Uma das curiosidades filosóficas inerentes à fotografia é que, desde o seu surgimento, um mundo antes velado passou a ser conhecido. Por meio de imagens, as culturas mais remotas, as guerras, tudo passou a ser visto e não só imaginado por quem estava longe desses adventos.
Analisando este fato, penso ser possível traçar um paralelo entre passado e presente. Explico-me; fotografia evoluiu em critérios de acessibilidade desde a descoberta de novos materiais fotossensíveis, desde a fixação da imagem em placa metálica por Daguèrre em 1835 até o primeiro sensor digital construído por Sasson em 1975. Câmeras cada vez mais compactas entraram no mercado, até que o pixel suplantou o velho filme 35mm.
Com o tempo, surgiram questionamentos: seria a fotografia somente uma ferramenta de registro da realidade? Não poderia também ser a tela de um pintor ou um pergaminho à espera da pena do poeta e alcançar a posição de arte, ser exposta ou disputada por colecionadores?
Os pictorialistas conquistaram este espaço, os modernistas revolucionaram a estética impressionista aplicada e a fotografia passou a ser expressão pessoal. Obras notáveis de fotógrafos imortalizados na história da arte como Man Ray, mostraram ao mundo que a fotografia poderia trazer, além da realidade, algo chamado “conceito”, sentimentos universais e tantas ousadias artísticas.
Mas voltando ao início dessa história e ao paralelo filosófico citado, pergunto-me: qual a diferença de hoje para o século XIX? Penso que há muito mais semelhança do que diferença. Somos testemunhas da popularização da fotografia como aconteceu em tempos passados.
Com isso vivenciamos também a falta de pensamento artístico no ato de fotografar. Tantas imagens geradas desvelando a roupa nova, a festa do dia, o relacionamento perfeito, o mundo de Alice e nada de poesia, nada de conceito. Seria a fotografia somente um registro de rotina ou uma arte morta?
Prefiro acreditar que ela caminha para uma miscigenação com outras ferramentas, digitais ou manuais, sepultando o vazio dos selfies e retornando ao posto de arte que lhe cabe tão bem. A poética é bem-vinda, amigos fotógrafos! Com pixel, tinta e/ou palavras, façamos arte para amenizar a vida.