Quase quatro anos depois do acidente aéreo em Brasilândia que matou o piloto e empresário Danilo César Carromeu Domingues na época com 46 anos, o Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) divulgou o relatório final com os fatores que contribuíram para a queda do avião Beech Aircraft matrícula PT-IEL, modelo V35B.
Segundo o relatório, entre as causas que levaram à queda do avião está a decisão do piloto pela realização do voo sob condições meteorológicas adversas, com probabilidade de entrar em condições de voo por instrumentos, para as quais ele não era habilitado. A atitude refletiu um julgamento inadequado em relação aos riscos envolvidos naquela operação.
A previsão de chuva para o aeródromo de partida no município de Coxim no período daquela tarde do dia 27 de fevereiro de 2018, a condição de elevada umidade na região, a existência de nuvens em níveis baixos e médios na rota pretendida e, principalmente, a existência de nuvens TCU (Cumulus Encastelados), ensejavam maiores cuidados para o voo sob condições visuais.
Apesar de nenhum desses fenômenos representarem condição impeditiva ao voo, as informações disponíveis indicavam que a visibilidade e a distância de nuvens poderiam ser menores do que as previstas na ICA 100-12/2016, para o voo sob VFR (Regras de Voo Visual), em alguns trechos da rota. Portanto, o piloto, que era habilitado somente para VFR, deveria adotar medidas para adequar-se aos requisitos mínimos de segurança.
De acordo com o parecer do Cenipa, durante o voo, já estabilizado na rota para o destino que seria o Aeródromo de Presidente Prudente, o piloto se deparou com os fenômenos meteorológicos, sobretudo uma célula de TCU com atividade de precipitação, a oeste da cidade de Brasilândia. Nesse momento, o cumprimento das regras do ar, para o tipo de voo, demandava que o piloto se mantivesse afastado de tais formações, ainda que isso representasse o retorno para o aeródromo de partida ou o desvio para uma alternativa.
A sobreposição das imagens de satélite, do RADAR meteorológico e das últimas posições conhecidas da aeronave, associada aos relatos de observadores em solo, indicaram a entrada em uma região com chuva.
De acordo com a revisualização RADAR, o piloto iniciou uma série de curvas, caracterizadas por sucessivas mudanças de direção. Essa situação pode ter levado a uma desorientação espacial e à consequente perda de controle da aeronave, podendo ter entrado em condição de parafuso, na qual permaneceu até o contato com o solo.
A realização do voo, naquelas condições, revelou uma atitude de complacência frente à necessidade do cumprimento dos compromissos agendados pelo empresário. Durante as entrevistas, houve relatos de que, apesar de o piloto não possuir habilitação para voo por instrumento, “ele não se intimidava com o tempo ruim”. Isso pode ser um indicativo de excesso de autoconfiança na capacidade de realizar o voo, a despeito das condições meteorológicas.
Deduziu-se, ainda, que o piloto sofreu pressão auto imposta, pela ansiedade de chegar ao destino a qualquer custo, na medida em que, apesar de ter observado uma cortina de chuva na direção que iria voar, decidiu prosseguir. A pressão auto imposta pode ter acarretado modificações nos seus estados cognitivos, comprometendo os seus processos de julgamento e a tomada de decisão. Esse estado emocional foi corroborado pela característica da personalidade do piloto, descrito pelas pessoas que o conheciam como alguém que “não deixava nada para depois”.
Todos esses fatores (atitude, pressão auto imposta, motivação e baixa consciência situacional) afetaram o seu processo decisório. A decisão de realizar o voo, com grandes chances de encontrar condições IMC, para as quais ele não era habilitado, refletiu um julgamento inadequado, em relação aos riscos envolvidos naquela operação.
