Cultura

Iniciativas mantêm vivas tradições folclóricas em Araçatuba

Na semana do folclore, conheça projeto e pessoas que lutam para que manifestações populares não sejam esquecidas

Manu Zambon - Hojemais Araçatuba 
25/08/19 às 11h53
Catira integra o folclore local, trazida por tropeiros que vinham para a cidade (Foto: Manu Zambon)

Para algumas linhas teóricas, o folclore é o que engloba tudo o que o homem faz, produz e transmite como tradição. Já em outras, é uma parte da cultura popular. Em uma terceira hipótese, o folclore é sinônimo de cultura popular.

Independente da vertente escolhida, o folclore foi destaque nesta semana, celebrado em todo Brasil no dia 22 de agosto.

Em Araçatuba. desde junho do ano passado, está em vigor a lei nº 8.089, que institui o Dia Municipal do Folclore de Rua, também em 22 de agosto, passando a integrar o calendário de eventos da cidade.

Assim como acontece em diferentes municípios, Araçatuba tem suas próprias tradições populares, que graças aos esforços isolados de pessoas da comunidade, têm se mantido vivas. Segundo o que apurou a reportagem, as duas tradições típicas da cidade são a dança catira e a Folia de Reis, que já tem um cunho mais religioso.

Nesse sentido, destaque para o projeto Folclorear, gerido pela professora e catireira Fernanda Colli, que leva danças típicas do Brasil, incluindo a catira, característica da nossa região, para escolas do município. O projeto foi criado há 10 anos, por meio de oficina da Secretaria Municipal da Educação, que também originou o grupo de catira Novos Araçás.

Ritmos

A iniciativa, que recebe esse nome desde 2017, é uma junção do projeto Catira Araçatuba com danças folclóricas tradicionais brasileiras, recebendo a parceria com o professor de danças folclóricas José Nonato.

“A catira não só é o marco de toda a construção do projeto, como também relata a história de nossa região, região desbravada pelos tropeiros sentido interior do País. Envolvidos pela riqueza cultural de nosso País, o projeto Catira Araçatuba então embarca no universo das danças folclóricas populares, onde conseguimos mostrar as diferentes influências de valores, crenças e etnias”, detalha Fernanda.

Objetivo

Atualmente, o Folclorear, que já atendeu cerca de mil estudantes de uma vez, é desenvolvido em duas escolas municipais: o Cemfica (Centro Municipal de Formação Integral da Criança e do Adolescente) Solar Dr. Bezerra de Menezes e a Emeb Prof. Leão Nogueira Filho. Além da catira, os alunos aprendem outros ritmos brasileiros, como o carimbó, xaxado, danças indígenas, entre outros.

Mesmo com uma abrangência menor, se comparado com outros anos, o projeto não deixa de atender seu objetivo, que é a preservação da cultura popular da cidade. Neste ano, foi contemplado com o primeiro prêmio Troféu Odette Costa como Folclorear, oferecido pela Secretaria Municipal da Cultura. Em 2013, a iniciativa já havia sido premiada por conta do grupo Novos Araçás e em 2015, como ponto de cultura pelo trabalho desenvolvido nas escolas.

Reconhecimento

“Começamos a fazer apresentações fora da cidade, em festivais, representando Araçatuba. O grupo Novos Araçás é mais conhecido fora daqui, inclusive”. Fernanda conta que eles já participaram do Festival do Folclore, em Olímpia, Festa do Peão de Barretos e na mostra de música do Mapa Cultural Paulista, na fase regional, em 2013.

O grupo também participou do programa Viola, Minha Viola, da TV Cultura, apresentado por Inezita Barroso, junto com João Mulato.

 

Dificuldades

Depois do período recebendo verba pelo projeto para manter as atividades ativas, veio o corte de recursos devido a impasses políticos, explica Fernanda. Ela conta que até para comprar fantasia para as crianças usava o próprio dinheiro. “Hoje, temos procura, mas não temos como atender. Estamos trabalhando no projeto de forma voluntária”, ressalta.

