A Saúde de Três Lagoas pisou fundo no acelerador de maio a agosto. É o que revela o pente-fino da prestação de contas do 2º quadrimestre de 2026, apresentado nesta quarta-feira (30) pela Secretaria Municipal de Saúde. Os números mostram que, seja por demanda espontânea ou via balcão de agendamento, o fluxo de pacientes na atenção primária e especializada cresceu em um ritmo vertiginoso em comparação com os quatro primeiros meses do ano.
Nas Unidades de Saúde da Família (USFs), coração do atendimento nos bairros, a rotina foi intensa: o volume de consultas médicas saltou 29,8%, passando de 56.754 para expressivas 73.660. Esse crescimento na atenção primária foi sustentado, em grande parte, pelo avanço de 43,6% na produção do Programa Mais Médicos (de 6.351 para 9.119 consultas). A busca direta das famílias sem agendamento (demanda espontânea) subiu 12,1%.
CLÍNICAS ESPECIALIZADAS NO LIMITE
O "boom" da procura não se restringiu aos bairros. A Clínica da Mulher liderou a escalada da atenção especializada no quadrimestre, fechando o período com um aumento vertiginoso de 71% nos atendimentos (de 3.201 para 5.474). A alta foi alavancada pelo reforço de obstetras e profissionais de enfermagem obstétrica, o que também ajudou a diminuir o número de faltas dos pacientes — um gargalo crônico do SUS — de 703 para 573 ocorrências.
A Clínica da Criança não ficou atrás e registrou um avanço de 56% na sua capacidade operacional (de 6.190 para 9.671 consultas). O Centro de Especialidades Médicas (CEM) cresceu 15% (ultrapassando as 22 mil consultas), e os corredores da Ortopedia absorveram 28% a mais de pacientes.
Nem tudo, porém, acompanhou a curva ascendente. O relatório revela baixas importantes em serviços cruciais. Na contramão das USFs, a fisioterapia recuou 19% em sua produção (de 10.082 para 8.137 sessões), queda que o documento da prefeitura atribui à "reorganização das agendas" e à reposição de pessoal. A Clínica do Idoso registrou retração de 15%. Na saúde mental, o setor sofreu o impacto da falta de mão de obra técnica: o saldo de pacientes em acompanhamento caiu 7% (de 1.521 para 1.419), e a exoneração de um profissional artesão reduziu o volume de oficinas terapêuticas ofertadas pela rede.
O PESO NO CAIXA E A JUDICIALIZAÇÃO
Custeada na linha de frente com verbas do tesouro municipal, a intensa movimentação nas unidades exige fôlego financeiro. No acumulado do ano até agosto, a prefeitura aplicou 26,74% de todas as suas receitas constitucionais exclusivamente na saúde — índice ligeiramente acima dos 25,89% computados no 1º quadrimestre e esmagadoramente superior à exigência mínima de 15% estipulada por lei.
Em números absolutos, a máquina de saúde liquidou R$ 260 milhões em oito meses de funcionamento. No recorte exclusivo dos gastos quadrimestrais, a contratualização do Hospital Nossa Senhora Auxiliadora (HNSA) saltou de R$ 29,9 milhões para R$ 33 milhões.
O dado que mais salta aos olhos dos auditores, no entanto, vem dos balcões da farmácia: o gasto do município com medicamentos determinados por sentenças judiciais disparou. O valor saltou de tímidos R$ 93 mil no 1º quadrimestre para alarmantes R$ 784 mil entre maio e agosto, desenhando o retrato de um cidadão que, diante da falta de respostas do balcão, encontrou a cura na caneta do juiz.
