Araçatuba registrou mais de 2.600 nascimentos durante a pandemia 

Relatos de maternidade: mulheres contam sobre os desafios de lidar com os primeiros meses pós-parto numa época de crise sanitária

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba
09/05/21 às 11h00

*Atualizada às 12h27 

Desde o início da pandemia, em março de 2020, até abril de 2021, 2.682 bebês nasceram em Araçatuba (SP), segundo dados da Arpen-SP (Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado de São Paulo). 

O número é menor se comparado aos 14 meses anteriores à pandemia, de janeiro de 2019 a fevereiro de 2020, onde foram registradas 3.021 crianças no município.  

Em cada um dos nascimentos durante a pandemia, há uma mãe enfrentando os desafios e dilemas da maternidade, somados ao cenário totalmente novo ocasionado pelo novo coronavírus. Neste domingo, Dia das Mães, conversamos com mulheres de Araçatuba, que estão vivendo pela primeira vez, ou não, a maternidade.

Valorização da maternidade

Ícaro, filho da atriz Bárbara Teodosio, 33 anos, nasceu em fevereiro e já completou três meses. Ela destaca dois pontos importantes sobre os desafios que a maternidade traz, com ou sem pandemia. Um deles é a privação de sono; mesmo o seu bebê dormindo bem e emendando os ciclos do sono, nas primeiras semanas de vida, ela cita que foi difícil. O segundo aspecto é a amamentação, que exige presença constante da mãe e, de acordo com a atriz, Ícaro gosta de mamar devagar.

No entanto, a pandemia trouxe um agravante, o medo e o isolamento, que para ela tem sido rigoroso. 

Bárbara e Ícaro (Foto: Arquivo pessoal)

“Ninguém, a não ser as pessoas que moram aqui, eu, o pai (pai do Ícaro) e minha mãe, pegaram o Ícaro no colo. Apenas o pai sai para trabalhar e fazer compras. Já levei ele pra ver minha sogra em local aberto e distante, também visitei minha tia e prima, ele dentro do carro com vidro fechado e minha tia e prima do lado de fora”. 

Num cenário sem a pandemia, ela imagina que teria mais visitas, uma maior rede de apoio e o emocional também estaria diferente. “Tem uma amiga que eu não vejo a hora de tomar um café e falar da vida, atá porque ela perdeu a mãe durante a pandemia, e eu não pude confortá-la porque estou com o Ícaro bebê. Ela entendeu, mas é horrível neste momento a gente não poder fazer mais pelos amigos; meu bebê é uma alegria e eu não posso compartilhar com ela”. 

Outra realidade que Bárbara destaca é a retomada do trabalho, que já causa apreensão. 

“Antes já era difícil só por ele ser bebê, ter que deixar em um berçário, agora então. Eu ainda tenho a regalia de 180 dias de licença maternidade, mas tem mães que nem isso tem. Eu li eses dias sobre a importância social da mãe e sobre a não valorização da maternidade. Não existiria humanidade sem mães e isso é fato, mas quando uma mulher tem um filho, a frase clichê é: ‘Teve porque quis, se vira’. Poucas são as leis, direitos e condutas que apoiam as mães; durante a pandemia, isso ficou claro, muita mãe sendo demitida ou obrigada a deixar seus trabalhos pra cuidar dos filhos”. (Bárbara)

Daniele, Luca, Júlia e Arthur (Foto: Arquivo pessoal)

Solidão materna

A arquiteta Daniele Santos, de 25 anos, foi uma das mães que precisaram sair do trabalho por conta dos filhos; Arthur tem 6 anos, Júlia tem 3 e Luca veio ao mundo em outubro de 2020. Para Daniele, a gestação de Luca foi diferente das outras duas e frisa que o aspecto mais difícil foi a solidão materna, que já existe normalmente, mas com a pandemia ficou acentuada.

“Eu me sentia muito sozinha, tinha minha mãe o tempo todo, mas não poder ver ninguém, ver um amigo, conversar, é muito difícil. Fiquei muito estressada, porque tenho as outras crianças e eles em casa, sem poder brincar, acabavam ficando estressados também. Com tudo isso, acabei tendo pressão alta no final da gravidez, o que adiantou umas semaninhas o nascimento do Luca”. 

