Cultura

Grupo 'Leia Mulheres': conheça projeto nacional que completa três anos em Araçatuba

Iniciativa, que também acontece em vários estados e até outros países, é mediada, no município, pelas professoras Érica Roberta Dourado e Aline Garcia

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba
08/03/22 às 20h00
(Foto: Divulgação)

Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst, Aline Bei, Marina Colasanti, Ayobami Adebayo, Han Kang, Gisele Mirabai, Clarice Lispector, Micheliny Verunschk... O que une todos esses nomes e muitos outros, familiares ou não do grande público mundo afora, é a voz das mulheres dando vida a personagens e histórias.

Para destacar, justamente, as obras literárias de autoras, muitos grupos têm se mobilizado para disseminar, debater e popularizar o trabalho de mulheres no mercado editorial. Esse é o caso do grupo Leia Mulheres , que tem abrangência nacional e até internacional. E você, sabia que esse projeto também tem atuação em Araçatuba?

Neste Dia Internacional da Mulher , contamos mais sobre essa iniciativa, que no município é comandada pelas professoras Érica Roberta Dourado, 37 anos, e Aline Garcia, 34 anos. A ideia de formar o grupo em Araçatuba surgiu de Aline, que conheceu Érica no mestrado. Ambas decidiram tocar juntas o projeto, que completa neste mês, três anos.

“Foi dessa necessidade de compartilhar obras literárias, que encontrei o grupo Leia Mulheres em Rio Preto. Na época, tive muito interesse, mas aí tem toda a questão do deslocamento. Entrei em contato com as meninas do Leia Mulheres e acabei me tornando mediadora e convidei a Érica para a parceria”, explica Aline.

Encontros e livros

O grupo não tem quantidade fixa de participantes e aceita novos membros, homens e mulheres, de todas as faixas etárias - exceto crianças, pois os livros selecionados não são indicados para esse público. Para quem tiver interesse em participar, pode enviar mensagem pelo Instagram ( clique aqui ).

Desde que foi criando o núcleo de Araçatuba, as professoras já mediaram mais de 30 encontros. As leituras que são realizadas durante o ano são divulgadas com antecedência (confira abaixo). Para 2022, a lista conta com títulos como Manual da Faxina , de Lúcia Berlin, Holocausto Brasileiro , de Daniela Arbex, Os Tais Caquinhos , de Natércia Pontes, entre outros.

O livro escolhido para ser lido no mês de março é As Meninas , de Lygia Fagundes Telles. O encontro para debater a obra está marcada para abril, no dia 9 (sábado), às 15h, pela plataforma Google Meet. O link será enviado pelo grupo criado no WhatsApp. 

(Foto: Divulgação)

Por enquanto, a orientação do grupo nacional é que as reuniões sejam realizadas ainda de forma on-line por conta pandemia de covid-19. Os encontros, tanto presenciais como virtuais, funcionam como a maioria dos clubes de leitura, valorizando a opinião de todos participantes, fugindo dos debates técnicos. 

"Nós deixamos o debate livre. Cada um pode colocar seu ponto de vista. A ideia é que as pessoas enxerguem como uma troca de experiências mesmo, a leitura como uma forma de vivenciar outras coisas. Quando você entra em contato com outros posicionamentos, essa troca é muito boa, saímos da zona de conforto", conta Érica. 

Aline destaca também que o grupo é flexível; quando os membros estão muito ocupados em um determinado período, elas têm a opção de postergar para o mês seguinte a obra da vez. A professora também lembra que, com a pandemia, o grupo sofreu algumas mudanças em sua dinâmica.  

"Às vezes, parecia um grupo de terapia, porque era um momento que a gente tinha para conversar, colocar para fora os anseios, medos. Temos essa flexibilidade para entender essas situações", afirma Aline. 

Outro aspecto que trouxe uma nova dinâmica foi o fato da reunião ter se tornado virtual nesse período. "Por um lado, foi positivo, porque assim, temos a participação de pessoas de outras cidades", lembra Aline.

As professoras contam que o grupo não tem finalidade política e dessa forma não permite parceria com prefeituras. Porém, está aberto a convênios com editoras e livrarias.

Incentivo 

Érica e Aline, que estão em constante contato com o universo literário feminino, ressaltam que esse tipo de grupo é muito importante, por fomentar, inclusive, nomes que não são conhecidos do grande público. Em pesquisa desenvolvida pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, vinculado à UNB (Universidade de Brasília, que mostram que mais de 70% dos livros publicados por grandes editoras brasileiras, entre 1965 e 2014 foram escritos por homens. 

"Nosso primeiro contato com autoras menos conhecidas do grande público, como no caso de Aline Bei, foi durante o mestrado. Fomentar esses nomes é muito bom, porque as escritoras muito conhecidas podem causar um certo bloqueio. Não é que sejam mais difíceis, mas já se criou um status muito grande e as pessoas acabam tendo resistência. Quando a gente traz essas autoras mais jovens, divulgadas pelo grupos e mídias, acaba se tornando mais atrativo. A literatura feminina é um ganho extremamente importante. O mercado editorial tem muito para melhorar, existe um abismo gigantesco em relação aos autores masculinos, mas tivemos um salto bastante positivo", avalia Érica. 

"A ideia é realmente descontruir esses paradigmas. Os grupos são extremamente importantes para isso, porque quando a gente pensa em livros, literatura, autoras femininas, sabemos de todas as dificuldades, até por conta da questão do livro ser caro no Brasil. O grupo com iniciativas de leitura acaba trazendo essa finalidade, de realmente despertar o interesse pela leitura, discutir obras e pensar em todos os entraves que tiveram as autoras femininas por terem suas obras vistas como algo inferior", podenra Aline. 

Indicações

A reportagem pediu que as professoras indicassem alguns livros que tiveram algum tipo de impacto positivo sobre o grupo. Como sugestões de leitura, elas destacam as obras A Vegetariana, de Han Kang, O peso do pássaro morto, de Aline Bei, Machamba , Gisele Mirabai, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres , da Clarice Lispector, Persépolis , de Marjane Satrapi. 

Grupo

O grupo surgiu em 2015, a partir de uma iniciativa da autora e ilustradora inglesa Joanna Walsh, que popularizou nas redes sociais a hashtag #readwomen2014 (#leiamulheres2014). A partir dessa ideia, Juliana Gomes convidou suas amigas Juliana Leuenroth e Michelle Henriques, e criaram os clubes de leitura em livrarias e espaços culturais em São Paulo.

Atualmente, o grupo possui mediadoras em vários estados, como Rio de Janeiro, Ceará, Acre, Rio Grande do Sul, Paraná, e se este para outros países, como Portugal. Saiba mais em leiamulheres.com.br .

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