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Cultura

Cia do Blefe programa último espetáculo da Trilogia do Poder

“Nunca mais o teu nome” aborda o poder nas relações de amor; texto é inspirado na obra "Passo de Dois", do dramaturgo Eduardo Pavlovsky

Manu Zambon  - Hojemais Araçatuba 
24/02/19 às 14h00
Escorial foi o segundo projeto da trilogia (Foto: Flávia Baxhix)

O premiado dramaturgo, diretor e ator argentino Eduardo Pavlovsky, conhecido pela sua característica psicodramática em seus trabalhos, faleceu em 2015, ano em que nascia, em Araçatuba (SP), a Cia do Blefe. O fio que liga as obras argentinas de Pavlovsky com a companhia araçatubense é o novo espetáculo “Nunca mais o teu nome”, inspirado no texto "Passo de Dois" (Paso de dos).

A obra, que é uma livre adaptação do original argentino, é a última parte da Trilogia do Poder, projeto que também conta com as obras “Braseiro” e “Escorial”, lançados em anos anteriores. A previsão de estreia é para o segundo semestre deste ano, segundo o diretor e fundador da cia, Mauro Júnior - inclusive, já foi iniciada uma conversa com Sesc Birigui para que o projeto, assim como oficinas, vivências práticas e debates com profissionais sobre cada tema que os três espetáculos abordam, entrem na programação da entidade.

Mauro Júnior é especialista em direção teatral pela Escola Superior de Artes Célia Helena e professor desde 2014 do curso técnico em teatro no Senac de Araçatuba. É orientador artístico do Programa de Qualificação em Artes, do Projeto Ademar Guerra, há 5 anos.

A trilogia tem como objetivo trazer aos palcos as relações humanas como objetos de interesse e disputa, elevando o tema às reflexões necessárias, dos micropoderes aos macropoderes, e suas mazelas. Em vez de heróis, a cia usa propositalmente os anti-heróis, dando força à linguagem contemporânea e voz à complexidade de cada personagem.

Em “Nunca mais o teu nome”, essa questão de desconstrução da vítima e do vitimizador também está presente, porque mesmo sendo sobre os mecanismos de poder ligados ao amor, a peça traz a violência/ditadura como panos de fundo.

Imagem que será trabalhada na divulgação do "Nunca mais o teu nome" (Foto: Flávia Baxhix)

Amor

“O espetáculo traz um torturador e uma mulher. A única coisa que ele precisa saber é o nome dela. E essa mulher não fala o seu nome, ela usa um codinome, provavelmente assim como muitos guerrilheiros. E aí começa uma agressão. (...) É um texto polissêmico, muito aberto para interpretações. (...) A gente sabe que pisa num terreno superdelicado, porque é um espetáculo muito violento”, explica Mauro.

O diretor explica que a peça se passa em dois tempos, passado e presente. Para fazer esses choques temporais, o palco recebe apenas dois atores em cena: Ele (Ed Barba) e Ela (Luana Oliveira).

A sugestão de usar o texto de Pavlovsky veio do próprio Mauro, que conheceu a obra há 10 anos, em uma livraria em Belo Horizonte. Segundo Mauro, a obra original possui uma estrutura contemporânea, onde espaço e tempo são sugeridos e não impostos, cujas personagens também não possuem nomes. O texto-poema, como ele enfatiza, é curto, porém extremamente perturbador.

Mauro também assina a cenografia e iluminação. Figurinos e cenotecnia são de Valtemir Jurca, e fotografia e vídeos, Flávia Baxhix. A peça terá duração de 60 minutos e classificação etária de 14 anos.

“Estamos com muito cuidado para manusear isso, porque ainda tem essa questão da violência contra a mulher, que nós vamos levar a fundo, mas mais do que isso (sem naturalizar ou diminuir), é discutir o que está acontecendo lá fora, essa revolução que a gente não sabe do que que é, porque essa mulher está ali dentro, sendo torturada, de como surge essa paixão. É um mergulho profundo”, destaca.

Pequenos e grandes poderes

“Braseiro”, o primeiro espetáculo da trilogia, teve sua estreia feita pelo Sesc Birigui, em 2015. Chegou a ganhar uma curta temporada em São Paulo, no Centro Compartilhado de Criação. Em 2016 circulou em algumas cidades, como Goiânia e São José do Rio Preto. Em Araçatuba, foram várias apresentações.

Mesmo sendo inviável fazer longas temporadas em cidades que não são capitais, por conta da demanda, Mauro destaca que todos os espetáculos realizados no município foram recebidos com a casa cheia.  

O “Braseiro” tem como característica a investigação da sobrevivência, dos pequenos poderes que guiam e passem parte do cotidiano. A história se passa no início do século 20, em 1910, no interior do nordeste brasileiro. É um jogo de poder mais sutil, que se passa num ambiente doméstico. “E então a gente discute muito esses pequenos poderes. A carteirada, o ‘você sabe com quem está falando?’, a miséria do caráter humano”, ressalta.

Já em “Escorial”, é a vez dos grandes poderes. A ideia é explorar a manutenção desses poderes quando ela é ameaçada e os conflitos que surgem a partir disso. O enredo acontece na Idade Média, em um reino decadente, cuja rainha agoniza no leito de morte.

“É a história de um rei que se sente ameaçado pela sua rainha e bobo da corte. É sobre um golpe político. Quem assiste Escorial automaticamente já remete toda aquela história medieval de um rei para o que acontece no nosso País. Essa analogia é direta”. É uma dramaturgia que aborda temas políticos como autoritarismo, insurreição, golpe de Estado, violência, indiferença e traição.

Histórico

Além da Trilogia do Poder, a Cia. do Blefe tem em seu repertório o projeto autoral “Íris - Primeira Unidade: Memória”, que integrou a iniciativa “Outras Cenas”, do Sesc Birigui, no ano passado. Em 2016, também por meio da unidade, estrearam a peça Folia dos Reis. A companhia conta atualmente com cerca de dez integrantes.

Braseiro se passa no início do século 20; objetivo é abordar os pequenos poderes (Foto: Flávia Baxhix)
Braseiro (Foto: Flávia Baxhix)
Escorial (Foto: Flávia Baxhix)


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