Cuidar de uma pessoa com uma doença grave, progressiva ou que ameaça a continuidade da vida vai além da busca pela cura. Em determinadas situações, os cuidados paliativos têm como objetivo aliviar dores, controlar sintomas, preservar a autonomia e oferecer qualidade de vida ao paciente, além de acolher e orientar seus familiares.
Em Mato Grosso do Sul , essa abordagem ganhou espaço no calendário oficial do Estado por meio da Lei Estadual nº 5.922 , de 11 de julho de 2022. De autoria do deputado estadual Zé Teixeira (PL) , a legislação criou a Semana Estadual de Cuidados Paliativos , realizada anualmente na semana que compreende o segundo sábado de outubro.
Segundo o parlamentar, a iniciativa busca integrar os cuidados paliativos à rede de atenção à saúde, melhorar a qualidade de vida dos pacientes e ampliar a conscientização sobre o tema.
“Um dos principais objetivos da lei é integrar os cuidados paliativos à rede de atenção à saúde, contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes e estimular ações de conscientização, divulgação e enfrentamento de preconceitos relacionados ao tema”, ressalta Zé Teixeira.
A semana também contribui para esclarecer um dos principais equívocos relacionados ao assunto: cuidados paliativos não significam desistência do tratamento .
Cuidado além da doença
De acordo com a médica Rosângela Silva Rigo , nefrologista e profissional de cuidados paliativos do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), essa modalidade representa uma assistência ativa e integral para pessoas que enfrentam doenças graves, progressivas ou que ameaçam a continuidade da vida.
“O foco está no bem-estar e na qualidade de vida, considerando não apenas os aspectos físicos, mas também emocionais, sociais e espirituais.”
A médica explica que a equipe pode atuar no controle de sintomas como dor, falta de ar, náusea, fadiga e alterações do sono , além de oferecer suporte aos familiares durante o tratamento e também no processo de luto.
Outro ponto destacado é que os cuidados paliativos podem começar desde o diagnóstico de uma doença grave , inclusive de forma simultânea aos tratamentos voltados ao controle ou à cura.
Entre as situações em que essa assistência pode ser indicada estão câncer, doenças neurodegenerativas, insuficiências avançadas de órgãos, sequelas neurológicas graves e algumas condições pediátricas .
A recomendação é buscar o encaminhamento o quanto antes, especialmente diante de diagnósticos complexos, sintomas de difícil controle, perda rápida de funcionalidade, internações frequentes ou prognóstico reservado.
Cuidados paliativos não significam desistir
A cardiologista e médica paliativista Camila Natera Torres , coordenadora da Rede do Abraço, da Unimed Campo Grande, também destaca a mudança na compreensão sobre esse tipo de assistência.
Segundo ela, durante muito tempo os cuidados paliativos foram relacionados exclusivamente a pacientes sem possibilidade de tratamento.
“Hoje, a abordagem é diferente: o cuidado pode caminhar junto com o tratamento da doença, buscando reduzir o sofrimento e melhorar a qualidade de vida.”
Na Unimed Campo Grande, a Rede do Abraço oferece atendimento hospitalar e domiciliar. Pacientes internados ou seus familiares podem conversar com o médico responsável e solicitar uma avaliação. O médico de referência também pode encaminhar o paciente para o atendimento domiciliar.
“A proposta é olhar para o paciente de forma integral. Não apenas para o diagnóstico, mas para a pessoa que existe por trás dele, com seus sintomas, sentimentos, relações, necessidades e escolhas”, afirma Camila.
Doença muda rotina de paciente
A importância desse olhar integral aparece na história de Luiza da Silva Araújo, de 62 anos , que convive com DPOC grave, em estágio 4, e fibrose pulmonar idiopática .
Dependente de oxigênio suplementar continuamente, Luiza precisou adaptar sua rotina após o diagnóstico.
Em 2024, ela começou a apresentar mal-estar, cansaço, palidez e perda repentina de peso. Depois de passar por uma UPA e pelo Hospital Adventista Pênfigo, chegou à UTI inicialmente com suspeita de Covid. Os exames levaram ao diagnóstico de DPOC grave . Atualmente, ela realiza acompanhamento e tratamento no Hospital São Julião.
A irmã, Maura da Silva Araújo , acompanha de perto a rotina. Luiza mora com outra irmã, Leda, responsável pelos cuidados diários, enquanto Maura ajuda principalmente nos períodos em que Leda está trabalhando.
O cotidiano inclui medicamentos, acompanhamento da saturação, controle da diabetes e uso contínuo de concentrador de oxigênio . Até sair de casa se tornou mais difícil, já que, segundo Maura, o fornecimento de oxigênio é destinado principalmente aos deslocamentos para consultas e exames.
Antes da doença, Luiza tinha uma rotina mais ativa. Frequentava a academia em uma praça, fazia compras e participava da igreja. Atualmente, os passeios são mais limitados, mas ela mantém atividades e vínculos importantes: recebe visitas, faz crochê, gosta de bijuterias e esmaltes e mantém o hábito de lembrar as datas de aniversário dos familiares.
Para Maura, a experiência também reforça a importância de observar sinais que podem ser minimizados.
“Devemos fazer consultas e exames periódicos, nunca julgar que é preguiça, considerar que o emagrecimento repentino e cansaço devem ser analisados e levados ao conhecimento do médico”, orienta.