Em 2017, o Folclorear se manteve com recurso do Fundo Municipal de Apoio à Cultura. Neste ano, Fernanda pretende inscrevê-lo no edital de oficinas do Programa de Fomento à Cultura, também do município. O projeto ainda conta com uma sala disponível na Secretaria Municipal da Cultura para ensaios do Novos Araçás, no entanto, não tem verba para manter o grupo ensaiando e se apresentando.

“A cultura popular ainda está conseguindo espaço. Conseguimos resgatar esse respeito às tradições. Eu acho que a sociedade precisa de respeito. Esse resgate faz com que essas crianças mudem na sociedade, na família. Por meio disso é que a catira se mantém viva”.

Início

Quando foi criado, em 2009, o projeto levou em consideração um levantamento feito pela Secretaria da Educação sobre as tradições locais. De acordo com Fernanda, a pesquisa apontou a catira e a Folia de Reis como costumes da cultura popular do município.

Na época, foi oferecida uma oficina para professores de artes e de educação física, com o intuito de resgatar a catira, com o catireiro João Teodoro, o último remanescente do grupo Araçás. “Esse grupo de catira foi o que conseguiram descobrir na história de Araçatuba. Não tem registros sobre. Mas quando a gente fala em cultura popular, não tem muito registro mesmo”, relata Fernanda.

No final de 2009, os participantes da oficina se apresentaram como resultado do que tinham aprendido. Os professores decidiram continuar com as oficinas e como alguns membros saíram, os ensaios passaram a ser aberto para a população, para quem quisesse aprender. Fernando passou a integrar o grupo, que recebeu o nome de Novos Araçás, sob o comenda da professora Fernanda Valverdi.   

Companhia de reis tem 178 anos

Ferreira mostra bandeira da Companhia de Reis Estrela Dalva (Foto: Manu Zambon)

De pai para filho. É dessa forma que algumas tradições percorrem, mesmo que de forma mais restrita e exclusiva, gerações e mantêm suas histórias vivas. Esse é o caso da Companhia de Reis Estrela Dalva, que já completa 178 anos.

“Meu avô começou com o grupo em 1885; estamos na terceira geração. Essa companhia de reis é só da família. Pelo o que o meu avô contava, ela tem 178 anos. Meu avô morreu com 110 anos. Meu pai ficou com a bandeira e agora está comigo”, explica o agente de turismo Nelson Souza Ferreira, 72 anos, à frente do grupo há 38 anos.

Ferreira explica que a bandeira original do grupo, inclusive, foi um presente que seu avô ganhou de Getúlio Vargas. Hoje, ela está preservada, num quadro, na sala da casa de Ferreira. A nova bandeira, com motivo religioso, ostenta fitas com vários pedidos e enfeites.

Atualmente, o grupo de Folia de Reis conta com 14 integrantes, entre foliões (que podem ser apenas membros familiares) e outras pessoas da comunidade, sendo que sua formação já teve 18. De acordo com Ferreira, seu filho mais novo, ou outro membro da família, poderá continuar com a tradição familiar. Sua neta também já integrou alguns festejos.

Festas

Folia de Reis é uma manifestação cultural, de natureza católica, que se classifica no Brasil como uma tradição do folclore. Na companhia, cada um assume um papel, como o festeiro, mestre e guardião da bandeira. De acordo com o folião, o grupo é de folia mineira, diferente da baiana.

Todos os anos, Ferreira organiza uma festa anual para celebrar a visita dos três Reis Magos ao menino Jesus. O evento é sempre aberto à comunidade. Nas duas últimas edições, foi realizado no dia 6 de janeiro (Dia de Santos Reis). No próximo ano, ele pretende fazer no dia 25 de janeiro.

A festa é organizada com doações e são oferecidas bebidas e comidas. Rezam-se o terço e cantam na celebração. Antigamente, para angariar dinheiro e mantimentos para o evento, a companhia ia para as ruas. Hoje, eles não têm mais essa rotina.

Ferreira afirma que, mesmo sem ter apoio da administração municipal ou falta de interesse dos mais jovens, ele vai continuar fazendo o que seu pai e avô faziam.

“A cultura está acabando. O jovem não quer saber disso. Tem grupos de Folia de Reis que têm incentivo, pagam as pessoas nas apresentações. Mas a Folia de Reis para mim é tudo. Não existe coisa que eu tenha pedido até hoje que não tenha sido realizada”. 

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