Para ela, a diferença entre gestar na pandemia é o fato de não poder receber visitas, mesmo tendo a ajuda da mãe em todas as ocasiões. “Nós descobrimos (a gestação) no finalzinho de fevereiro e em março já estava tudo fechado. Como era tudo muito novo, ninguém sabia o que era de fato, o que poderia causar numa gestação". 

Agora, com Luca com sete meses, Daniele optou em voltar a levar Arthur e Júlia à escola, duas vezes por semana. De acordo com ela, esse período longe da sala de aula refletiu, principalmente,na fase de alfabetização e da rotina escolar do primogênito

"Eu tinha muito medo, então realmente fiquei em casa durante a gestação todo, via somente meus pais, mas na minha cabeça, até outubro já estaria tudo bem, jamais que eu iria imaginar que duraria mais de um ano”. (Daniele) 

Lucila, Raul e Lorenzo (Foto: Arquivo pessoal)

Cuidados redobrados

A articuladora da saúde da mulher do Departamento Regional de Saúde de Araçatuba, Lucila Bistaffa de Paula, de 38 anos, teve sua segunda gestação na pandemia. Tudo foi diferente em relação aos dois momentos da maternidade. 

Quando esperava Lorenzo, Lucila tinha outra rotina de trabalho, teve uma gestação tranquila e pêde comemorar com as pessoas do seu círculo familiar e de amizade.

“Aproveitei tudo o que a gestação poderia me proporcionar enquanto mulher e futura mãe. No hospital, pude entrar com acompanhante e receber visitas. Isso é muito importante, porque a mulher no começo fica muito delicada e precisa de atenção e eu tive isso. Quando ele nasceu, viajávamos um monte, desde o começo a gente ia a alguns lugares”. 

Lucila descobriu que estava grávida de Raul em junho de 2020, na época que os casos começaram a aumentar no Brasil. Como ela trabalha na área da saúde e leciona em um curso de medicina, acaba tendo acesso a muitas informações. 

“Eu sabia da situação e isso me trouxe muita preocupação, muito zelo e um excesso de cuidados. Eu usava máscara, a N95, sabia que os cuidados precisavam ser redobrados”. No começo, estava trabalhando presencialmente, mas após suspeitar que poderia estar com covid-19, optou pelo home office. “Tudo isso causava uma carga de medo e preocupação, me impediu de curtir como foi com o Lorenzo”. 

Lucila lembra que ficou muito isolada e começou a se sentir mais triste. “Acabei ficando ansiosa. Em alguns momentos, tive que dar uma parada, tirar o pé do acelerador, dar uma desligada, para entender que ia passar. Era um momento muito especial, onde desejei muito trazer um irmão para o Lorenzo. Quando imaginei que tudo ia acabar, que ele ia nascer, então veio a preocupação, porque ele nasceu em janeiro e começou a ter aquele pico, aumento do número de casos”.

O marido pôde assistir ao parto, mas as visitas não foram permitidas. O momento, que era para ser gostoso, foi de apreensão para ela. “Foi tudo diferente, muito difícil. O Raul sabe o que é dia e noite, porque a gente acaba passeando no fundo de casa para ele tomar sol. Mas ele não sabe o que é rua, o que é passear”. 

Com a pandemia e gestação acontecendo ao mesmo tempo, Lucila precisou procurar acompanhamento com um terapeuta. 

“Isso é muito importante. Não adianta achar que é a Mulher-Maravilha, porque não é. Fiquei uma mãe mais sensível, medrosa, chorona, nessa atual situação. Me trouxe conflitos que venho trabalhando. Raul nasceu superbem, todos os cuidados que tivemos foram super válidos”. (Lucila)

Neila e Valentina (Foto: Arquivo pessoal)

Interação e laços

A jornalista e comerciante Neila Storti Moterani, 34 anos, concorda que a maternidade em si é um desafio, mas que a pandemia e a chegada da Valentina em julho do ano passado, trouxeram algumas novas realidades para ela e o marido.

“Quando a gente fica grávida, a gente romantiza as coisas, por exemplo, vai ser lindo, vai dar tudo certo, você vai sair do hospital linda, mas na verdade, você sai extremamente cansada”. Ela lembra também que o seu parto foi totalmente diferente do parto das irmãs dela, que contaram com a presença da mãe e do pai quando estava vivo. 

