O mercado brasileiro de papel e celulose entra na segunda quinzena de outubro de 2026 com sinais de recuperação dos preços internacionais, movimentações nas ações negociadas na Bolsa de Valores brasileira (B3) e expectativas em torno dos próximos resultados financeiros das grandes produtoras.
O cenário é acompanhado de perto por investidores, analistas e empresas do setor, especialmente diante da importância da China como destino da celulose de eucalipto produzida no Brasil.
Relatório recente da XP Investimentos aponta que o preço da celulose de fibra curta (BHKP) no mercado chinês avançou aproximadamente US$ 20 por tonelada, alcançando cerca de US$ 580 por tonelada. O movimento foi favorecido pela redução dos estoques nos portos chineses e por uma oferta mais restrita no mercado à vista.
Apesar da recuperação, os especialistas mantêm cautela. A demanda das fabricantes de papel ainda apresenta fragilidade, o que pode dificultar a sustentação de preços superiores a US$ 600 por tonelada por um período prolongado.
Suzano e Klabin movimentam bilhões e atraem atenção dos investidores
Ações na B3 — fechamento de 16/10/2026
Suzano · SUZB3
R$ 43,05
+1,53% no pregão
Klabin · KLBN11
R$ 18,12
Última cotação consultada
Fontes: Relações com Investidores da Suzano e BolsaData. As cotações não são necessariamente em tempo real.
A Suzano (SUZB3), maior produtora mundial de celulose, encerrou o pregão de sexta-feira, 16 de outubro, cotada a R$ 43,05, com valorização de 1,53% no dia. O papel havia registrado forte oscilação no início do mês, incluindo queda de 5,39% em 5 de outubro, demonstrando a sensibilidade das ações às expectativas dos investidores.
No segundo trimestre de 2026, a Suzano registrou receita líquida de R$ 11,6 bilhões, EBITDA ajustado de R$ 4,7 bilhões e lucro líquido de R$ 1,8 bilhão. As vendas somaram 3,3 milhões de toneladas de celulose e papéis.
A companhia também apresentou geração de caixa operacional de R$ 2,9 bilhões, enquanto sua alavancagem financeira, medida pela relação entre dívida líquida e EBITDA ajustado, encerrou o trimestre em 3,4 vezes em dólar.
Outro movimento estratégico foi a conclusão da aquisição de 51% da Arbex, operação global de papéis sanitários formada com a Kimberly-Clark, mediante pagamento de US$ 1,3 bilhão. Os resultados desse negócio passam a integrar as demonstrações consolidadas da Suzano a partir do terceiro trimestre.
A Klabin (KLBN11), por sua vez, apresentou receita líquida de R$ 5,2 bilhões no segundo trimestre, com EBITDA ajustado de R$ 2 bilhões e margem de 38%.
O resultado foi sustentado pela estratégia de direcionar produtos para mercados de maior rentabilidade, além da demanda por papéis para embalagens e celuloses especiais. A empresa também anunciou um programa de recompra de até 31,25 milhões de units e reduziu sua alavancagem financeira para 3,2 vezes em dólar.
China e Europa influenciam os preços da celulose brasileira
A China continua sendo uma das principais referências para a formação dos preços internacionais da celulose, especialmente para a fibra curta de eucalipto. O comportamento das indústrias chinesas de papel, a disponibilidade de estoques e a capacidade de produção local influenciam diretamente as negociações com fornecedores brasileiros.
Segundo a XP Investimentos, a Suzano anunciou reajuste adicional de US$ 20 por tonelada para a Ásia em outubro, além de aumentos de US$ 50 por tonelada para Europa e Américas.
A chilena Arauco também anunciou elevação de US$ 20 por tonelada em suas ofertas de celulose de fibra curta para a China.
Esses reajustes representam uma tentativa de recomposição das margens dos produtores. Entretanto, preços anunciados não significam necessariamente que todas as negociações tenham sido concluídas nesses patamares.
Uma análise do Rabobank publicada em agosto já apontava um cenário de transição para o segundo semestre de 2026. De acordo com o levantamento, mais de 2,2 milhões de toneladas de celulose de fibra curta deixaram de estar disponíveis no mercado global ao longo do ano, em razão de paralisações, conversões industriais e interrupções operacionais.
Dólar e mercado interno também pesam nos resultados
Além da cotação internacional da celulose, o dólar é uma variável fundamental para a rentabilidade das exportadoras brasileiras.
Como parte significativa das receitas do setor está vinculada à moeda norte-americana, uma valorização do dólar pode elevar o valor em reais das vendas externas. Por outro lado, a variação cambial também afeta dívidas, despesas financeiras, equipamentos importados e determinados custos de produção.
No mercado interno, o comportamento do consumo de embalagens, papéis sanitários e produtos industriais também influencia o desempenho das companhias.
Empresas com operações diversificadas, como a Klabin, podem encontrar oportunidades em segmentos de embalagens e produtos de maior valor agregado, enquanto produtoras com forte presença na exportação de celulose ficam mais expostas às oscilações internacionais da commodity.
A valorização do real foi, inclusive, um dos fatores que limitaram o desempenho da receita da Klabin no segundo trimestre, apesar dos preços mais elevados da celulose em dólar.
Mato Grosso do Sul acompanha expansão e competitividade do setor
Em Mato Grosso do Sul, os movimentos do mercado internacional têm importância estratégica diante da presença de grandes operações industriais e da expansão dos investimentos no chamado Vale da Celulose.
A Suzano, com sua operação em Ribas do Rio Pardo e unidade em Três Lagoas, integra uma das principais estruturas produtivas do setor no estado. Já a Arauco avança com o Projeto Sucuriú, em Inocência, ampliando a perspectiva de participação sul-mato-grossense no mercado global.
O comportamento dos preços internacionais pode influenciar as receitas futuras, a competitividade das plantas industriais e as decisões de investimento. Entretanto, o impacto não é automático: contratos comerciais, custos logísticos, câmbio e cronogramas de produção também interferem nos resultados.
A expansão industrial reforça a importância de investimentos em infraestrutura rodoviária, ferroviária, energia, qualificação profissional e logística de exportação.
Mercado vê recuperação, mas ainda não um novo ciclo de alta
Em análise recente, o BTG Pactual identificou sinais de um miniciclo de recuperação da celulose, sustentado pela retomada de compras chinesas e pela possibilidade de os preços se aproximarem de US$ 600 por tonelada.
O banco, entretanto, diferenciou esse movimento de um ciclo estrutural prolongado de valorização, indicando que a sustentabilidade dos reajustes dependerá da recuperação efetiva da demanda e do equilíbrio entre oferta e consumo.
Para os próximos meses, investidores deverão acompanhar a divulgação dos resultados do terceiro trimestre, a evolução dos preços da celulose na China, as oscilações cambiais e a capacidade das empresas de reduzir dívidas e gerar caixa.
A Suzano tem divulgação de resultados do terceiro trimestre programada para 5 de novembro de 2026, com teleconferência no dia seguinte.
O cenário reforça a posição do Brasil entre os protagonistas do mercado mundial de celulose, mas também evidencia que a rentabilidade do setor depende de uma combinação de eficiência industrial, disciplina financeira e condições favoráveis no comércio internacional.
Fontes
· Fastmarkets — preços internacionais e indicadores de referência da celulose.
· XP Investimentos — análise setorial publicada em 8 de outubro de 2026.
· Suzano RI — resultados financeiros, cotações e calendário corporativo.
· Klabin — balanço do segundo trimestre.
· Valor Econômico — cobertura empresarial e financeira.
