A jovem de 20 anos acusada de ter atraído o advogado Ronaldo Cesar Capelari, 53 anos, para roubá-lo, disse à polícia que o conhecia havia quatro meses. Ela e o namorado, de 21 anos, foram presos temporariamente e afirmaram que agiram sozinhos.
Segundo a polícia, a investigada disse que indicou falsamente outros três rapazes para proteger o namorado, com o qual manteria relacionamento há mais de dois anos. Nesse período, eles teriam se separado e reatado no início de janeiro.
Em entrevista coletiva na manhã desta sexta-feira (17), delegados da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de Araçatuba (SP) deram detalhes da investigação.
O delegado Paulo Natal explicou que os outros três rapazes que haviam sido presos temporariamente foram soltos porque o que havia contra eles, até então, era a acusação feita pela jovem, que mudou a versão. O trio ganhou a liberdade por volta das 19h de quinta-feira (16).
Entretanto, as investigações prosseguem e a polícia aguardará os laudos periciais e do exame necroscópico que podem apontar se houve a participação de outras pessoas no crime.
Caso
O advogado desapareceu na noite de segunda-feira (13), quando saiu de casa de caminhonete e disse à família que iria à academia. O veículo foi encontrado abandonado na manhã seguinte, em uma estrada de terra que liga Araçatuba a Birigui.
O corpo foi localizado no mesmo dia, durante a noite, na casa da jovem, no bairro Água Branca. O imóvel fica a cerca de 2 quilômetros do local onde a caminhonete foi encontrada.
A vítima foi esquartejada e teve as partes do corpo colocadas em três sacos plásticos que estavam no banheiro. Não havia ninguém na casa.
Na manhã de quarta-feira (15), a jovem foi à delegacia e alegou que apesar de ser a locatária do imóvel, não sabia nada a respeito do corpo, pois não ficava na casa.
Primeira versão
Pressionada, ela confessou ter atraído Capelari até o local para roubá-lo. Na ocasião, disse que o conhecia havia dois meses, que ele já havia estado na casa dela e que foi ideia dos três rapazes presos roubá-lo.
Ainda de acordo com a primeira versão da investigada, ela não é garota de programa, mas foram roubados R$ 200,00 que a vítima levou para dar a ela ao visitá-la. Na ocasião, disse ainda que o advogado foi morto a golpe de machadinha porque reagiu.
Os três jovens presos negaram participação no crime. Um deles não se pronunciou, um negou qualquer envolvimento e o outro disse que foi chamado, mas recusou.
Segundo o delegado, esse terceiro investigado mentiu ao afirmar que havia sido convidado, mas a versão dele justificava o pedido de prisão.
Reviravolta
O caso começou a mudar depois que a polícia recebeu a informação de que o namorado da jovem foi visto na casa dela na terça-feira. Ele foi identificado, localizado e incialmente negou.
Após vê-lo na delegacia e questionada pelas contradições nos depoimentos, a jovem acabou confessando que foi ele quem matou o advogado e esquartejou o corpo, com o auxílio dela.
Sobre o fato de ter mentido no primeiro depoimento, a investigada justificou que um dos rapazes esteve na casa dela na tarde de terça-feira, enquanto a casa era limpa, e os outros dois sempre estão com ele.
Para a polícia, tudo indica que o crime não foi premeditado e que o objetivo realmente era roubar Capelari. Além do dinheiro, eles disseram que queriam pegar os cartões bancários para fazer saques.
Segundo o que foi apurado, a jovem realmente morava na casa onde o corpo foi encontrado e o imóvel era usado para manter relações sexuais.
Como o advogado já a havia encontrado nessa casa, ela o convidou para roubá-lo, mas houve excesso de força e eles decidiram matá-lo.
Morte
Para preservar os familiares de Capelari, a polícia não revelou como ele se aproximou da jovem. Segundo o que foi apurado, o namorado dela não conhecia a vítima. Ele disse que eles namoraram por dois anos, mas ficaram separados por seis meses.
Na versão dele, teria sido nesse período que a investigada teria se aproximado do advogado e o casal teria reatado apenas neste mês.
Os acusados relataram que o advogado chegou ao local por volta das 20h30, estacionou a caminhonete na frente do portão e entrou no imóvel acompanhado da investigada.
Ele foi surpreendido pelo namorado da jovem no corredor, entre o banheiro e o quarto, e teria ficado surpreso, pois pensou que a jovem estivesse sozinha.
“A princípio, o namorado disse que havia anunciado o assalto, mas a menina falou que é mentira, que ele não anunciou o assalto e já o abordou com as duas marteladas na cabeça”, contou Natal.
Grave
Os golpes causaram muito sangramento, a vítima caiu no chão e o casal percebeu que o ferimento era grave. Imaginando que ele poderia morrer, decidiram matá-lo, o que foi feito com golpes de faca.
Quando a vítima retomou a consciência, gemia de dor, por isso foi amordaçada com uma fita adesiva. Capelari se debatia muito e teve as mãos amarradas para trás.
