Cultura

Escritor de Penápolis é destaque internacional com obra sobre a região

Fred Di Giacomo é autor de “Desamparo” e participou da Primavera Literária, na França  

Manu Zambon  - Hojemais Araçatuba 
28/03/19 às 18h49
Obra assinada por Fred Di Giacomo foi lançada em 2018 (Foto: Arquivo Pessoal)

Por meio de uma narrativa que permeia entre a ficção e a realidade, o primeiro romance do penapolense e jornalista Fred Di Giacomo, “Desamparo”, foi destaque neste mês de março na Europa. O escritor participou da 6ª edição da Primavera Literária Brasileira, realizada na França, e fez o lançamento do livro em Berlim, na Alemanha.

A Primavera Literária Brasileira (Printemps Littéraire Brésilien, em francês) surgiu na Universidade Sorbonne, em Paris, com o objetivo de debater os rumos da literatura brasileira e da liberdade de expressão, em locais onde a língua portuguesa é lecionada. Além da Europa, o evento ganhou versão nos Estados Unidos, Bélgica, Canadá e Suíça.  

A convite da organização, Giacomo participou de vários eventos. Esteve na Universidade Sorbonne falando sobre jornalismo e fake news, desmistificando alguns fatos relacionados à origem da região de Araçatuba e Bauru. O escritor usou alguns detalhes sobre sua pesquisa histórica e jornalística na produção do livro.

O evento contou com várias participações, como a do jornalista e escritor, Fernando Molica, e do ex-deputado federal Jean Wyllys.

Na Universidade Paris-Nanterre, comandou a oficina literária “Eu e Minha Cidade”, onde falou do livro e sobre a sua relação com a cidade onde nasceu. Em Lille, localizada ao norte da França, integrou duas mesas sobre o “Desamparo”.

O escritor, que atualmente é um dos nomes em ascenção na literatura, disse ao Hojemais Araçatuba que essas participações vão agregar potencial ao seu currículo. “Passei por três faculdades renomadas da França. Fiz contatos com professores, escritores, troquei informações e contatos. Aprendi muito. No Brasil, isso abrirá portas para mim”, destacou.

Lançamentos

Na Alemanha, ele lançou a obra em Berlim, onde mora há oito meses. O evento não tem relação com a Primavera Literária e contou com a participação da escritora Cristina Judar, que divulgou o seu livro "Oito do Sete". Ela é vencedora do Prêmio São Paulo 2018.

Lançamento do livro em Berlim (Foto: Divulgação)

“Lançar um livro em Berlim também abre os contatos com escritores brasileiros que moram na cidade, leitores de língua portuguesa que estão na Alemanha. A gente chegou há menos de um ano aqui. Isso é um belo cartão de visita para conhecer a cena de brasileiros e artistas que têm aqui e estrangeiros que se interessam pela língua portuguesa”, relata.

No Brasil, Giacomo fez dois lançamentos em 2018. O primeiro foi em São Paulo e o segundo na biblioteca de Penápolis (SP), sua cidade natal.

O escritor se lançou no mercado editorial em 2012, com o livro de contos “Canções para Ninar Adultos”. Um ano depois veio “Haicais Animais”, que reúne uma série de poesias sobre animais, inspiradas nos antigos poemas japoneses de três linhas, com ilustração de Vanessa Prezoto.

Em 2014, lançou pela editora Melhoramentos o Guten Appetit, organizado pela chef Sabine Hueck, sobre a culinária alemã. Também é autor de “Felicidade Tem Cor” e “Guia Poético e Prático para Sobreviver ao Século XXI”.

Desamparo

O romance “Desamparo” aborda a história da colonização na região noroeste paulista, focando no município de Penápolis. Também envolve os acontecimentos que culminaram na fundação de Araçatuba e Bauru. Na versão fictícia, inspirada nessa colonização, Giacomo mostra o outro lado da história, ou seja, como foi para os índios caingangues e os oti-xavantes.  

“Como diz Dráuzio Varella, se você não é Tolstói ou Dostoiévski, que são grandes escritores que podem transformar qualquer história banal em grande clássico, escreva alguma coisa que só você conhece. Então, pensei em contar a história da minha região, de Penápolis, Araçatuba, Bauru”.

O autor consultou livros raros e materiais disponíveis na biblioteca municipal, o Museu Histórico e Pedagógico Fernão Dias Paes, o Museu do Folclore e a 1ª Casa, todos em Penápolis, além de ter tido acesso a teses de mestrados, doutorados e trabalhos de conclusão de curso, entrevistas com pioneiros da região e ter conversado com moradores antigos.

Entre os causos e personagens que ele usa no seu livro, está a figura do famoso matador Dioguinho, que viveu no começo do século XX. Ele não era da região, mas vários livros sobre Penápolis falam que ex-membros do bando dele agiram na região na disputa de terras. “O Dioguinho em si era um personagem interessante, porque era um matador, era homossexual e muito vaidoso. Gostava de usar roupas caras, era muito culto e os fazendeiros contratavam ele”.

Manoel Bento da Cruz, que fundou cidades da região, também aparece na história. Segundo o autor, o livro traz um caso interessante, que possui várias versões em Penápolis. Onze colonos brancos que viviam na região foram assassinados por índios caingangues e esse fato sempre foi usado para falar que esses indígenas eram selvagens.

Cartaz de divulgação dos eventos que Giacomo participou na Europa (Foto: Divulgação)

Hamlet dos trópicos

Uma das versões que o escritor teve acesso explica o motivo da chacina, afirmando que o ocorrido foi uma vingança dos caingangues porque Madesto Moreira, tido como o único fazendeiro negro na região e que aparentemente se dava bem com os caingangues, foi acusado de ter estuprado uma mulher da tribo.

Mas durante a apuração, as informações revelaram que Modesto é inocente e que o motivo da revolta dos índios era outro.  

“O mais estranho é que os índios não atacaram Modesto Moreira, mas sim outra família, dos colonos brancos. Em um desses estudos acadêmicos que consultei, encontrei uma nota de rodapé dizendo que a família que foi atacada pelos caingangues tinha matado alguns índios que foram pegos furtando espigas de milho na propriedade deles”.

A partir dessa descoberta, o coronel Manoel Bento da Cruz se transformou em antagonista da história e a filha de Modesto, Rita, fruto de um relacionamento com a pioneira branca, Maria Chica, ganha destaque como protagonista para vingar a injustiça feito com o seu pai.

“Rita é uma espécie de Hamlet de Shakespeare, na versão mulher cabocla dos trópicos. Ela é atormentada pelo fantasma do pai, que, por sua vez, reclama que perdeu suas terras, seu trono. Ela quer vingar essa imagem do pai. O livro tem tudo o que a gente está vendo hoje, que são políticos corruptos, conflitos de terra, grilagem, racismo, conflito com indígenas e violência contra a mulher”, finaliza.

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