Cultura

Antiga plataforma tem valor histórico e cultural para Araçatuba?

A possível extinção do espaço divide opiniões entre os favoráveis e os contras à demolição

Manu Zambon  - Hojemais Araçatuba 
04/05/19 às 13h00

Para responder a pergunta do título, a reportagem do Hojemais Araçatuba conversou com profissionais da área de arquitetura e urbanismo, engenharia civil e história, com o objetivo de levantar algumas questões referentes ao debate criado acerca da antiga plataforma da NOB (Estrada de Ferro Noroeste do Brasil) em Araçatuba.

As discussões sobre o local tiveram início no final de março, quando a Prefeitura anunciou que o prédio poderia ser demolido para dar lugar a um projeto de reurbanização. A possível extinção do espaço divide opiniões entre aqueles que acreditam que o local deve ser mantido pelo valor histórico e cultural e os que acham que a plataforma deve ser demolida.

Para o arquiteto e urbanista Márcio Barbosa Fontão, docente da disciplina de história da arquitetura de dois centros universitários do município, a antiga plataforma faz parte de um conjunto de obras que reflete o espírito da década de 1960 da escola paulista de arquitetura.

Por terem uma formação mais técnica, os arquitetos apostavam em edifícios que refletem uma linguagem baseada em desafios estruturais. No caso da plataforma, o exemplo é a marquise em balanço, que se caracteriza por uma laje com apoio apenas em uma lateral.

“Para além do valor histórico como testemunho, o prédio evidencia uma atividade estética característica de um determinado grupo, isso garante a ele uma qualidade cultural”, afirma o profissional. Ainda de acordo com ele, há poucas edificações na cidade que representam a linguagem da arquitetura moderna brasileira. Como exemplo, ele cita os edifícios Manhattan e Ouro Preto, ambos residenciais e mais recentes, que trazem o apelo mais forte do concreto aparente que evidencia a estrutura.

“A estação se diferencia deles em diversos aspectos. Ela carrega uma linguagem mais vernacular, com muita simplicidade, revelando uma obra adaptada à realidade araçatubense. Na minha opinião, isso a torna única”, completa.

Restauro

Fontão explica que a plataforma também se destaca do modelo original da NOB e representa uma importante fase da história da cidade.

“E isso é importante porque revela o ‘cronotopo’, conceito que trata a relação entre a sociedade e o lugar em um determinado espaço de tempo. Indo mais a fundo, existe um termo da filosofia alemã, conhecido por Zeitgeist, usado para traduzir o ‘espírito do tempo’. Nesse sentido, a estação materializa não só a relação da sociedade com o lugar em determinado tempo, mas também o clima intelectual daquele momento, como as características estéticas”.

Concurso

“Demolir (a plataforma) devido ao custo do restauro seria a solução mais fácil, porém a mais danosa. Seguindo esse raciocínio, parte do patrimônio histórico do mundo seria perdido”, complementa Fontão.

Para o arquiteto, uma boa ideia seria oferecer um concurso aberto para escritórios enviarem propostas de restauro com orçamento para a Prefeitura. A partir desse concurso, os horizontes poderiam se ampliar ou até mesmo culminar na conclusão de que o melhor seria demolir, afirma.

Ele também lembra que a ideia do restauro passa longe dos conceitos de reforma. Segundo o profissional, as teorias de restauro são várias e algumas até defendem a mínima intervenção, porém assegurando a estabilidade estrutural do edifício.

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Abraço simbólico foi realizado por grupo que é contra a demolição da plataforma (Foto: Gerson Fortes/Colaboração)

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No município, alguns grupos defendem a manutenção do espaço. No último sábado (27), moradores se organizaram para um abraço simbólico na estrutura. A ação teve como objetivo protestar contra a expectativa de demolição do local.

O organizador do movimento, o analista de sistemas Adriano Coelho, destacou que a ideia também é mostrar que o espaço pode ser usado para apresentações de música, teatro e outras atrações culturais.

O arquiteto acredita que a plataforma poderia ser incorporada em uma segunda etapa do projeto do Centro Cultural Ferroviário, realizado pelo Instituto Pedra, ou servir como parte anexa ao Museu Histórico e Pedagógico Marechal Cândido Rondon.

“Ela ligaria os dois lados da cidade, levando os usos culturais para o espaço público, além dos limites do edifício. As áreas internas da bilheteria poderiam ser utilizadas para fins culturais, por exemplo, como salas de ensaio para músicos e dança (...) Sob a marquise, é possível configurar um espaço de exposição, como uma galeria urbana (...) Tudo, obviamente, precisa ser estudado para ter clareza da viabilidade. Mas historicamente, a cobertura constitui o elemento fundamental da sobrevivência humana. Pode não haver paredes, mas se houver cobertura, há proteção. Guardadas as proporções, veja como exemplo o vão do Masp ou a marquise do Ibirapuera”, finaliza o arquiteto.

Demolição

A reportagem procurou profissionais de arquitetura e urbanismo a favor da demolição, mas não encontrou. O espaço está aberto a profissionais da área que gostariam de se posicionar sobre o prédio.

A arquiteta e urbanista e docente da área, Manuella Boreggio, de Araçatuba, também defende a manutenção do espaço. Com o objetivo de preservar o local, protocolou no final de abril um pedido de tombamento no Atende Fácil. Além da sua assinatura, ela reuniu outras 20 pessoas para fazer um pedido coletivo.

De acordo com a Prefeitura, já são sete pedidos de tombamento protocolados, sendo seis no Atende Fácil e um diretamente na Secretaria Municipal de Cultura. No município, a lei que prevê o tombamento é n 7.419, de 29 de novembro de 2011.

Na descrição do documento, Manuella conta que fez uma pesquisa histórica da origem da estação e descreveu as finalidades atuais das dependências da estação.

Dentre as justificativas específicas, ela argumenta que o prédio tem relevância histórica para Araçatuba. “A plataforma, ainda que tenha sido construída posteriormente à instalação da rede (de ferrovia) em Araçatuba, foi construída pela própria para atender o aumento da demanda de cargas e passageiros. Esse aumento de cargas e passageiros, inclusive, coincide com uma fase histórica de crescimento econômico da nossa cidade, reforçando-a como ‘capital’ regional”, detalha.

Manuella ainda explica que a estação também marca a chegada de uma época mais moderna na cidade, uma vez que sua arquitetura é tipicamente do período modernista da arquitetura brasileira.
“Esta estação foi a última a funcionar e testemunha o fim do período da hegemonia da ferroviária, que deu lugar ao período rodoviarista”, completa.

Laudo

Junto ao pedido, foi anexado um laudo técnico preliminar do engenheiro civil Thiago Francisco da Silva Trentin, com o objetivo de atestar a segurança da plataforma. Trentin esteve no local e concluiu, assim como detalhou no documento, que o prédio sofre com algumas fissuras, infiltrações e desplacamento do concreto. Porém, não há risco de desabar.

“No entanto, faço algumas ressalvas. Tem que ser feita uma impermeabilização da estrutura e o concreto da fachada precisa de reparos. Por conta da ação do tempo, da chuva, da temperatura, e falta de manutenção, o concreto se soltou”. É também necessário, do ponto de vista do profissional, reparo em uma trinca na alvenaria.
Para ele, o prédio só está de pé porque a estrutura foi muito bem dimensionada. Mas se continuar sem reparos, o processo de deterioração da plataforma irá continuar.


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