Para não vê-lo sofrendo, o casal colocou um capuz na cabeça dele, o qual foi preso com fita isolante.
Após a vítima ser morta, a jovem disse que ficou apavorada e ligou para outra pessoa com a qual também mantinha relacionamento e pediu para buscá-la.
Essa pessoa foi identificada pela polícia e em depoimento confirmou tê-la buscado naquela noite.
Ela disse ter estranhado o fato de a jovem não ter permitido que entrasse na casa, pois também havia estado com ela no imóvel anteriormente.
Corpo
O namorado da jovem deixou o corpo no banheiro e foi até a caminhonete. Ele acendeu a luz interna para procurar objetos de valor, depois deu a volta no quarteirão e colocou o veículo na garagem.
Por não ter experiência com veículo automático, se apavorou e acabou batendo no muro.
A ideia era dispensar o cadáver junto com o veículo. Como ele não conseguiu pegá-lo sozinho, tentou usar o forro do espelho como prancha para arrastá-lo até a carroceria, com auxílio de uma corda, mas não conseguiu.
Essa foi a prancha com manchas de sangue encontrada na carroceria da caminhonete.
Diante da dificuldade em carregar o corpo, o acusado o levou de volta para a casa e foi sozinho com o veículo até a estrada onde o abandonou e voltou a pé para casa dele.
Esquartejamento
O casal retornou à casa da jovem apenas na tarde de terça-feira para esquartejar o corpo. O serviço teria durado cerca de uma hora e meia.
Outro indicativo de que a morte não foi premeditada, segundo a polícia, é que as ferramentas usadas na ação, inclusive a mangueira, pertencem ao pai do investigado, que as reconheceu.
O jovem chegou a pedir uma carretinha emprestada ao pai, mas desistiu quando ele se ofereceu para ajudá-lo, sem saber do crime.
A polícia também tem provas de que o casal comprou luvas cirúrgicas e os sacos de lixo para se desfazer do corpo.
A jovem não teria participado ativamente da ação. “Enquanto ela ficava lá fora, na frente da casa, ele fazia o trabalho. De vez em quando ela passava as ferramentas, como o serrote, a faca, e os sacos, para ele continuar”, explicou.
Mãos
A ideia de esquartejar o corpo foi para facilitar tirá-lo de casa, já que não conseguiram carregá-lo. As mãos da vítima não foram localizadas e, segundo o investigado, ele as jogou no ribeirão Baguaçu junto com o celular, que também não foi encontrado.
A polícia chegou a considerar que o objetivo era evitar que a vítima fosse identificada pelas digitais, mas o rapaz contou que dispensou as mãos primeiro por ser a parte menor. Ele disse ainda que pretendia jogar as demais partes do corpo no mesmo local, na quarta-feira.
Provas
Para a polícia, não há dúvidas de que o casal está diretamente relacionado ao crime. “Tudo o que o namorado falou ficou comprovado. Então a participação dela como do namorado, isso é certeza absoluta”, afirmou.
Natal disse que a pessoa vista pela testemunha na frente da casa e na caminhonete tem o mesmo porte físico do namorado da jovem. Ele se parece bastante fisicamente com um dos três jovens que haviam sido presos anteriormente, indicados pela investigada, segundo o delegado.
Essa testemunha contou ainda que viu apenas duas pessoas na casa naquele dia e não reconheceu os outros três suspeitos.
O delegado Rodolfo Carlos de Oliveira, que também participou da coletiva de imprensa, contou que o namorado da jovem indicou onde estavam os R$ 200,00 roubados da vítima. As quatro notas de R$ 50,00 foram encontradas na casa dele e apreendidas.
Sem noção
Questionado sobre possível arrependimento por parte dos autores confessos, Natal contou que aparentemente eles demonstraram não ter noção da gravidade do fato.
“Eles não queriam matar, mas morreu. Queriam dispensar o corpo da vítima com a caminhonete, mas não conseguiram. Aí tudo o que havia sido planejado fugiu do controle. São pessoas que não têm antecedentes criminais, não estão no mundo do crime, então deu errado”, argumentou.
Ainda segundo o delegado, o único momento em que a investigada se comoveu foi quando questionada sobre o motivo de ter incriminado injustamente os três rapazes.
“Ela queria proteger o namorado e pediu desculpas a eles (aos três rapazes) na cela. Ela falou que fez isso porque queria omitir a participação do namorado. Foi o único momento que ela apresentou arrependimento e chorou”, concluiu.
Prisões
A prisão temporária do casal é pelo período de 30 dias, mas poderá ser prorrogada caso o inquérito não seja concluído nesse prazo.
Eles devem ser indiciados por latrocínio, que é o roubo seguido de morte, e ocultação de cadáver. Juntas, as penas podem chegar a 33 anos de prisão.
O rapaz foi levado para a cadeia de Pereira Barreto e a namorada dele, para Dracena.