Polícia

Bebê tem clavícula quebrada e pulmão perfurado em parto normal induzido

Caso ocorreu no último dia 9, na Santa Casa de Birigui; criança ficou uma semana na UTI neonatal de Araçatuba

Aline Galcino - Hojemais Araçatuba
20/05/20 às 19h15

Um bebê teve a clavícula quebrada e o pulmão perfurado após nascer de parto induzido na Santa Casa de Birigui (SP), no último dia 9. Devido ao estado de saúde, a criança foi transferida para a UTI Neonatal de Araçatuba, onde passou uma semana para se recuperar dos ferimentos. A alta ocorreu no domingo passado (17).

A família, no entanto, está indignada com o tratamento dado à mãe e bebê na unidade de saúde de Birigui e com o que considera falsas informações. Assim que nasceu, a equipe médica informou à mãe que a criança teria uma malformação no pulmão, por isso estaria escura e teve que ser levada às pressas para a incubadora.

A mãe, uma costureira de 32 anos, conta que fez todo o pré-natal na rede pública e na última consulta, com quase 41 semanas de gestação, foi encaminhada para o Ambulatório de Saúde da Mulher, onde profissionais avaliariam como seria o parto, se normal o cesáreo. Ela é mãe de outro menino, de 13 anos, que nasceu por parto normal.

No dia 8, uma sexta-feira, ela passou por um médico que constatou quatro dedos de dilatação e pediu para que ela fosse à Santa Casa para ser internada às 19h, para acelerar o processo.

Na unidade de saúde passou por uma médica, mas sentia dores bem leves, com contrações bem espaçadas.

(Foto: Aline Galcino/Hojemais Araçatuba)

Indução

Por volta das 5h do sábado, a paciente começou a receber medicamentos para a indução do parto. “As dores não vinham. Colocaram medicamento no soro para que eu entrasse em trabalho de parto, mas o bebê não estava encaixado. Eles (equipe médica) diziam que estava longe, e faziam o exame de toque. Às 10h, eles estouraram minha bolsa”, conta a mãe.

A costureira disse que sentiu o “bebê descer” e encaixar só no período da tarde. O horário, ela não se recorda. A médica que a atendia foi fazer uma cesárea de urgência e a deixou com a residente e uma enfermeira.

“Quando a cabeça do meu filho encaixou, elas mandaram eu deitar na cama. Duas enfermeiras subiram em cima de mim para empurrar minha barriga e o nenê sair. Doía demais, porque meu filho ficou entalado. Não deram o pique (episiotomia). Me rasgaram tudo por baixo, depois costuraram”, contou a mãe.

O menino nasceu às 17h, após mais de dez horas do início da indução, pesando 3,950 quilos e medindo 49 centímetros.

Sem choro

A costureira lembra que viu a criança de cor bem escura, como se estivesse morta. “Ela (a médica residente) batia nas costas dele e ele não chorava. Ela colocou meu filho em cima de mim, muito rápido e já deu para a enfermeira que correu para fora da sala com ele. Eu só vi de longe, não colocaram ele perto de mim”.

De longe ela ouviu um choro de criança, que acredita ter sido o do filho, porque era a única criança nascida na data.

Depois que a mãe tomou banho, uma médica pediatra foi até o quarto para conversar com os pais. Disse que o menino tinha uma costela quebrada e que nasceu com uma malformação respiratória, por isso estaria com o pescoço inchado.

“Eles me informaram que estavam buscando vaga em UTI e que se não tivesse em Araçatuba, meu filho poderia ir para qualquer lugar distante. Graças a Deus conseguimos vaga em Araçatuba”, diz a mãe. Antes de ser transferido, ela conseguiu vê-lo rapidamente na incubadora.

Na manhã de domingo (10), Dia das Mães, ela teve alta médica e conseguiu visitar o filho na UTI em Araçatuba.

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Quadro

Em Araçatuba, a equipe médica informou aos pais que não havia costela quebrada e nem malformação. O menino teve a clavícula quebrada, que acabou perfurando o pulmão e criou uma espécie de bolha no tórax e no pescoço. Foi colocado um dreno para retirar essa secreção e uma sonda para alimentação.

