Cultura

Da fonoaudiologia para a arte multimídia

A artista Flávia Baxhix, de Araçatuba, conta sobre sua trajetória, passando pela fotografia, performance e trabalhos audiovisuais

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba
15/08/21 às 16h30
(Foto: Flávia Baxhix/Divulgação)

A fotografia ficou por muitas décadas renegada no âmbito de segmento artístico. A mudança desse paradigma veio na década de 70, quando as imagens capturadas por câmeras começaram a ganhar espaço nas galerias. A foto não só documenta, como expressa ideias, objetivas e subjetivas, e incontestavelmente esbanja valor artístico. 

Foi justamente por meio dos trabalhos com a fotografia, e mais tarde com tecnologias audiovisuais, que a artista multimídia Flávia Baxhix, 46 anos, deu início à sua jornada pela arte, representando, inclusive, Araçatuba (SP) em importantes exposições pelo País e também pelo mundo. 

No ano passado, por exemplo, foi um dos 50 nomes, entre artistas nacionais e internacionais, a participar da 5ª edição da exposição coletiva Eixo Arte Contemporânea 2020, do Rio de Janeiro (RJ). Já integrou outros eventos de arte, como a exposição coletiva no Salon International d´Art Contemporain Carrousel du Louvre, em 2017, o Paraty em Foco, em 2018, a Feira Cavalete MIS (Museu da Imagem e do Som), também em 2018, entre outras.

Um dos seus trabalho recentes foi capa do livro “A covid-19 e o direito”, da editora Todas as Musas, organizado pelos advogados Heloísa Helena Silva Pancotti, de Araçatuba, e Eduardo Augusto Salomão Cambi. 

Capa ilustrada por trabalho de Flávia Baxhix (Foto: Manu Zambon/Hojemais Araçatuba)

Flávia contou sua relação com as imagens e arte no projeto cultural Limoeiro 2k21 ( confira o vídeo no final do texto ), falando um pouco da sua trajetória e visão sobre a temática. Ao Hojemais Araçatuba , a artista também bateu um papo sobre o fazer arte e os desafios encontrados no interior. 

Histórias para dormir e circular

Embora tenha iniciado na fotografia em 2014 e começado a registrar shows e espetáculos em 2015 – que inclusive é uma de suas paixões e atividades -, ela afirma que a Flávia artista veio de um passado mais remoto. 

“A Flávia artista nasceu quando o meu avô ficava na rede comigo, inventando histórias de noite para ver se eu pegava no sono. A Flávia artista veio quando a minha tia enchia uma cesta de piquenique, me colocava dentro de um circular e o grande passeio era dentro do circular até o aeroporto da cidade. Ela ia falando: ‘Olha isso, olha aquilo’, até chegar no lugar e fazer o piquenique. A Flávia artista veio das limitações de ter morado numa cidade muito pequena (Colorado – Paraná)”. 

Formada em fonoaudiologia, Flávia se mudou para Araçatuba com o marido e formou sua família no município. Como gostava de cozinhar, decidiu investir em um ateliê de doces, atividade que exerceu até 2014. A descoberta da fotografia veio da necessidade de fotografar os seus produtos para postar na internet. 

“Na confeitaria, a coisa da arte veio. Além da modelagem, veio muito a questão das cores, de misturar tons, de entender que a cor tem a ver com sabor e tem a ver com a degustação da coisa como um todo e é exatamente isso com a arte multimídia. É entrar por todos os sentidos: olfato, visão, audição, tato”. 

Arte multimídia 

Seu trabalho conceitual enquanto artista que utiliza novas mídias, envolve fotografia, performance, vídeo e outras ferramentas e linguagens. Da fotografia, Flávia trouxe para seus trabalhos multimídia, a preferência por tons preto e branco e a liberdade de sair das imagens muito nítidas. 

“Não tenho aquela preocupação com foco, nitidez, eu quero é passar a mensagem. E a falta de nitidez pra mim, algumas vezes, é a mensagem. Mas antes de chegar a isso, tem que entender, estudar a fotografia. Consumir arte. Hoje, o mundo é um museu. As pessoas são um museu. As pessoas são um tesouro ambulante. Te fazem ver coisas e produzir coisas”. 

“Você pode usar ferramentas para algo diferente. É legal entender que você não precisa ser uma coisa só. Que legal entender que a arte é uma coisa ampla, não é só um quadro pendurado na parede. É um jeito de viver, uma maneira de pensar”. 

Nesse sentido, para a Flávia, quanto mais se presta atenção nas coisas, mais se cria redes, caminhos, e assim é ainda mais possível incorporar no que o artista se propõe a fazer. 

Para conferir alguns trabalhos audiovisuais, acesse: https://flaviabaxhixprojects.myportfolio.com/video-art

A arte liberta

Na fotografia, Flávia logo descobriu que a mensagem que gostaria de transmitir com os seus registros, saía do lugar comum. Um dos exemplos é o uso constante de grãos nas imagens e borrões. Segundo ela, muitas das descobertas vieram da fotografia de palco, já que para fazer bons cliques, tinha que vencer obstáculos como pouca luz e limitação de espaço para se movimentar. 

“É importante visualizar o quanto a arte liberta. O quanto viver a arte, liberta. Quando você fica só em uma coisa, você segue uma linha reta. Quando você percebe que pode fazer uma curva, você liberta a sua mente e aquilo se transforma em outras coisas”. 

