco e na Record, por exemplo, elas dominaram os rankings dos mais vendidos. Na Rocco, as obras de Clarissa Pinkola Estés ( Mulheres que correm com os lobos ), Alice Oseman ( Rádio silêncio ), os títulos do personagem Harry Potter, de J.K. Rowling, e o livro A cantiga dos pássaros e das serpentes , de Suzanne Collins, lideraram as vendas. Já no Grupo Editorial Record, que teve um faturamento três vezes maior do que na edição de 2018, as escritoras também dominaram a cena: dos 100 títulos mais vendidos do estande, 92 são de mulheres.

Estes números mostram uma tendência clara: os leitores brasileiros estão mais interessados em diversidade e equidade de gênero, uma mudança grande desde que Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília, publicou um estudo sobre o tema, em 2015. Na época, a pesquisadora mostrou que, entre 1990 e 2004, de todos os livros nacionais publicados no país pelas grandes editoras, quase 73% eram assinados por homens.

Não há, ainda, pesquisa que aponte números recentes desse cenário, mas sim muitas iniciativas que indicam uma grande transformação. Uma delas foi o evento viral que começou em São Paulo - liderado pelas escritoras Giovana Madalosso, Nathália Timmerman e a jornalista Paula Carvalho - e se espalhou pelo Brasil inteiro: escritoras se reuniram em suas cidades para fotos históricas que retratam a força da literatura feita por mulheres no País. Os registros foram feitos em cerca de 36 cidades (incluindo Lisboa e Londres) com 1.600 mulheres até agora - as fotos continuam acontecendo.

Mudança no mercado

Nathan Matos, da Editora Moinhos, conta que nos últimos cinco anos houve uma mudança mercadológica substancial e fala que as pequenas editoras vêm contribuindo bastante nessa mudança de cenário. Ele lembra que o primeiro livro a ser lançado pela Moinhos foi de uma escritora. "Lembro que durante um pequeno momento, ficou algo entre 40% mulheres e 60% homens. Mas, nos últimos três anos, isso mudou absurdamente. Acho que agora estamos com uma porcentagem de 80% de obras de autoras", conclui.

(Foto: Divulgação)

Esse movimento mostra que está se abrindo mais portas e oportunidades para as mulheres, dando mais chances para que as escritoras possam mostrar seu trabalho e ganhar espaço nas prateleiras. Hoje, há diversas editoras especializadas em livros escritos por mulheres, como a Quintal e a Bazar do Tempo, e livrarias especializadas em livros de autoria feminina, como a Gato sem Rabo, em São Paulo. Há também, em Curitiba, a Amora Livros, clube de assinatura de livros escritos por autoras contemporâneas que entrega mensalmente livros para os seus assinantes em todo o território nacional. Isso sem falar nos clubes de leitura, coletivos, grupos de discussão e outras iniciativas que têm o objetivo de equilibrar melhor essa balança literária e trazer para a pauta uma reflexão importante: a equidade de gênero na arte.

"A nossa curadoria parte de uma escolha, como são todas as curadorias. Fizemos um recorte para levar ao público - homens e mulheres - livros de escritoras vivas - ou seja, mulheres que nos trazem uma visão do mundo atual sob a perspectiva feminina. Isso não quer dizer que sejam livros 'para mulheres' ou sobre temáticas exclusivamente 'femininas'. Nossa missão é dar espaço a vozes que, historicamente, foram silenciadas, que ficaram fora dos cânones literários, ocupam menos espaço nas bibliotecas, livrarias, listas de livros do vestibular, universidades e nas nossas estantes de casa", explica Fernanda Ávila, uma das sócias da Amora.

Vicente Frare, também sócio, faz questão de complementar, afirmando que a "ideia nunca foi excluir os homens. Pelo contrário, queremos que os homens também leiam mais mulheres, pois entendemos que a literatura gera empatia, possibilita um olhar sob outros pontos de vista que pode ajudar a estabelecer relações mais saudáveis e equilibradas. Homens leem poucas mulheres e isso faz com que percam histórias maravilhosas, deixem de conhecer o que e como pensa mais da metade da população mundial", finaliza.

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