Cultura

Bailarina de Araçatuba levará para Rio coreografia sobre depressão

Beatriz da Silva Nunes competirá em festival nacional com performance que fala sobre problema

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba 
08/09/19 às 11h00
Dançarina independente está arrecadando recursos para custear viagem à capital carioca (Foto: João F. Tavares Kawasaki)

Usando como trilha sonora o single “AmarElo”, de Emicida, com um verso de “Sujeito de Sorte”, de Belchior, a bailarina independente Beatriz da Silva Nunes, 21 anos, de Araçatuba, criou a coreografia “Tigre Amarelo ou a fúria da beleza do Sol”, cuja a mensagem é um alerta para casos de depressão e suicídio.

“Quero mostrar que não estamos sozinhos. Problemas, sofrimentos sempre vão existir. A questão é como vamos fazer para passar sobre eles”, conta Beatriz, acadêmica do curso de letras.

É com esse trabalho que Beatriz quer se apresentar na 10ª edição do Festival Nacional de Dança Expressão e Arte, que acontecerá nos dias 14 e 15 deste mês, no Rio de Janeiro. A bailarina irá competir na modalidade “Street dance solo adulto feminino”.

A araçatubense escolheu o tigre para representar por ser um felino imponente. “O corpo que se movimenta sobre o espaço demonstra sua fraqueza enquanto ser humano. No entanto, consegue encontrar dentro de si próprio a força de um tigre para sobreviver... Após um momento de fúria, consigo me livrar da gaiola”.

CVV

A ideia de fazer um experimento coreográfico utilizando esse tema veio da sua própria experiência de vida. De acordo com ela, já teve contato de pessoas que tentaram o suicídio. “Eu, como amiga, nunca soube lidar muito bem com essa situação. Foi quando comecei a pesquisar e foi com a arte que consegui me manifestar sobre isso. É claro que nada substitui a ajuda de um profissional”.

A apresentação ainda destaca a existência da CVV (Centro de Valorização da Vida). “Ao final, o público recebe um pergaminho com a seguinte mensagem: não se despeça, você não está sozinho. Se for preciso, ligue 188. É um serviço de prevenção ao suicídio que pessoas em situação de vulnerabilidade emocional podem ligar para procurar ajuda e conversar”.As ligações são gratuitas.

Inclusão

Além do debate sobre a temática, a apresentação traz movimentos de dança inspirados em sinais de Libras (Língua Brasileira de Sinais), que representam sofrimento, fome, felicidade, entre outros sentimentos. Beatriz ainda traduz para a língua o trecho da música de Belchior, para que todos possam ter acesso à mensagem.

O festival carioca também valoriza essa questão da inclusão, segundo ela, tanto é que existe uma modalidade para dança inclusiva. Em 2017, o vencedor foi formado por bailarinas surdas que adaptaram “Lago dos cisnes”. “A proposta do meu experimento coreográfico é bem peculiar. Eu trato da inclusão por meio da Libras e de valorização da vida. Não é todo festival que está preparado pra receber”.

Além da questão sobre a depressão, performance traz movimentos de Libras (Foto: João F. Tavares Kawasaki)

Ajuda

Essa será a segunda participação de Beatriz em festival competitivo, no entanto, é a primeira vez que vai para outro Estado competir. Além da preparação para a ocasião, a estudante faz campanhas para arrecadar recursos para a viagem desde o início de agosto. A verba seria para custear as passagens, hospedagens e alimentação dela, da maquiadora, que faz toda a pintura corporal na Beatriz, e um profissional para ficar na cabine de som, conforme exige o regulamento.

Para arrecadar fundos, a bailarina independente realizou bingo, vendeu bombons, fez “vaquinha” e contou com a ajuda de vários amigos. Ela conseguiu R$ 1.500 para as passagens e está precisando arrecadar ainda R$ 600 para hotel e parte da alimentação.

Como ela ainda está arrecadando dinheiro para completar a quantia, interessados em ajudar podem entrar em contato pelo WhatsApp (18) 99109-4514.

Beatriz dança desde 2011, quando conheceu um grupo de hip-hop. Em 2012, fez aula na Academia Coopex com a professora Jessyka Jessy, que atualmente está ministrando aulas de dança em Xangai. De 2013 a 2015, foi bolsista na academia Ana Elisa Antunes.

“Em Araçatuba tem muita gente talentosa e é muito legal saber que esses artistas locais que acompanho estão na torcida por mim. Ouvir que estou representando eles em outro Estado enquanto artista é muito significativo pra mim. Não é só meu nome sendo levado pra fora, mas é o nome de Araçatuba também”.

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