Mirandópolis se despede neste sábado (12) de uma de suas figuras mais conhecidas e queridas. Aos 92 anos, morreu Leopoldo José Santana, o Lió, personagem que por décadas fez parte da rotina de moradores, viajantes e trabalhadores que passavam pelo distrito de Amandaba.
Muito mais do que o proprietário de um restaurante que se tornou ponto conhecido na região, Lió era reconhecido pela conversa fácil, pelo bom humor e pelas histórias que pareciam não ter fim. Em 2019, em entrevista ao Hojemais Andradina, ele resumiu sua maneira de viver em uma frase: “Quer escutar uma boa história? Vai no Lió.”
Nascido em Itabuna, na Bahia, em 21 de abril de 1934, Lió teve uma infância marcada por dificuldades. Aos 13 anos, após a morte do pai, deixou a família — que tinha 22 irmãos — e embarcou em um trem rumo ao interior paulista, sem saber exatamente onde iria parar.
A viagem terminou de maneira inesperada na região de Amandaba. Segundo ele contou na entrevista, chegou à estação à noite e acabou dormindo dentro de um pau oco próximo ao local. A solidariedade da esposa do chefe da estação ajudou o menino a sobreviver. Depois, começou a trabalhar varrendo a estação em troca de comida.
A partir dali, construiu sua vida com muito trabalho. Passou por diferentes profissões, serviu ao Exército, trabalhou com a antiga Força e Luz e chegou ao Rio de Janeiro, onde contou ter ajudado na construção da Ponte Rio-Niterói. Também trabalhou como ajudante de pedreiro e em fazendas da região.
Sem nunca ter frequentado uma escola, dizia que, quando criança, precisou escolher entre estudar e trabalhar para não passar fome. Ainda assim, tornou-se um daqueles homens que carregavam na memória uma verdadeira coleção de histórias sobre a região.
Em Mirandópolis, participou de momentos importantes da comunidade. Contava, por exemplo, que ajudou na colocação do telhado e do relógio da igreja e que trabalhou na abertura de córregos e em propriedades rurais.
Foi também no trabalho que surgiu outra parte importante de sua história: o Restaurante do Lió.
O estabelecimento começou, na década de 1980, como uma pequena venda, comercializando de tudo um pouco. Depois de enfrentar dificuldades financeiras, Lió encontrou no almoço uma nova oportunidade. Viajantes que passavam pelo local começaram a pedir comida. O que inicialmente era feito quase por insistência dos clientes acabou se transformando em um dos pontos mais conhecidos de Amandaba.
Com o passar dos anos, o restaurante virou ponto de encontro. E Lió, sua principal atração. Quem chegava muitas vezes não encontrava apenas comida, mas também uma conversa, um conselho e algum dos muitos “causos” que ele gostava de compartilhar.
Pai de cinco filhos, avô e bisavô, Lió construiu sua trajetória longe dos holofotes, mas deixou uma marca profunda em quem teve a oportunidade de conhecê-lo.
Na entrevista de 2019, quando perguntado sobre seu sentimento pelo lugar onde havia construído a vida, foi direto: “Aqui foi onde comecei a minha vida. Será aqui que vou terminar.”
Neste sábado, aos 92 anos, Lió encerra sua caminhada. Fica a memória de um homem simples, trabalhador e dono de uma história extraordinária — dessas que, como ele próprio gostava de fazer, merecem ser contadas muitas vezes.
Mirandópolis perde um de seus personagens. Amandaba perde uma de suas vozes. E quem passou pelo Restaurante do Lió perde também um pouco daquela conversa que parecia nunca acabar.
