Flávia contou sua relação com as imagens e arte no projeto cultural Limoeiro 2k21 (
confira o vídeo no final do texto
), falando um pouco da sua trajetória e visão sobre a temática. Ao
Hojemais Araçatuba
, a artista também bateu um papo sobre o fazer arte e os desafios encontrados no interior.
Histórias para dormir e circular
Embora tenha iniciado na fotografia em 2014 e começado a registrar shows e espetáculos em 2015 – que inclusive é uma de suas paixões e atividades -, ela afirma que a Flávia artista veio de um passado mais remoto.
“A Flávia artista nasceu quando o meu avô ficava na rede comigo, inventando histórias de noite para ver se eu pegava no sono. A Flávia artista veio quando a minha tia enchia uma cesta de piquenique, me colocava dentro de um circular e o grande passeio era dentro do circular até o aeroporto da cidade. Ela ia falando: ‘Olha isso, olha aquilo’, até chegar no lugar e fazer o piquenique. A Flávia artista veio das limitações de ter morado numa cidade muito pequena (Colorado – Paraná)”.
Formada em fonoaudiologia, Flávia se mudou para Araçatuba com o marido e formou sua família no município. Como gostava de cozinhar, decidiu investir em um ateliê de doces, atividade que exerceu até 2014. A descoberta da fotografia veio da necessidade de fotografar os seus produtos para postar na internet.
“Na confeitaria, a coisa da arte veio. Além da modelagem, veio muito a questão das cores, de misturar tons, de entender que a cor tem a ver com sabor e tem a ver com a degustação da coisa como um todo e é exatamente isso com a arte multimídia. É entrar por todos os sentidos: olfato, visão, audição, tato”.
Arte multimídia
Seu trabalho conceitual enquanto artista que utiliza novas mídias, envolve fotografia, performance, vídeo e outras ferramentas e linguagens. Da fotografia, Flávia trouxe para seus trabalhos multimídia, a preferência por tons preto e branco e a liberdade de sair das imagens muito nítidas.
“Não tenho aquela preocupação com foco, nitidez, eu quero é passar a mensagem. E a falta de nitidez pra mim, algumas vezes, é a mensagem. Mas antes de chegar a isso, tem que entender, estudar a fotografia. Consumir arte. Hoje, o mundo é um museu. As pessoas são um museu. As pessoas são um tesouro ambulante. Te fazem ver coisas e produzir coisas”.
“Você pode usar ferramentas para algo diferente. É legal entender que você não precisa ser uma coisa só. Que legal entender que a arte é uma coisa ampla, não é só um quadro pendurado na parede. É um jeito de viver, uma maneira de pensar”.
Nesse sentido, para a Flávia, quanto mais se presta atenção nas coisas, mais se cria redes, caminhos, e assim é ainda mais possível incorporar no que o artista se propõe a fazer.
Para conferir alguns trabalhos audiovisuais, acesse:
https://flaviabaxhixprojects.myportfolio.com/video-art
A arte liberta
Na fotografia, Flávia logo descobriu que a mensagem que gostaria de transmitir com os seus registros, saía do lugar comum. Um dos exemplos é o uso constante de grãos nas imagens e borrões. Segundo ela, muitas das descobertas vieram da fotografia de palco, já que para fazer bons cliques, tinha que vencer obstáculos como pouca luz e limitação de espaço para se movimentar.
“É importante visualizar o quanto a arte liberta. O quanto viver a arte, liberta. Quando você fica só em uma coisa, você segue uma linha reta. Quando você percebe que pode fazer uma curva, você liberta a sua mente e aquilo se transforma em outras coisas”.
Nesse processo de descobertas, saindo da fotografia e ampliando sua concepção de trabalho, Flávia encontrou o fotógrafo canadense e artista de novas mídias, Scott MacLeay, com quem fez residência artística.
“Você tem um equipamento na sua mão, que grava áudio, faz filme e fotografa. Por que usar só para a fotografia? Quando ele me colocou nesse lugar de questionar, eu questionei outras coisas na vida (...) Isso foi me transformando. Hoje, me permito muitas coisas. A arte tem isso, de me libertar de uma série de mal-estares, sensação de aprisionamento”.
Nessa unidade conceitual, Flávia destaca uma frase que a representa: “Eu não sou isto ou aquilo, eu sou isto e aquilo”.
24 horas por dia
Na pandemia, a artista realizou alguns trabalhos, muitas vezes influenciado pelo momento atual pelo qual o mundo passa. Mas ela ressalta: quando o artista não está produzindo, isso não significa que ele não está em processo.
“O artista passa 24 horas do dia em processo. Cada um que vivencia a arte, tem uma experimentação diferente, muito peculiar de cada um. Para mim, ela me fez ter essa sensação de liberdade maior, no sentido de abrir mais a mente para ir para outros caminhos”.
Flávia acredita que a arte multimídia, em sua vida, tem a ver com romper barreiras do medo, fazer descobertas e ousar, já que no começo, tinha muito receio em fazer vídeo e não conseguir captar as imagens ou editar corretamente.
“Uma ferramenta, às vezes, limita; então, entendi que uma imagem, um sussurro, uma palavra, uma frase, fortalecem, trazem potência para a obra. Não só para a produção, mas para você mesmo como pessoa. As conexões passam a ser outras”.
Ser artista no interior
Flávia ainda comenta sobre como é ser artista no interior.
“Quando estamos em grandes centros, que promovem uma movimentação mais intensa e te proporcionam acesso a exposições importantes, o universo se abre mais. Mas por outro lado, por conta da pandemia, a interatividade trouxe a possibilidade de visitação on-line a outros lugares, temos uma acessibilidade muito boa. Não é impedimento mais”.
“Outro lado positivo, é ver tenta gente fazendo tanta coisa boa. Mesmo sem apoio algum, às vezes, mesmo sem condições ideais, acho que isso é a verdadeira arte. As possibilidades de encontro, às vezes, são menores no interior. Mas esse esforço que a gente faz para fazer a arte acontecer, a torna muito rica. Artistas em Araçatuba, de todos os segmentos, têm obras que poderiam estar em grandes museus. Isso é muito honroso”, finaliza.
Conheça alguns trabalhos (clique nos títulos para mais informações)