Nesse processo de descobertas, saindo da fotografia e ampliando sua concepção de trabalho, Flávia encontrou o fotógrafo canadense e artista de novas mídias, Scott MacLeay, com quem fez residência artística. 

“Você tem um equipamento na sua mão, que grava áudio, faz filme e fotografa. Por que usar só para a fotografia? Quando ele me colocou nesse lugar de questionar, eu questionei outras coisas na vida (...) Isso foi me transformando. Hoje, me permito muitas coisas. A arte tem isso, de me libertar de uma série de mal-estares, sensação de aprisionamento”. 

Nessa unidade conceitual, Flávia destaca uma frase que a representa: “Eu não sou isto ou aquilo, eu sou isto e aquilo”. 

24 horas por dia

Na pandemia, a artista realizou alguns trabalhos, muitas vezes influenciado pelo momento atual pelo qual o mundo passa. Mas ela ressalta: quando o artista não está produzindo, isso não significa que ele não está em processo. 

“O artista passa 24 horas do dia em processo. Cada um que vivencia a arte, tem uma experimentação diferente, muito peculiar de cada um. Para mim, ela me fez ter essa sensação de liberdade maior, no sentido de abrir mais a mente para ir para outros caminhos”. 

Flávia acredita que a arte multimídia, em sua vida, tem a ver com romper barreiras do medo, fazer descobertas e ousar, já que no começo, tinha muito receio em fazer vídeo e não conseguir captar as imagens ou editar corretamente. 

“Uma ferramenta, às vezes, limita; então, entendi que uma imagem, um sussurro, uma palavra, uma frase, fortalecem, trazem potência para a obra. Não só para a produção, mas para você mesmo como pessoa. As conexões passam a ser outras”. 

Ser artista no interior

Flávia ainda comenta sobre como é ser artista no interior. 

“Quando estamos em grandes centros, que promovem uma movimentação mais intensa e te proporcionam acesso a exposições importantes, o universo se abre mais. Mas por outro lado, por conta da pandemia, a interatividade trouxe a possibilidade de visitação on-line a outros lugares, temos uma acessibilidade muito boa. Não é impedimento mais”. 

“Outro lado positivo, é ver tenta gente fazendo tanta coisa boa. Mesmo sem apoio algum, às vezes, mesmo sem condições ideais, acho que isso é a verdadeira arte. As possibilidades de encontro, às vezes, são menores no interior. Mas esse esforço que a gente faz para fazer a arte acontecer, a torna muito rica. Artistas em Araçatuba, de todos os segmentos, têm obras que poderiam estar em grandes museus. Isso é muito honroso”, finaliza. 

Conheça alguns trabalhos (clique nos títulos para mais informações)

(Foto: Flávia Baxhix/Divulgação)

Série Alma Avant-Garde (2019)

Inspirada na obra “Uma e Três Cadeiras”, de Joseph Kosuth, que versa basicamente sobre o objeto, sua imagem e seu conceito, em 2018 nasceu a série “De Alma em Punho”, que abordou fragmentos de cartas de personalidades como conceito, a performance como imagem e um objeto que remetia ao sujeito escolhido.

Em 2019 a série foi revisitada e nasceu “Alma Avant-Garde” que seguiu a mesma ideia porém abordando artistas mais contemporâneos.

Neste tríptico, a homenageada foi Yoko Ono. A imagem foi baseada num retrato publicado da artista, a frase escrita foi dita por ela, e o objeto faz referência a obra Cut Piece performada em 1964 em Kyoto.

Esta série é composta por seis trípticos, onde além de Yoko, também são homenageados John Cage, Pablo Picasso, Trisha Brown, Marcel Duchamp e Duane Michals.


(Foto: Flávia Baxhix/Divulgação)

Série Bacon and Eggs (em desenvolvimento)

Com pesquisa e execução em desenvolvimento, a série aborda a obra do pintor Francis Bacon. O trabalho foi iniciado em 2020 e a escolha da fonte inspiradora deu-se exatamente porque Bacon foi um dos mestres da expressão dos seus sentimentos e conflitos. Em pleno ano de confinamento, todas as angústias que Bacon ilustra em seu trabalho couberam na construção do conceito utilizado na série.

O trabalho ilustra completamente a estética do trabalho atual de Flávia. 

(Foto: Flávia Baxhix/Divulgação)

Baile (2020)

A peça inicial que era constituída de uma fotografia pura, passou por uma interferência de pintura e corte manual, transformando-se em um objeto para uma instalação. A imagem inicial foi destruída para nascer com maior potência. 

(Foto: Flávia Baxhix/Divulgação)

Equilíbrio Instável (2019)

Composta por imagem e vídeo, aborda exatamente o que o título diz, o estar por um fio no dia a dia e desenvolver equilíbrio em meio ao caos.

(Foto: Flávia Baxhix/Divulgação)

Sufoco

Sobre a evolução do uso de ferramentas para expressar o mesmo tema. Inicialmente uma fotografia, passou por interferência de pintura manual, depois transformou-se em uma máscara esculpida por Flávia no seu próprio rosto e, em 2020, uma fotografia expandida com interferência digital.

Participação no EP da banda Tropicadelia, de Araçatuba, com escrita do poema e declamação na faixa “Você Sabe”. 

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