A mineira Eunice Farah era alegre. Muito alegre. Venceu uma batalha contra um câncer de laringe, com sessões de quimioterapia e bombas de medicamento, sem lamentar. Apaixonada pelo carnaval, buscava conforto e alívio na música. Ecumênica, frequentava o centro espírita às terças e, aos domingos, a igreja evangélica. A fé de dona Eunice era na vida e nas pessoas. Aos 77 anos, deu entrada no hospital com sintomas leves e não saiu mais.
Dona Eunice é uma das histórias entre as mais de cinco mil brasileiros que perderam a vida por causa do novo coronavírus até 30 de abril de 2020. O Brasil tem a maior taxa de contágio por coronavírus do mundo, segundo estudo do Imperial College de Londres.
O projeto Inumeráveis, lançado nesta quinta-feira (30), nasce justamente com o intuito de reverter a lógica fria pela qual a pandemia está sendo tratada no Brasil. Por trás de números e atitudes de governantes, estão histórias de milhares de brasileiros. A missão do projeto é valorizar, em forma de registros históricos, cada uma das vidas perdidas em função da doença.
Rede voluntária
Para isso, o site conta com colaboração voluntária de jornalistas, estudantes, escritores e contadores de história, de todo País, para narrar as histórias de forma sensível, pessoal e respeitosa às peculiaridades da vida de cada vítima, estimulando um processo reconfortante.
As contribuições estão sendo concentradas na plataforma digital.
"O Inumeráveis nasce do incômodo em perceber que nas tragédias humanitárias pela qual a humanidade passa, transformamos as vidas perdidas apenas em números e estatísticas. Pandemias, guerras, genocídios, desastres recentes como Brumadinho. Não valorizamos, não registramos a vida, a história de cada única pessoa que todos nós perdemos. Hoje temos tecnologia e um sistema distribuído que pode colaborar para termos a ambição de registrar 100% das histórias, de cada pessoa", explica o empreendedor social e um dos idealizadores do Inumeráveis, Rogério Oliveira.
