Destacar a presença e atuação das mulheres na história da educação brasileira era o objetivo do trabalho de mestrado da professora Jamilly Nicácio Nicolete, de Araçatuba (SP). Foi nessa época que ela conheceu mais sobre a obra da educadora e missionária norte-americana Mary Parker Dascomb.
O livro “Cartas de Mary Parker Dascomb” foi lançado em Penápolis (SP), durante a XX Semana da Pedagogia da Funepe (Fundação Educacional de Penápolis) e em Marília (SP), na XIV Semana da Mulher. Em julho, ela lança em Portugal, no 41º ISCHE (Internacional Standing Conference for the History of Education), que acontecerá na cidade do Porto.
A professora, que é doutora em educação, assina a obra com supervisão e colaboração da pós-doutora na área de história e filosofia da educação pela Harvard University, Jane Soares de Almeida, de Araraquara (SP), falecida no início de 2018. O livro é publicado pela Appris Editora e surgiu como fruto do doutorado de Jamilly.
O livro está à venda no site da editora e também nas livrarias on-lines, como Saraiva e Cultura .
Na obra, elas apresentam a trajetória de Mary Parker Dascomb, que foi a primeira mulher a ser enviada ao Brasil pela missão presbiteriana para lecionar em escolas americanas nos estados de São Paulo e Paraná. Também foi a primeira diretora do Mackenzie.
A educadora trabalhou em são Paulo, Piracicaba, Brotas, Botucatu, mas foi no Paraná que passou o maior tempo de sua vida se dedicando à educação na Escola Americana de Curitiba, conta Jamilly.
Cartas
Um dos materiais cruciais que guiaram a obra foram as cartas de Mary, escritas em inglês arcaico, organizadas nos Anais do Museu Paulista. Além disso, a pesquisadora teve acesso à algumas cartas que estavam em posse do bisneto de Horace Lane, Frank Lane.
Foram traduzidas 193 cartas, em parceria do professor de inglês Marcelo Mendonça. “As missivas foram escritas para o Horace Lane e em nenhuma Mary falou sobre amor. Era sempre sobre a Igreja, a escola, a educação brasileira, questões climáticas, chegadas e partidas, livros, materiais escolares, questões internacionais e até sobre sua família de gatos. Mary Dascomb era bem articulada e bem-humorada”. Além das cartas, Jamilly consultou materiais da missão, em inglês e português, e relatórios de educação.
Mary era diferente das missionárias até então conhecidas, que vinham com seus maridos propagar a Reforma Protestante; ela era solteira. Por não ter marido, ela teria tempo suficiente para organizar, gerir e lecionar nas Escolas Americanas de São Paulo, capital e interior, e de Curitiba, no Paraná, a partir da segunda metade do século XIX até o início do século XX, destacou a orientadora do doutorado de Jamilly, Arilda Ines Miranda Ribeiro, que assina o prefácio do livro.
“A gente precisa contar a história das mulheres. A obra é bacana, porque tentamos fazer isso; uma mulher que foi tão importante para a missão presbiteriana e não existe nada sobre o trabalho dela”, ressalta Jamilly.
Maçonaria
No material pesquisado, Jamilly e Jane encontraram alguns pontos considerados por elas obscuros na história do pensamento confessional brasileiro. Um dos exemplos que ela cita é em relação a missão com a maçonaria, motivo até de racha na Igreja. Jamilly conta que Mary escreve sobre isso em suas cartas. No conteúdo, leituras que deveriam ser evitadas, mas que circulavam entre os interlocutores.
“E até o fato de a missão enaltecer o trabalho feminino como sendo uma demonstração de valorização, quando, na verdade, encontramos documentos que mostram que a presença de uma mulher solteira era mais barata do que a vinda de uma família de missionários”, explica Jamilly.