“Estavam todos presentes, mas quando a Valentina nasceu, ou o Luigui (marido) ficava ou a minha mãe. O Luigui ficou, porque é o pai, tinha que estar presente. Depois, minha mãe passou a noite comigo. Foi bem difícil, porque se você tem mais ajuda, talvez fique um pouco mais fácil. Eu decidi não ter ajuda. Não temos babá, não temos funcionária em casa, tudo somos nós que fazemos”.

De acordo com Neila, o grande desafio foi aprender sozinha sobre maternidade. “Eu e o Luigui aprendemos tudo sozinhos, mas isso também foi muito bom, porque a gente criou um vínculo muito grande com ela”. 

No entanto, o medo existe e aparece na hora de sair de casa, nas visitas ao pediatra. “Quando você vai ao pediatra, você se pergunta: será que as outras pessoas estão se cuidando? Porque tem outros pais ali juntos e você não sabe, fica com medo de pegar, passar para o bebê. Temos medo de sair com ela na rua, de deixar as pessoas chegarem perto, apesar de morrer de vontade de mostrar a Valentina para todo mundo. Vai fazer um ano e a família não conhece, apenas minha mãe, irmãs e sogros. Teve até gente que achou que eu adotei a minha filha, porque nem me viu grávida”. 

Com isso, Neila conta que a filha não teve muitas oportunidades de interagir com outras crianças e ela nota que a bebê sente falta desse con 

“Ela está com nove meses. Talvez ela já teria ido para a escolinha, para brincar e interagir, mas até agora não foi. Ela é mais séria, mas isso é dela. (...) gostaríamos muito que ela interagisse com outras crianças. Quando a gente dá uma voltinha na praça com ela e tem outras crianças, ela adora, começa a gritar para chamar atenção”. (Neila)

Alda Carolina e Théo (Foto: Arquivo pessoal)

Aprendendo a conviver  

A bancária Alda Carolina Carvalho de Lima Bueno, 38 anos, planejou o filho com o marido, após 10 anos de casamento. O primeiro passo seria retirar o DIU, o que aconteceu no começo de março, antes da pandemia ser decretada. No final de março, como não tinha ideia do que aconteceria, ela e o marido optaram em esperar a situação melhorar. 

Porém, logo no começo do isolamento, Alda Carolina percebeu que sua menstruação atrasou e no final de abril, descobriu que Théo estava a caminho.  

“Tendo em vista a grandiosidade das notícias, me preocupei muito no começo. O bebê não tinha formação ainda. Decidi confiar em Deus, em primeiro lugar, e eu e meu marido tomamos muito cuidado, principalmente nesses três primeiros meses”. Nesse período, optou em fazer home office, por exemplo. “Depois, voltei a trabalhar presencialmente e fui aprendendo a lidar com isso. Tentei não ter muito medo, Deus estava no controle e cuidando da gente”. 

Após esse período, optaram em continuar evitando aglomerações, mas decidiram que a convivência com o vírus era inevitável. “Eu fiz academia no período da pandemia; fazia ao ar livre e depois quando liberaram a abertura das academias, voltei para o crossfit. Fiz até a 37ª semana”. 

O nascimento de Théo em dezembro foi mais apreensivo para Alda Carolina. Na época, ela e o marido sabiam que as pessoas iam se reunir em festas e confraternizações e os casos poderiam aumentar. “Foi ruim, porque a gente esperava as visitas após o nascimento. Nem minha mãe pôde entrar. Só no horário da troca de turno que ela entrou. Eu e meu marido ficamos sozinhos e tivemos alta mais cedo também. Isso traz uma frustração”. 

Até os dois meses de Théo, o casal evitou visitas e a partir desse período, foram recebendo, aos poucos, algumas pessoas, explica a bancária. 

“Eu não sou uma mãe paranoica. Fiquei insegura no comecinho, mas depois fiquei mais tranquila. O maior desafio da maternidade foi o isolamento. O isolamento em si já é ruim. A gente fica mais depressivo. E na maternidade, você acabou de ganhar um filho, quer que as pessoas fiquem próximas, mas não pode”. 

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