Cotidiano

Professora de Birigui recebe o título ‘Maria Felipa da Contemporaneidade’

Elisandra Pereira, que é docente no IFSP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo), recebeu a honraria neste sábado (31)

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba
31/07/21 às 20h20
Foto: Leandro Métys/Divulgação)

Matéria atualizada às 11h17 do dia 1º de agosto de 2021*

A professora Elisandra Pereira, 46 anos, docente do IFSP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo), campus de Birigui, recebeu neste sábado (31) o título “Maria Felipa da Contemporaneidade”, concedido pelo Instituto Maria Felipa, com sede em Salvador (BA).

A honraria é um reconhecimento ao trabalho da docente no combate ao racismo. A cerimônia de entrega do título aconteceu às 14h e foi transmitida pelo YouTube.  

A homenagem, que chega à 13ª edição, é concedida apenas a mulheres que atuam na luta antirracista em suas profissões, incluindo professoras, médicas, pesquisadoras, enfermeiras, ativistas de bairros, entre outras atividades. 

Sua indicação ao prêmio veio com a realização do ZAYI: Festival Afro-brasileiro e Africano, criado por ela, cuja homenageada foi Maria Felipa. Um dos membros da comissão, na época (2019), fez algumas buscas e encontrou o Instituto Maria Felipa, presidido por Hilda Virgens, que conheceu os trabalhos desenvolvidos por Elisandra. Neste ano, seu nome foi indicado para o título. 

Trajetória e educação antirracista 

Elisandra preside a comissão Etno-Birigui no IFSP e é representante do Neabi (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas), também no instituto. Natural de Sertãozinho (SP), atua na área de educação há 22 anos. No IFSP, assumiu como professora concursada na área de gestão. 

Elisandra ficou bastante emocionada com o título e disse que é uma honraria muito significativa. Como professora e ativista social, sempre levou para os seus trabalhos a história da população negra ainda não conhecida pela maioria dos brasileiros. A história da Maria Felipa é um dos exemplos. 

Um de seus primeiros projetos, desenvolvido em Sertãozinho, foi o Sawabona. De acordo com Elisandra, o projeto consiste em levar para espaços educacionais escolares e não-escolares a história da população negra ainda pouco conhecida pela maioria da população.

Segundo ela, além de apresentar pontos importantes do processo de escravização e submissão da população, a política de exclusão social e do branqueamento, o projeto conta as histórias dos heróis e heroínas negros do Brasil. Além de Maria Felipa, há ainda João Candido, José Francisco e outros, assim como Nilo Peçanha, o primeiro e único, até o momento, presidente negro do País. Inclusive, Peçanha foi o mentor das escolas técnicas federais, que deram origem aos institutos federais. 

Quem foi Maria Felipa 

Maria Felipa de Oliveira foi uma mulher negra, e uma das guerreiras da independência da província da Bahia. Seu legado e importância para a independência do Brasil só foram reconhecidos em 2007, após ser instituída a lei 10.639 de 2003, que orienta sobre a história e cultura afro-brasileira. 

Em 1823, havia ainda várias províncias que estavam sob o domínio de Portugal no Brasil, incluindo a província da Bahia, uma das mais importantes. Os brasileiros não tinham experiência de luta, o que era uma desvantagem, pois os soldados portugueses eram experientes nessa área. 

Maria Felipa (Foto: Reprodução)

Para o combate, os brasileiros começaram a se unir no interior do estado, para que pudessem fazer a grande revolução e expulsar os portugueses. Os brasileiros, chamados de rebeldes, contavam com o apoio de pessoas, como a madre Joana Angélica, que abriu o seu convento acreditando que os soldados do coronel Madeira de Melo não entrariam lá. Porém, não somente invadiram, como mataram todos, incluindo a religiosa. 

