“No início, os estampidos estavam muito longe, parecia mais fogos de artificio, mas depois o volume começou a aumentar, até que meu filho, que tem 13 anos, olhou pela janela e viu um homem com uma arma grande descer de uma SUV Preta. Ele veio nos avisar e aí eu tomei a seguinte decisão: acordei meu marido que estava dormindo, juntei meu filho e minhas cachorras e fomos nos deitar no chão da nossa sala, porque assim ficaríamos fora do alcance das janelas ou possíveis balas perdidas.
Também tomamos cuidado de apagar as luzes do apartamento para não chamar a atenção dos bandidos.
Como a barulho era muito alto e era nítido que se tratava de um acontecimento muito grave, não tivemos mais dúvidas. Ouvimos gritos, explosões, tiros, rajadas, foi impossível se confundir e tudo muito alto.
Enquanto a gente buscava se proteger, nós percebemos que não se ouvia sirenes da polícia ou o helicóptero águia, então pensamos que os armamentos deveriam ser muito pesados e começamos a compreender que se tratava de um grande assalto aos bancos.
Fomos nos informando pelos amigos e veículos idôneos de imprensa, mas a angústia foi muito grande, porque aquilo que parecia uma guerra estava se prolongando demais; ao todo, ficamos duas horas deitados no chão do apartamento.
Dava pra sentir a vibração das explosões nas janelas e paredes do apartamento e nós estamos a dois quarteirões. Nós não conseguíamos parar de pensar nas famílias que moram em volta da praça e em cima da agência da Caixa Federal, que é um prédio residencial.
Em um dos intervalos dos tiros, espiamos e vimos fogo em frente ao Constam Café e vimos também o drone sobrevoando a cidade. Começamos a ficar com medo pela vida das pessoas nos prédios próximos.
Finalmente, depois de duas horas, as explosões e tiros finalmente pararam e voltamos a ouvir gritos. Olhei pela janela e vi alguns policiais militares tentando resgatar o corpo que estava caído ao lado de um carro cinza.
Eles também gritavam muito para que as pessoas voltassem para a casa, porque alguns curiosos estavam saindo e ainda era muito perigoso.
Nós vimos as filmagens dos reféns, ficamos aflitos e não conseguimos mais dormir pensando neles. Depois de uma hora que os tiros tinham cessado, ouvimos a explosão que aconteceu no centro e quando amanheceu, tinha uma bomba em cada esquina de casa; ficamos sitiados.
Algumas vezes, a gente olhava pra ver se as bombas permaneciam lá. Em uma das vezes, eu pude ver uma pessoa se aproximar de um dos artefatos; não era um policial, era uma pessoa que conseguiu furar o bloqueio. Gritei pela janela e a pessoa conseguiu enxergar a bomba que estava em frente ao escritório de advocacia.
Também foi muito angustiante aguardar a retirada dos explosivos, que aconteceu à noite e acompanhar o trabalho dos policiais que desarmaram os dispositivos, porque a gente percebia o risco que eles estavam correndo e que era imenso.
O período de maior tensão foram as duas horas que estivemos deitados no chão da sala de casa.
Não conseguimos voltar a dormir, quando cochilávamos, tínhamos pesadelos. Ainda estamos muito abalados. Senti ansiedade, pena pelo sofrimento das pessoas, medo pela vida dos que estão trabalhando no caso, todos eles tem família. A gente só tem dimensão do risco que eles correm, quando vê por exemplo, um servidor desarmando uma bomba."
Heloisa Helena Silva Pancotti, 45 anos