Há um gesto que, de tão simples, quase não se percebe como assédio. Um gerente, repassando o que veio do diretor, encaminha ao grupo da equipe o santinho do candidato e acrescenta, no tom de quem lembra um aniversário, que seria bom todos o colocarem no status. Não há ordem explícita. O que há é a certeza, compartilhada por todos os que leem, de que ele vai olhar, e de que o status, ao contrário do crachá, também é visto pela mãe, pelo vizinho, pelo cliente e pela amiga que nunca soube em quem ele vota. O empregado passa a fazer campanha dentro da própria intimidade.
Uma pesquisa do Tribunal Superior do Trabalho, divulgada setembro, expôs que em 92% dos casos o assédio é institucional, com a alta cúpula presente, os canais internos convertidos em propaganda, reuniões com pauta eleitoral, carreata e panfletagem no horário do expediente; em 81,9% vem como terror psicológico, a narrativa em que a vitória de determinado candidato fecha a empresa, corta o salário e traz a crise; em 67,4% passa pelo celular, com grupo de WhatsApp, envio obrigatório de conteúdo, santinho no status e vigilância das redes do empregado; em 61,7% é intimidação econômica, ameaça ao salário e à função, ou prêmio para quem se alinhar.
No raciocínio do empregador, a empresa paga os salários, conhece o mercado e sabe, melhor do que quem bate o ponto, o que cada resultado fará com os empregos; avisar os empregados, nesses termos, é menos coação do que transparência. Victor Nunes Leal, nos anos 1940, chamou o coronelismo de "resultado da superposição de formas desenvolvidas do regime representativo a uma estrutura econômica e social inadequada".
Na prática, isso queria dizer que o roceiro votava no candidato do coronel porque devia a ele a terra, o crédito, o remédio e o enterro. O voto de cabresto nunca precisou de convicção, bastava-lhe a dependência. O voto secreto do Código de 1932 e a Justiça Eleitoral foram criados para cortar essa corda, e a ideia, ao que parece, não foi derrotada, foi contornada. A dependência mudou da enxada para o contracheque, e o coronel, que trocou a fazenda pela razão social, hoje tem CNPJ.
Sérgio Buarque de Holanda ajuda a entender por que tudo isso parece natural a quem pratica. Em Raízes do Brasil, ao descrever o funcionário formado no ambiente da família patriarcal, ele escreve que a esses homens não era fácil compreender "a distinção fundamental entre os domínios do privado e do público", e a observação, feita para o Estado, cabe na empresa que se diz família, e quase todas se dizem. Ora, se o empregado é da família, o seu voto é assunto de casa. Existe uma preocupação com o futuro de todos; logo, o pedido se torna irrecusável a quem nos chama de parceiro. A cordialidade, que Holanda jamais confundiu com bondade, dispensa a ameaça.
O coronel vigiava a olho nu. O século XX trouxe um refino à técnica. Dizia Foucault que "a visibilidade é uma armadilha", falando do panóptico, a prisão projetada para que um único guarda, numa torre central, veja todas as celas sem ser visto. O preso nunca sabe se está sendo observado naquele instante, e por isso passa a vigiar a si mesmo, induzido a "um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder".
Ninguém muda de voto por causa de um santinho no status. O santinho está lá para que o chefe veja quem obedeceu, e o grupo de WhatsApp, que mostra quem já abriu a mensagem e quem ainda não, é um panóptico moderno. O interessante é que, depois da primeira semana, ninguém mais precisa conferir quem colocou a imagem. Cada um já se policia sozinho.
No Discurso da Servidão Voluntária, escrito ainda no século XVI, La Boétie lembra que quem nos domina tem só dois olhos e duas mãos, e que os milhares de olhos com que vigia são os nossos, emprestados. Cinco ou seis têm o ouvido do tirano, esses seis sustentam seiscentos, os seiscentos sustentam seis mil. É a descrição exata do assédio institucional que o TST mediu em 92% dos casos.
O dono da empresa quase nunca manda a mensagem. Manda o gerente, que ouviu do diretor, que ouviu de quem assina. Cada elo pequeno da corrente acha que só está repassando. La Boétie não pede que se derrube o colosso, pede apenas que ninguém mais o sustente, para vê-lo "desmanchar-se com seu próprio peso".
E o que fazer? A mais antiga das respostas continua sendo a mais eficaz, e cabe numa cabine de um metro quadrado, dura menos de um minuto e não tem testemunha. No meu voto mando eu. O resto é santinho, que tem olhos mas não vê.