Nessa época, Maria Felipa morava na Ilha de Itaparica e já era uma liderança para o povo. Ela, que era uma mulher negra nascida liberta, também era conhecida por suas habilidades como capoeirista. Maria Felipa não concordava com a presença dos portugueses; ela perdeu a mãe, violentada e morta por soldados portugueses, e a amiga, a madre Joana Angélica. 

Em uma de suas idas até Salvador, ficou sabendo que o coronel aguardava reforço de Portugal, informação que ela passou para um dos comandantes dos soldados brasileiros. Após insistir muito, ela foi aceita para ajudar no combate. Seu posto era de vigilância. Quando avistou um grande número de navios chegando na ilha, ela avisou o comandante, que ordenou que levasse as crianças e mulheres para um local seguro, e ficasse por lá para se proteger. 

Maria Felipa levou apenas as mulheres mais idosas e crianças; as mais jovens e adultas, chamou para formar um grupo. Desse grupo, saíram três equipes: uma com mulheres jovens e capoeiristas; outra, com mulheres carregando folhas de cansanção. Por último, as mulheres mais velhas, que tinham habilidades físicas.  

O esquema arquitetado por ela foi primordial na batalha. As mulheres mais jovens ficaram na praia e atrairiam as atenções dos soldados que chegavam. A ideia era que eles corressem atrás delas assim que chegassem em terra firme. E foi o que fizeram. 

Após correrem mata a dentro, e terem tirado algumas peças de roupa no trajeto, os saldados chegaram numa clareira. Ali, as mulheres começaram a tirar seus vestidos e os soldados, achando que levariam vantagem, tiraram parte das roupas, ficando com a pele exposta. Foi quando as mulheres com as folhas de cansanção saíram da mata e deram uma surra neles com a folhagem. 

Enquanto eles ficavam atordoados por causa da coceira, as capoeiristas os golpearam. Por último, o grupo em que estava Maria Felipa foi para a praia, entrou nos botes e foi até os navios, ateando fogo nas 60 embarcações. Ao todo, 40 mulheres participaram da ação comandada pela guerreira. 

É importante destacar que esse ato foi primordial para a independência da Bahia, destaca Elisandra, porque quando o grupo destrói as embarcações, impede que mais soldados portugueses cheguem até Salvador. Por esse reforço não ter chego, os rebeldes brasileiros ficaram em maioria em tiveram êxito na batalha e na luta pela independencia da província da Bahia. 

“A história de Maria Felipa não foi conhecida, não foi registrada na educação, porque era uma mulher negra. Mas já se ouviu falar da Maria Quitéria, a mulher que se vestiu soldado para defender a pátria. Na Bahia, nas celebrações do Dia da Independência da Bahia, as vestimentas que eram colocadas nas crianças, eram sempre de Maria Quitéria e da madre”.  

“Por isso que temos que valorizar muito a lei 10.639 de 2003. A partir dela, nós, negros, tivemos o direito de divulgar a história dos negros que não foi contada na educação oficial. É uma batalha até hoje. Não aceitam que a história seja contada por medo de os negros, que são 54% da população, se entendam como negros, se orgulhem de serem negros, e que não tenham motivação para permanecer esse sistema racista”, completa a professora. 

“O que me encanta também nessa história da Maria Felipa é a participação essencial das mulheres. Pra mim, é claro que a questão racial está na história, mas tem uma questão de gênero muito importante. As grandes guerreiras, que tiveram papel primordial nessa batalha da independência da Bahia, foram três mulheres. Das três mulheres, duas foram reconhecidas, a terceira não, por ser negra”.  

“Assim como Maria Felipa, em sua luta datada de 1823, eu Elisandra, continuo lutando na certeza de que a população negra seja efetivamente livre, pois ser livre, assim como diz a cantora afro-americana Nina Simone, ser livre é não ter medo. Infelizmente, nós, pessoas negras, ainda vivemos em uma sociedade que nos promove medo, pois facilmente nos acusam, facilmente nos depreciam, facilmente nos matam”. 

*Matéria atualizada para acrescentar informações sobre a importância da Maria Felipa na derrota dos portugues 

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