Artista foi vencedor do prêmio devido aos projetos realizados em 2019 como professor, coordenador de eventos e dançarino (Foto: Gabriel Mariano/Divulgação)
O hip-hop como expressão musical e cultural surgiu na década de 70, em comunidades novaiorquinas formadas basicamente por afro-americanos, jamaicanos e latinos. No Brasil, a arte teve início nos anos 80, em São Paulo, cidade que até hoje é um dos cenários fortes da cultura hip-hop e de seus pilares, como o breaking.
Quarenta anos depois da chegada dessa arte no País, na região de Araçatuba (SP), um dos representantes da expressão é o dançarino profissional e coreógrafo, Gustavo Fernandes, mais conhecido pelo nome artístico de Nyambertal.
Aos 25 anos, e com 12 anos de experiência em dança, ele foi premiado na 17ª edição do Troféu Odette Costa, na categoria “dança urbana” (toda semana, o
Hojemais Araçatuba
publica uma reportagem sobre os vencedores do troféu, com o objetivo de dar visibilidade à trajetória e trabalho de cada artista vencedor).
No ano passado, ele destaca alguns projetos realizados que contribuíram para que ele ganhasse o prêmio; foi professor de danças urbanas (hip-hop) na escola Escalada Ballet, entre 2019 e 2020; atuou como bailarino no espetáculo “Para Sempre Chaplin”, em 2019, com sete apresentações públicas; participou do Festival Regional de Dança, em 2019, em Araçatuba, lecionou dança freestyle com a b-girl Léia no projeto Macuco 2019; organizou a Batalha de Breaking no Q Festival 2019, junto com o grupo Birigui City Breaking; coordenou o Dançando nas Ruas - Especial Hip-Hop no festival Corpos 2019 (Araçatuba), entre outros.
Neste ano, deu aula de breaking na Oficina de Danças Urbanas, projeto realizado com recursos do Fundo Municipal de Apoio à Cultura, por meio do edital nº06/2019 do Programa de Fomento à Cultura da Prefeitura de Araçatuba. As aulas tiveram início em fevereiro, na Estação Cidadania, no bairro Atlântico. Devido à pandemia, o projeto está paralisado e o artista ainda aguarda posição da Prefeitura quanto à possibilidade de passar as aulas para o ambiente on-line.
Batalhas
Nyambertal é de Birigui e tem formação em educação física (licenciatura), pela Fabi (Faculdade Birigui). Atua como b-boy (o termo, assim como b-girl), é usado para pessoas que se dedicam ao breaking), urban dancer, hip-hopper, coreógrafo, professor, instrutor, palestrante e produtor cultural de eventos ligados à cultura urbana.
O Troféu Odette Costa não foi o único prêmio conquistado pelo artista. Dentre os títulos obtidos, ele destaca o primeiro lugar no evento Rino Battle, em Rinópolis (SP), que foi o primeiro título conquistado.
“O ano era 2014 e o evento (...) reuniu muitos b-boys de alto nível. Entrei na competição sem muitas pretensões e acabei saindo com a taça de campeão, mesmo diante de dançarinos muito melhores e mais experientes que eu. O mais extraordinário era que eu tinha apenas 6 anos de prática e ganhei quase R$ 1 mil reais de premiação (...)”.
Ele conta que entrou no universo das competições, ou “batalhas artísticas”, em 2013, e que esses eventos são os melhores termômetros para saber como está o nível da dança e sua experiência.
“Você entra no mata-mata cheio de energia e é naquele espaço que irá mostrar o tamanho da sua evolução. Conforme disse o lendário b-boy Ken Swift: ‘A batalha é o elemento mais importante para a evolução’. Muito importante ressaltar que não há contato físico entre os competidores (...), o objetivo é ganhar do adversário, utilizando a linguagem corporal com movimentos ritmados e radicais sem encostar um dedo no oponente”, destaca.
Birigui City Breaking
Nyambertal é integrante dirigente e coreógrafo do grupo Hip-Hop Birigui City Breaking, O grupo formado em 2016 para unificar os hip-hoppers de Birigui e fortalecer a cena na região. Desde então, são mais de dez membros que são majoritariamente de Birigui e de cidades próximas, como Penápolis e Avanhandava.
O Birigui City Breaking é um grupo ativista da cultura hip-hop, formado por hip-hoppers que desempenham atividades variadas de discotecagem, mestre de cerimônia, rimas improvisadas, danças urbanas e artes visuais por meio dos quatro elementos característicos do hip-hop: DJ, MC, breaking e graffiti.
“O grupo é um coletivo grande de artistas que desempenham diversos trabalhos, como apresentações de intervenções urbanas, desenvolvimento de palestras, oficinas e workshops, realização de eventos e participações em festivais de arte e competições de dança. O nosso lema é: ‘Dançamos a verdadeira dança de rua e não cairemos na guerra contra essa moda’”.
Dificuldades
Para o b-boy, é notório o crescimento das manifestações artísticas do hip-hop em Araçatuba e Birigui, porém, segundo ele, ainda não se vê políticas públicas consolidadas para esse setor, com pouco fomento no ensino por parte das prefeituras.
A cultura urbana tem crescido na região, no entanto enfrenta algumas dificuldades (Foto: Gabriel Mariano)
Especificamente sobre o breaking, uma das dificuldades, segundo Nyambertal, é a luta por um espaço próprio para difusão de b-boys e b-girls, sendo que até hoje continuam se encontrando em praças.
“Praticamos dança de rua, mas é muito importante ter um local adequado com equipamentos como tatame de EVA, aparelho de som, bebedouro com água gelada, banheiros limpos etc. São coisas simples que algumas vezes nos faltam. Tem muita criança que se interessa em aprender o breaking, porém devido à falta de espaço, acaba desestimulando a formação de novos adeptos a esse estilo de dança”.
Para o b-boy, outra questão é o apoio de instituições públicas e privadas para realização de eventos. O ideal, seria ter mais parcerias para esses eventos, para tornar as produções cada vez mais profissionais, com equipamentos bons e premiações atrativas. Atualmente, os eventos relacionados à cultura urbana na região são realizados de forma totalmente independente, sem apoio ou aporte financeiro dos órgãos públicos, segundo ele.
“A conquista do troféu Odette Costa representa para mim uma realização pessoal e uma motivação para continuar trilhando o caminho da arte e deixar grandes pegadas para as próximas gerações. E também, um reconhecimento como artista do hip-hop, dado que outrora sofri preconceitos por causa do meu estilo de vida. Além de que esse troféu na categoria urbana manifesta toda a classe de ativistas da cultura hip-hop da região noroeste paulista que propagam a paz, amor, união e diversão por meio da cultura de rua”, conclui.