“Meu bebê é saudável e está se recuperando”, contou a mãe, que ainda está com o psicológico abalado. Para ela, tudo o que viveu foi uma “cena de horror”, situação que ela acredita que poderia ter sido evitada com exames.

“Passei por um único ultrassom na sexta-feira. Não me falaram nada do tamanho do bebê e que não estava encaixado. Eu e meu filho quase morremos. Eu já passei por um parto induzido e, na época, mesmo doente e fraca, não sofri como agora”.

Quando o primeiro filho dela nasceu, há 13 anos, ela estava internada com dengue hemorrágica e o parto precisou ser antecipado.

Sem acompanhante

A parturiente teve outro direito retirado, segundo a família, pois o pai da criança e companheiro dela, não pode acompanhar o parto.

“Assim que eu pedi para se fazer a cesárea, que eu arrumaria o dinheiro para pagar, eles me colocaram para fora e não deixaram mais eu acompanhar”, contou o pai, um montador de móveis de 29 anos, que acabou não vendo o nascimento do filho e nem a criança após o parto.

A lei federal nº 11.108, de 7 de abril de 2005, mais conhecida como a Lei do Acompanhante, determina que os serviços de saúde do SUS, da rede própria ou conveniada, são obrigados a permitir à gestante o direito a acompanhante durante todo o período de trabalho de parto, parto e pós-parto.

A família registrou boletim de ocorrência de lesão corporal culposa (quando não há intenção) contra o hospital nesta terça-feira (19) e analisa outras providências cabíveis.

“Não quero dinheiro, não quero nada desse hospital, mas quero que as pessoas sejam tratadas com dignidade, que não aconteça com outras mães o que aconteceu comigo, pois eu e meu filho quase morremos. Foi uma violência, uma coisa abusiva”.

Agora, o bebê está em casa, sob o cuidado dos pais.

Sem resposta

A reportagem entrou em contato com a Santa Casa de Birigui questionando os procedimentos adotados e o apoio à família, porém não recebeu resposta.

Também foi feito contato com a Santa Casa de Araçatuba para saber o estado de saúde e o tratamento dado do bebê. No entanto, a informação é de que prontuário dos pacientes é sigiloso e que todo o tratamento e condições dos pacientes são passadas pelos profissionais apenas à família.

Lei garante cesárea na rede pública

Desde o dia 23 de agosto do ano passado, está em vigor a lei estadual que garante a gestantes a possibilidade de optar pelo parto cesariano a partir da 39ª semana de gestação, bem como a analgesia, mesmo quando escolhido o parto normal.

O projeto de lei nº 435/2019, de autoria da deputada estadual Janaina Paschoal, permite que a mãe que optar por ter seu filho por parto normal também tenha a decisão respeitada.

“O projeto atende num primeiro momento às mulheres, mas garante a vida e a integridade física das famílias. Muitos bebês morrem em virtude da imposição de um parto normal que, muitas vezes, é inviável. Também para preservar a saúde psicológica, física e emocional das mulheres. Atendi muitas mulheres que não tiveram seus desejos respeitados e perderam seus bebês, perderam seu desejo de serem mães”, apontou a deputada.

Com a lei aprovada pela Assembleia Legislativa de São Paulo e sancionada pelo governador João Doria, caso a opção pela cesariana não seja observada, o médico terá que registrar as razões em prontuário. Ao divergir da opção feita pela gestante, o médico poderá encaminhá-la para outro profissional.

A mulher que optar pela cesárea deverá registrar sua vontade em um termo de consentimento informado em linguagem de fácil compreensão. O parto também deve ser planejado durante as consultas de pré-natal.

“Este não é um projeto de indução de cesárea ou de parto normal. É um projeto de respeito às escolhas. Tem, neste sentido, uma proteção que é o diálogo entre médicos e as pacientes que estarão respaldadas por um consentimento informado, Haverá diálogo entre as partes, e a questão será explicitada para o devido consentimento”, disse o secretário da Saúde, José Henrique Germann, na época. *Com informações do site do governo de SP

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