Cotidiano

Advogada de Araçatuba lança obra sobre previdência social e transgêneros

No livro, Heloísa Helena Silva Pancotti traz debate sobre benefícios e empregabilidade da pessoa transgênera 

Manu Zambon  - Hojemais Araçatuba 
09/04/19 às 09h49
Pesquisa revelou a necessidade de incluir a população transgênera em programas de assistência (Foto: Manu Zambon)

Da pesquisa realizada para o mestrado, a advogada Heloísa Helena Silva Pancotti, de Araçatuba (SP), viu a necessidade de falar sobre a relação de pessoas transgêneras com a empregabilidade, aposentadoria e assistência social. Para abordar a temática, a profissional lança a obra Previdência Social e Transgêneros – Proteção Previdenciária, Benefícios Assistenciais e Atendimento à Saúde para os Transexuais , pela Juruá Editora.

“Sou advogada há mais de 20 anos, atuo na área de Previdência Social e Direito do Trabalho. Precisava de um projeto de pesquisa para o mestrado e o tema tinha que ser relativamente inédito. Então, percebi que eu nunca tinha aposentado um transgênero”. Vale destacar que entende-se como transgêneros, indivíduos que creem pertencer ao sexo oposto ao de sua morfologia e anseiam adequar sua autopercepção à imagem do próprio corpo.

Em seus estudos, ela descobriu que a expectativa de vida dessa população é de 35 anos - segundo estatísticas não oficiais de institutos e ONGs, já que ainda não há informações de órgãos como IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) -, enquanto a média nacional é de 75 anos. “O que está acontecendo? Por que essas pessoas estão morrendo?”, questiona a autora.

Estigma

As pesquisas escassas envolvendo o universo de pessoas transgêneras têm uma explicação e revelam que elas costumam viver em sigilo, estigmatizadas e com medo das reações proporcionadas pela sociedade. O que também mostra outro problema; muitos são excluídos da família e acabam partindo para a prostituição, pois não conseguem terminar os estudos e chegar até a capacitação profissional.

No Brasil, a transfobia chegou a níveis alarmantes, segundo o que a advogada publicou no livro. Ao menos 868 transgêneros foram assassinados entre 2010 e 2017 em solo nacional. Com isso, o País lidera o ranking mundial, segundo dados de pesquisa realizada pela organização Transgender Europe.

Em meio a esse cenário, o livro debate, principalmente, como se daria a proteção às pessoas desse grupo por meio do sistema de seguridade social brasileiro. “A assistência social é como um guarda-chuva. Debaixo dele, temos iniciativas em conjunto de saúde, de assistência e previdência. A saúde e assistência são para todo mundo, mas a previdência precisa ser contribuída”.

Benefício

Caso não haja uma relação formal de trabalho ou contribuição espontânea ao INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social), o cidadão está fora da aposentadoria. Especificamente nesta dimensão, Heloísa explica que o benefício vinha direcionado à população com deficiência e idosos.

Como a porcentagem de transgênero que chega à velhice é muito pequena, essa não é uma alternativa para atingir a aposentadoria. A advogada explica que a Justiça passou a ver o conceito de deficiência de forma mais ampla, ou seja, ao invés da deficiência, o entendimento é sobre a incapacidade a longo prazo para o trabalho, abrindo assim um leque de possibilidades, onde inclui-se pessoas marginalizadas, que sofrem de condição estigmatizante, que as impede de encontrar emprego, a qualificação profissional. Este fundamento tem amparado os benefícios em favor dos soropositivos, por exemplo. 

O BPC é um benefício apontado no livro e que pode ajudar pessoas com condição estigmatizante (Foto: Manu Zambon)

Esses fatores citados formam uma condição estigmatizante, que é o valor negativo que faz com que a sociedade queira se afastar de determinadas pessoas. Para esses cidadãos que se encontram fora do sistema contributivo da assistência social e vivem em situação de pobreza,  a advogada cita como possibilidade o BPC (Benefício de Prestação Continuada), que é uma transferência direta de renda de um salário mínimo por mês para a conta do beneficiário assistido.

Como é um programa importante, ela buscou em estudos a adequação para que ele seja estendido à pessoa transgênera. “É um benefício que pode ser capaz de tirar essa população transgênera da vulnerabilidade, porque eu imagino que se você tem um salário garantido, pode ir buscar uma qualificação”.

A autora ainda cita a Resolução Conjunta nº1 do CNCD/LGBT (Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transsexuais) que estabelece parâmetros para a qualificação do atendimento socioassistencial da população LGBTI no Suas (Sistema Único da Assistência Social).

Poucas pessoas conhecem o BPC, segundo ela, mas ele pode ser requerido de forma simples numa agência do INSS. Não precisa de advogado, mas é recomendado que o requerente compareça à agência acompanhado de um, para não produzir provas contra si. “Eu penso que o serviço de assistência social é o melhor caminho hoje para fazer a inclusão dessas pessoas”.

Iniciativas

Heloísa Helena também destaca no livro algumas iniciativas que promovem a inclusão previdenciária. Uma delas é do próprio município de São Paulo, o Projeto Reinserção Social Transcidadania. Enquanto a pessoa que se enquadra no perfil está estudando, o governo estadual transfere um auxílio mensal. Ao final desse processo, o participante sai empregado.

Também na capital paulista, a advogada cita o projeto “Empregabilidade de Pessoas Trans – Cozinha & Voz”, com a chef Paola Carosella, realizado desde o ano passado e que já formou duas turmas capacitadas de assistentes de cozinha. A ação é conjunta entre o MPT (Ministério Público do Trabalho) e a OIT (Organização Internacional do Trabalho).

No âmbito da empregabilidade, ela ressalta ainda empresas nacionais e multinacionais interessadas em empregar pessoas transgêneros, como a rede C&A, que no ano passado abriu mil vagas de emprego para esse perfil. 

“Então, minha pesquisa revelou a necessidade de inclusão dessa população, seja pelos programas de assistência, seja pelos programas de capacitação e empregabilidade. Imagino que por aí a gente consiga, pelo menos, aumentar a expectativa de vida dessas pessoas”, finaliza a advogada, que já trabalha, como organizadora, em um segundo livro que tem essa temática.

Lançamento

A advogada ainda não lançou a obra em Araçatuba e já estuda convites para fazer o lançamento também em outros município, como Osvaldo Cruz, Marília, Bandeirante (PR) e Catanduva. No entanto, o livro já pode ser adquirido no site da Juruá Editora .

Heloísa Helena é mestre em Direito pelo Univem (Fundação Eurípides de Marília). É formada em Direito, com especialização latu sensu pela Unitoledo. É vinculada ao grupo de pesquisa INPP (Intervenção do Pode Público na Vida da Pessoa). Colaborou com capítulos em vários livros, dentre Terceirização: Conceito, Crítica, Reflexos Trabalhistas e Previdenciários, de 2017, e Reflexões sobre a paz – Volume II – Paz e Tolerância, do mesmo ano. 

 RECOMENDADO PARA VOCÊ
 EM DESTAQUE AGORA
  22/05/26 às 12h24
VEJA TODOS OS DESTAQUES
 ÚLTIMAS EM COTIDIANO
Franquia:
Araçatuba SP
Franqueado:
Connect Jornalismo Digital LTDA
48.486.487/0001-90
Editor responsável:
Lazaro Silva Júnior MTB 48158
lazaro.junior@ata.hojemais.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2026 - Grupo Agitta de Comunicação.