Cultura

Do Colódio ao Pixel

"Tantas imagens geradas desvelando a roupa nova, a festa do dia, o relacionamento perfeito, o mundo de Alice e nada de poesia, nada de conceito"

Flávia Baxhix* - Hojemais Araçatuba
14/07/19 às 13h00

Uma das curiosidades filosóficas inerentes à fotografia é que, desde o seu surgimento, um mundo antes velado passou a ser conhecido. Por meio de imagens, as culturas mais remotas, as guerras, tudo passou a ser visto e não só imaginado por quem estava longe desses adventos.

Analisando este fato, penso ser possível traçar um paralelo entre passado e presente. Explico-me; fotografia evoluiu em critérios de acessibilidade desde a descoberta de novos materiais fotossensíveis, desde a fixação da imagem em placa metálica por Daguèrre em 1835 até o primeiro sensor digital construído por Sasson em 1975. Câmeras cada vez mais compactas entraram no mercado, até que o pixel suplantou o velho filme 35mm.

Com o tempo, surgiram questionamentos: seria a fotografia somente uma ferramenta de registro da realidade? Não poderia também ser a tela de um pintor ou um pergaminho à espera da pena do poeta e alcançar a posição de arte, ser exposta ou disputada por colecionadores?

Os pictorialistas conquistaram este espaço, os modernistas revolucionaram a estética impressionista aplicada e a fotografia passou a ser expressão pessoal. Obras notáveis de fotógrafos imortalizados na história da arte como Man Ray, mostraram ao mundo que a fotografia poderia trazer, além da realidade, algo chamado “conceito”, sentimentos universais e tantas ousadias artísticas.

Mas voltando ao início dessa história e ao paralelo filosófico citado, pergunto-me: qual a diferença de hoje para o século XIX? Penso que há muito mais semelhança do que diferença. Somos testemunhas da popularização da fotografia como aconteceu em tempos passados.

Com isso vivenciamos também a falta de pensamento artístico no ato de fotografar. Tantas imagens geradas desvelando a roupa nova, a festa do dia, o relacionamento perfeito, o mundo de Alice e nada de poesia, nada de conceito. Seria a fotografia somente um registro de rotina ou uma arte morta?

Prefiro acreditar que ela caminha para uma miscigenação com outras ferramentas, digitais ou manuais, sepultando o vazio dos selfies e retornando ao posto de arte que lhe cabe tão bem. A poética é bem-vinda, amigos fotógrafos! Com pixel, tinta e/ou palavras, façamos arte para amenizar a vida.

 

*Flávia Baxhix é fotógrafa, professora no programa Pontos MIS do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e apaixonada por toda expressão artística.

 RECOMENDADO PARA VOCÊ
 EM DESTAQUE AGORA
VEJA TODOS OS DESTAQUES
 ÚLTIMAS EM CULTURA
Franquia:
Araçatuba SP
Franqueado:
Connect Jornalismo Digital LTDA
48.486.487/0001-90
Editor responsável:
Lazaro Silva Júnior MTB 48158
lazaro.junior@ata.hojemais.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2026 - Grupo Agitta de Comunicação.