Está causando bastante discussão o atendimento prestado por uma médica plantonista no pronto-socorro de Birigui (SP), que ao consultar uma criança no último final de semana, recomendou chocolate diet para a paciente.
O caso ganhou repercussão após ela postar nas redes sociais a guia na qual indica o alimento para a criança, que tem 8 anos e é diabética. A guia, que é utilizada para receituário médico, tem o timbre da Prefeitura de Birigui, mas não traz o nome da paciente e nem o carimbo da profissional.
"Foi um vale-chocolate que eu fiz pra ela", diz a médica Arantxa Montenegro de Souza e Silva. Nessa guia ela escreveu: chocolate diet. Comer um pedaço pela manhã. E fez a figura de um sorriso.
Já na postagem feita na rede social, a profissional escreveu: Criança, 8 anos, diabética, vem ao PS com queixa de falta de ar. Sinais vitais sem alterações. Após 2 minutos de conversa para distraí-la, melhora do quadro. Relatou vontade de comer um chocolate, mas não podia. Receitei”.
Segundo Arantxa, a repercussão no caso se deu após a publicação dela ter sido repostada por outra pessoa. O principal questionamento é com relação ao fato de a criança ser diabética e ela ter receitado o chocolate.
Emocional
Em conversa com o
Hojemais Araçatuba
, a médica explicou que o atendimento foi feito durante a madrugada. A criança foi levada ao pronto-socorro pelos pais e atendida em local separado, pois havia a informação de falta de ar, que seria um sintoma de covid-19. O PS faz atendimento exclusivo a pacientes com sintomas de covid-19.
Ao examiná-la a profissional constatou que todos os sinais vitais estavam normais, a paciente não apresentava sinais de problemas respiratórios e a frequência cardíaca era de 112 batimentos por muito, o que notou estar relacionado a uma questão emocional da criança.
“Eu percebi que era uma questão mais relacionada à psiquiatria, questão de síndrome do pânico. Comecei a conversar com ela ali do lado de fora do hospital mesmo, a mãe foi se acalmando, pois viu que a criança foi conversando comigo. Aí durante a conversa ela falou. Ai tia, tá tudo bem - Eu perguntei o que ela havia comido, ela contou que havia comido uva, arroz integral. Eu perguntei se ela queria ter comido algo diferente e ela disse que queria muito comer um chocolate”,
contou a médica.
Receitou
Diante dessa informação, como o nível de glicemia da paciente estava normal, o diabetes estava controlado, e após a mãe da paciente relatar que faz o controle e acompanhamento da doença no posto de saúde, entendeu que era caso de deixar a menina comer o chocolate.
“Eu conversei com o pai, disse para ele levar ela para comprar um chocolatinho diet e dar um pedacinho. Eu dei pra ela a receitinha e falei: esse aqui é um cartão de vale que você tem com o seu pai. Então amanhã cedo você faz sua rotina, come direitinho e dá para o seu pai esse vale, que ele vai pegar pra poder comprar o seu chocolate”,
explicou.
Ainda segundo Arantxa, a paciente faz acompanhamento com nutricionista, com endocrinologista e vinha apresentando crises recorrentes de ansiedade. Por isso ela escreveu uma carta relatando o que estava acontecendo, recomendando atendimento psiquiátrico.
“Foi isso o que aconteceu, ela saiu feliz, o pai ficou feliz, foi isso”,
argumentou.
Humanizado
Sobre os questionamentos, a médica explica que o fato ser um chocolate diet, não impede pessoas com diabetes de comer um pedaço, ainda mais se a doença estiver controlada.
“A gente tem que pesar um pouco mais pelo bem-estar, não só físico, como mental, o que falta muito hoje em dia”,
comenta.
Segundo Arantxa, são poucas pessoas que fazem esse contato mais humanizado e nesse caso, a criança precisava disso.
“Era mais uma conversa que ela precisava ter, para deixá-la mais tranquila, e os pais também”,
diz.
A médica, que se formou há 5 meses e está atuando no pronto-socorro de Birigui há pouco mais de um mês, disse que sempre fez esse tipo de atendimento humanizado e vai continuar trabalhando dessa forma, independentemente da polêmica ocorrida nesse caso.
“Meu trabalho foi sempre direcionado à parte física, mas também à parte mental da população, porque eu trabalho com covid. A covid mexe muito com a cabeça das pessoas, é uma fase muito difícil, temos vários óbitos por dia, pessoas que quando descobrem têm medo de morrer. Então não é só tratar da covid, a gente tem que pensar um pouco na questão mental também, que é o que está acontecendo hoje em dia”, argumenta.
Para Arantxa, a profissão de médico exige muito isso, pois o ser humano não é uma máquina, a cabeça não para de funcionar e precisa ser cuidada.
Prefeitura
A reportagem teve conhecimento desse fato na tarde do sábado e na manhã de segunda-feira encaminhou e-mail para a Prefeitura, questionando sobre o posicionamento da direção do pronto-socorro municipal com relação ao atendimento prestado pela médica, mas não houve retorno.
Também foi encaminhado um e-mail para a assessoria de imprensa do Cremesp (Conselho Regional de Medicina), que não respondeu.