A história de um sacerdote que dedicou a vida à fé, à educação e ao cuidado com as comunidades volta a ganhar destaque em Mato Grosso do Sul.
O padre João Crippa, missionário salesiano italiano que morreu em Três Lagoas em 1941, terá sua causa de beatificação oficialmente aberta nesta terça-feira (20), em Campo Grande.
A iniciativa representa um marco para a Igreja Católica no estado e dá início à investigação de sua vida, de suas virtudes e da fama de santidade atribuída a ele por fiéis.
Embora tenha construído parte importante de sua trajetória na Capital, foi em Três Lagoas que o religioso encerrou sua caminhada terrena, aos 79 anos. Mais de oito décadas depois de sua morte, sua história volta ao centro das atenções, agora com a possibilidade de reconhecimento oficial de sua vida de fé pela Igreja.
A abertura do inquérito diocesano será realizada na Paróquia São José, em Campo Grande, das 18h às 18h40, com a participação do postulador italiano Paolo Vilotta, responsável por acompanhar a causa. Às 19h, será celebrada uma missa em ação de graças, presidida pelo arcebispo metropolitano Dom Dimas Lara Barbosa.
Da Itália à missão no Brasil
Nascido em 10 de outubro de 1861, na cidade de Asso, na região da Lombardia, na Itália, João Crippa ingressou na formação salesiana em 1885. Durante esse período, teve contato pessoal com Dom Bosco, fundador da Congregação Salesiana, cuja missão era voltada especialmente à educação e à formação humana e cristã de crianças e jovens.
Ordenado sacerdote em 17 de fevereiro de 1894, Crippa iniciou uma trajetória missionária que o levou ao Uruguai e, posteriormente, ao Brasil. Chegou à região do então estado de Mato Grosso em 1912, dedicando-se ao trabalho pastoral em diferentes localidades.
Sua atuação ocorreu em um período de grandes desafios para as comunidades do interior, quando as distâncias, as dificuldades de transporte e o acesso limitado à educação exigiam dos missionários uma presença constante e comprometida.
Além da evangelização, o sacerdote participou de iniciativas educacionais e assistenciais, ajudando a construir uma rede de acolhimento que ultrapassava os limites da atividade religiosa.
Educação, acolhimento e transformação social
Em Campo Grande, João Crippa deixou marcas importantes na história da cidade. Entre suas iniciativas estão a participação na criação do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora e o trabalho que deu origem ao Oratório São José, espaço dedicado à convivência, à catequese e à formação de crianças e jovens.
Em 1925, o religioso adquiriu os primeiros terrenos para a construção do oratório, conhecido popularmente como Capelinha. Com o crescimento da comunidade, idealizou uma igreja maior dedicada a São José. A pedra fundamental foi lançada em 15 de maio de 1938, e as obras começaram no ano seguinte.
O sacerdote, entretanto, não chegou a ver o templo concluído. A igreja foi inaugurada em 1949 e se tornou um importante marco religioso da Capital. É justamente nesse local que seus restos mortais estão sepultados e onde será aberta oficialmente sua causa de beatificação.
Sua trajetória também é associada ao trabalho missionário junto a comunidades indígenas, à assistência a pessoas em situação de vulnerabilidade e à expansão da presença salesiana na região. Um legado que ajuda a compreender por que sua memória permanece viva entre religiosos, pesquisadores e fiéis.
A ligação histórica com Três Lagoas
A relação de João Crippa com Três Lagoas ocupa um lugar especial nessa história. O sacerdote morreu no município em 1º de agosto de 1941, aos 79 anos, quando ainda atuava em sua missão religiosa no antigo Mato Grosso.
Naquele período, a presença salesiana contribuía para a organização da vida religiosa em diversas localidades, acompanhando o crescimento das comunidades e promovendo atividades pastorais e educativas.
A morte em Três Lagoas estabeleceu um vínculo permanente entre o município e a trajetória do missionário. Embora seus restos mortais tenham sido posteriormente trasladados para Campo Grande, a cidade onde faleceu integra a memória de um homem cuja atuação se estendeu por diferentes regiões.
É essa conexão que confere à notícia um significado particular para Mato Grosso do Sul: a história de um sacerdote que veio da Europa, dedicou décadas de sua vida à missão no Brasil e encerrou sua trajetória em uma cidade do interior sul-mato-grossense agora ganha uma nova dimensão histórica e religiosa.
O que significa o início da causa de beatificação?
A abertura do inquérito diocesano representa o primeiro passo formal da investigação conduzida pela Igreja Católica sobre a vida do sacerdote. Nesta etapa, serão reunidos documentos, depoimentos e outros registros que permitam avaliar suas virtudes, sua atuação religiosa e a fama de santidade associada à sua memória.
Com a abertura oficial da causa, João Crippa passa a receber o título de Servo de Deus , a primeira designação formal dentro desse caminho de reconhecimento.
É importante esclarecer que esse procedimento não significa que o sacerdote já tenha sido declarado santo. Caso a investigação avance e os requisitos estabelecidos pela Igreja sejam cumpridos, o processo poderá seguir para as etapas seguintes, que incluem a análise das virtudes heroicas e, conforme as exigências canônicas, de um possível milagre atribuído à sua intercessão.
A beatificação e a canonização dependem de avaliações posteriores e de decisões das autoridades competentes da Igreja.
Uma história que atravessa gerações
Mais do que uma etapa institucional, a abertura da causa de João Crippa representa uma oportunidade de revisitar a história da presença salesiana em Mato Grosso do Sul e reconhecer a contribuição de religiosos que ajudaram a construir comunidades por meio da fé, da educação e da assistência social.
Para Três Lagoas, o fato de o sacerdote ter morrido no município acrescenta um capítulo significativo à memória local. Para Campo Grande, sua trajetória permanece ligada à formação de instituições religiosas e educacionais que atravessaram gerações.
A possibilidade de reconhecimento de sua santidade ainda depende de um longo caminho de investigação. Mas o início do processo já coloca sua história em evidência e convida a população a conhecer melhor a vida e a obra desse missionário.
De Asso, na Itália, às comunidades do antigo Mato Grosso, João Crippa construiu uma trajetória marcada pela missão religiosa e pelo compromisso com as pessoas. Agora, sua história ganha um novo capítulo, com raízes em Três Lagoas e repercussão em todo o estado.
