Cotidiano

"Tinha uma bomba em cada esquina de casa", relata moradora sobre assalto em Araçatuba

Moradores que residem próximo às agências bancárias atacadas por criminosos falam sobre os momentos de tensão vividos durante a madrugada; outro morador conta que passou no banco minutos antes da ação

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba
01/09/21 às 21h30

O relógio marcava 23h53 no domingo (30). O morador de 40 anos, que reside no edifício Clipper, localizado no Centro de Araçatuba (SP), ao lado da agência da Caixa Econômica Federal, se preparava para dormir, quando ouviu um estouro.

A advogada Heloísa Helena Silva Pancotti, de 45 anos, reside em um condomínio na rua Oscar Rodrigues Alves, próximo à praça Rui Barbosa. Nesse mesmo horário, a moradora navegava na internet. Ao ouvir alguns estampidos, achou que eram fogos de artifício.

O empresário e ator Diego Wicledy não mora próximo às agências, mas decidiu passar no banco após fechar uma das suas lojas, localizada em um shopping do município. Após sair da agência, ouviu um som, que também pensou ser de fogos. 

Nenhum dos três imaginou que o barulho estava ligado à ação criminosa que aterrorizou Araçatuba na madrugada de segunda-feira (30), culminando em duas mortes de moradores e de um homem que participou do ataque às agências do Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. 

Para o Hojemais Araçatuba , eles relataram como foram os momentos de tensão durante o ataque dos assaltantes. 

(Foto: Arquivo pessoal)

“No início, os estampidos estavam muito longe, parecia mais fogos de artificio, mas depois o volume começou a aumentar, até que meu filho, que tem 13 anos, olhou pela janela e viu um homem com uma arma grande descer de uma SUV Preta. Ele veio nos avisar e aí eu tomei a seguinte decisão: acordei meu marido que estava dormindo, juntei meu filho e minhas cachorras e fomos nos deitar no chão da nossa sala, porque assim ficaríamos fora do alcance das janelas ou possíveis balas perdidas.

Também tomamos cuidado de apagar as luzes do apartamento para não chamar a atenção dos bandidos.

Como a barulho era muito alto e era nítido que se tratava de um acontecimento muito grave, não tivemos mais dúvidas. Ouvimos gritos, explosões, tiros, rajadas, foi impossível se confundir e tudo muito alto.

Enquanto a gente buscava se proteger, nós percebemos que não se ouvia sirenes da polícia ou o helicóptero águia, então pensamos que os armamentos deveriam ser muito pesados e começamos a compreender que se tratava de um grande assalto aos bancos.

Fomos nos informando pelos amigos e veículos idôneos de imprensa, mas a angústia foi muito grande, porque aquilo que parecia uma guerra estava se prolongando demais; ao todo, ficamos duas horas deitados no chão do apartamento.

Dava pra sentir a vibração das explosões nas janelas e paredes do apartamento e nós estamos a dois quarteirões. Nós não conseguíamos parar de pensar nas famílias que moram em volta da praça e em cima da agência da Caixa Federal, que é um prédio residencial.

Em um dos intervalos dos tiros, espiamos e vimos fogo em frente ao Constam Café e vimos também o drone sobrevoando a cidade. Começamos a ficar com medo pela vida das pessoas nos prédios próximos.

Finalmente, depois de duas horas, as explosões e tiros finalmente pararam e voltamos a ouvir gritos. Olhei pela janela e vi alguns policiais militares tentando resgatar o corpo que estava caído ao lado de um carro cinza.

Eles também gritavam muito para que as pessoas voltassem para a casa, porque alguns curiosos estavam saindo e ainda era muito perigoso.

Nós vimos as filmagens dos reféns, ficamos aflitos e não conseguimos mais dormir pensando neles. Depois de uma hora que os tiros tinham cessado, ouvimos a explosão que aconteceu no centro e quando amanheceu, tinha uma bomba em cada esquina de casa; ficamos sitiados.

Algumas vezes, a gente olhava pra ver se as bombas permaneciam lá. Em uma das vezes, eu pude ver uma pessoa se aproximar de um dos artefatos; não era um policial, era uma pessoa que conseguiu furar o bloqueio. Gritei pela janela e a pessoa conseguiu enxergar a bomba que estava em frente ao escritório de advocacia.

Também foi muito angustiante aguardar a retirada dos explosivos, que aconteceu à noite e acompanhar o trabalho dos policiais que desarmaram os dispositivos, porque a gente percebia o risco que eles estavam correndo e que era imenso.

O período de maior tensão foram as duas horas que estivemos deitados no chão da sala de casa.

