Você está vivo, imagino eu, para poder ler esses meus rabiscos. Imagino também que, como quase todos nós, acredite que a vida é aquele intervalo entre o tapa na bunda e o barulho da tampa de madeira se fechando. Mórbido, mas real enquanto cronograma.
Essa linha traçada entre o nascimento e a morte, de tão certa, não consegue ter forma definida e no trilhar dessa coisa torta acabei chegando à conclusão sincera de que achar que se tem uma vida só, dentro dessa linha (não estou aqui com especulações post mortem) é uma loucura. Repare, por exemplo, nas ruas que já morou, nas certezas que já teve, nos amores eternos e naquelas amizades que nem a morte separaria. E aí? Quantas vidas?
A rua se confunde com outras, de outras paragens, as certezas eram todas líquidas e escorreram sabe-se lá por qual ralo e em que tempo. Daquela paixão pra vida toda que fazia o coração bater mais rápido do que o de um coelho só de ver uma foto já não se lembra nem o nome. E isso não é Alzheimer, é só o passar das vidas, que apesar daquela citada linha entre o choro e o prego do caixão vai se dividindo mais a cada respirada.
Como disse Vinícius de Moraes, “de repente, não mais que de repente” e bum! “Há um segundo tudo estava em paz”, né Herbert? Certezas são ilusões, “tudo muda o tempo todo, no mundo” né Lulu? Poetas sacam as coisas de forma mais aguçada, por isso são poetas. O apego infantil a idéias e momentos parece ser o maior causador de ódios e também de frustrações. Adoro aquela máxima que diz que os idiotas têm certezas e os sábios dúvidas. Nada mais insuportável que alguém com certezas, que na verdade só poderiam existir se tivéssemos uma vida só, retilínea e monocromática. A coisa toda parece mais uma montanha russa dentro de um quadro de Van Gogh. Não dá pra se ter certeza de nada. E que venham as vidas.