Não conseguimos voltar a dormir, quando cochilávamos, tínhamos pesadelos. Ainda estamos muito abalados. Senti ansiedade, pena pelo sofrimento das pessoas, medo pela vida dos que estão trabalhando no caso, todos eles tem família. A gente só tem dimensão do risco que eles correm, quando vê por exemplo, um servidor desarmando uma bomba."

Heloisa Helena Silva Pancotti, 45 anos

Imagem registrada pelo morador mostra ação na rua Luiz Pereira Barreto

“Eu estava me preparando para dormir, lembro que olhei no relógio e era exatamente 23h53 quando ouvi o primeiro estouro. Inicialmente, como acredito que aconteceu com a maioria, pensei quem eram fogos de artifício, mas pelo horário desconfiei.

Fui logo na varanda do meu apartamento tentar ver do que se tratava. Vi que o negócio era mais sério. No momento em que olhei da varanda a rua Luiz Pereira Barreto, em frente à igreja matriz, vi algumas pessoas que estavam correndo. Um casal que estava em um carro preto no meio da rua e muitos homens vestidos de roupas camufladas, com coletes, portando fuzis nas mãos, atirando para todos os lados.

Tentei me proteger, fui ver se todos em casa estavam bem. Procurei algum meio de comunicação para saber se havia mais gente acompanhando. Ouvi na rádio que haviam cercado o Baep.

Naquele momento eles já haviam dominado a localização (praça Rui Barbosa). Tinha barricadas em todas as saídas da região central. Todas elas cercadas por homens armados que não paravam de atirar, com pelo menos três tipos de armamento.

Eles estavam bem organizados, sabiam bem o que estavam fazendo. Não havia nervosismo entre eles, pelo contrário, uma estranha tranquilidade. Na realidade, foi essa postura que mais me chamou atenção. Inclusive, eu ouvia eles instruindo os civis desavisados que passavam pela região para darem meia-volta.

Tinha também carros atravessados na rua e alguns deles fazendo a guarda.

Eu vi alguns reféns, mas ao meu ver eles estavam mais retirando as pessoas da área de foco deles. Não vi eles tomando reféns para chantagem. Às 2h02 da manhã, vi a polícia chegar, duas horas depois do início do ataque.

A gente evitava ficar muito na varanda; eu só ia quando intensificavam os tiros ou ouvia as explosões. Foram várias pelo Centro, o prédio tremia inteiro. Senti que algumas rajadas de tiros acertaram o meu prédio em dois momentos, mas não tenho certeza se foi aqui ou no do lado.

Durante esse tempo, ficamos na sala, pois é o cômodo onde fica cercado de paredes, portanto mais seguro. Ficamos ouvindo as notícias. Nunca tinha passado por nada parecido com isso; já morei em São Paulo por anos, no Rio de Janeiro, nada nem perto.

Depois do cessar fogo e do cerco policial que se formou no Centro, fui dormir. Já era mais de 3h30."

Morador de 40 anos não quis se identificar

Empresário passou na agência do BB minutos antes do ataque

(Foto: Arquivo pessoal)

O empresário e ator Diego Wicledy, que atualmente reside em Araçatuba (SP), contou ao Hojemais Araçatuba, por e-email, que morou por 12 anos da capital paulista e deixou sua carreira para criar sua filha no município.

Wicledy conta que esteve na agência do Banco do Brasil, em frente à praça Rui Barbosa, minutos antes do assalto. Ainda estava no Centro quando ouviu os primeiros disparos e explosões. Ele achou que se tratavam de fogos e tratou de ir direito para sua casa.

“Ao fechar uma de nossas lojas, à noite, no shopping, fui ao banco com minha filha realizar um depósito; nada de especial, mas como precisava pagar uma conta com urgência, achei que não teria problema passar lá rapidinho. Não notei nada estranho, foi muito rápido.

Retornando de carro pela rua Silva Jardim, ouvi som de bombas ou tiros, até então, pensei que fossem fogos de artificio. Cheguei em casa em segurança. Ao checar as redes sociais, me dei conta do que estava ocorrendo. Entrei em desespero (...). Imaginei que um daqueles reféns poderia ter sido eu ou minha filha de 11 anos. É muito triste ver a cidade que eu nasci e cresci sendo alvo desses ataques. Hoje, eu agradeço a Deus por ter nos trazido com segurança, por nos livrar, por nos poupar. Meus sentimentos aos familiares e amigos dos que se foram nesse trágico ataque. Hoje, sinto ainda mais gratidão pela vida, sinto que ganhei uma nova oportunidade”.

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