Cultura

Região rock´n´roll 

No Dia Mundial do Rock, celebrado hoje (13), músicos e profissionais contam como o estilo musical se estabelece em Araçatuba e região

Manu Zambon  - Hojemais Araçatuba 
13/07/19 às 11h00
Foto: Divulgação

Numa região onde o sertanejo é o som predominante, o rock´n´roll vem mostrando que também tem seu espaço garantido. No Dia Mundial do Rock, celebrado neste sábado (13), o que os músicos e pessoas que vivem do estilo têm a dizer sobre como o rock se estabelece hoje em Araçatuba e região?

“Araçatuba, uma cidade totalmente voltada ao sertanejo, conhecida como a Terra do Boi, tem a maioria dos bares noturnos tocando MPB e rock. O público de rock dos anos 80 aumentou. As bandas se desenvolveram, aumentaram”. A fala é do empresário Sigmar Wagner, conhecido como Sig, que há três anos comanda o Motor Rock Pub & Dive Bar .

Sig conta que participava de bandas de rock antes de abrir seu próprio estabelecimento na cidade, já que o lucro apenas com a música não era o suficiente. Foi então que surgiu a necessidade de montar algo voltado para o cenário, que agregasse a valorização da cena com a profissionalização de bandas locais e também de outras cidades.

Evolução

De casa nova há três meses, o Vitrola Vintage Bar é outro local que abre as portas para o rock. Com a mudança de endereço, essa rotina aumentou, segundo o empresário e dj Régis Queiroz. “Com o novo espaço, apareceram novas bandas, o palco aumentou e a oportunidade para quem toca rock em Araçatuba também”.

Queiroz explica que antes da reabertura, o bar oferecia música ao vivo apenas aos sábados, mas agora também dá espaço para bandas às quintas e sextas-feiras. “Temos mais dias e conseguimos atender alguns trios acústicos que não tinham espaço antes”, destaca.

Organização

Assim como Sig, Queiroz acredita que a cena está bem representada por aqui. Ele, que desde 2017 está à frente do bar, já viu algumas bandas nascerem do palco livre do seu estabelecimento, como a Hard Station e Jack Vintage.

“O rock evoluiu bastante. Bandas se profissionalizaram, se organizaram com eventos. A gente tem os bares que abraçaram a causa. Aqui, o objetivo, além de ser ponto de encontro de motociclistas, é atender as tribos do rock” conclui Queiroz.

Mesmo com os bons ventos do rock em Araçatuba, o público precisa assumir seu papel na cena, segundo o empresário. “As pessoas precisam entender mais essa tribo. Temos um grande exemplo, que foi o João Rock, em Ribeirão Preto, que é uma casa de sertanejo. Em Rio Preto terá um festival de rock. Barretos também organiza o MotorCycles com bandas de rock. Araçatuba tem que mudar a cabeça. O rock está sobrevivendo e está vivo”, completa.

União

Para o empresário Jeancarlos Pereira dos Santos Marchioli, do Pork´s Bar , a união é um ponto que precisa de mais atenção, não só no município. Essa parceria, de acordo com ele, é o que alavanca, por exemplos, as duplas sertanejas.

"No sertanejo, é um ajudando o outro a subir. O cara que está começando sempre tem um padrinho. As bandas autorais, hoje, até se ajudam, mas as que fazem cover, não. Ainda mais no interior”, destaca Marchioli.

Desde os 13 anos, ele sonhava em ser dono de um bar que tocasse rock em Araçatuba. O desejo se realizou há nove. Desde então, já viu várias fases da cena no município. Para ele, a cidade tem propensão ao rock nacional, como Cazuza, Legião Urbana, Charlie Brown Jr., Mamonas Assassinas e Engenheiros do Hawaii.

Marchioli também destaca que a divulgação por parte da mídia poderia fortalecer ainda mais o movimento autoral na cidade.

Grunge araçatubense 

Breed leva o grunge para Araçatuba e região (Foto: Flávia Baxhix)

Além das casas que se abrem para atender a demanda do rock, o que os músicos que integram o movimento têm a dizer sobre?

“De 10 anos para cá, ganhamos mais espaço pra tocar. Temos o público pra rock, mas é um público que oscila, não é garantido, como o sertanejo. Mas por mais que seja um público flutuante, é fiel no sentido de ter mais pessoas de fato prestando atenção na música. Quando alguém fala que adorou uma música ou prestou atenção num detalhe, faz valer tudo a pena”, frisa o contrabaixista Eduardo Martinez, da banda Breed .

O grupo representa o segmento grunge no município desde 2015, fazendo cover do Nirvana. Além das músicas conhecidas na voz de Kurt Cobain, o grupo formado por Martinez, Guilherme Melo (guitarra e vocal principal) e Juninho Silva (bateria) abriu o repertório para composições próprias. “Just one of us”, cuja letra é assinada por Melo, é o single que representa o som autoral dos músicos. Além do hit, a banda possui mais seis músicas autorais prontas (cinco em inglês e uma em português).

Além de Araçatuba, a Breed costuma levar o nome do município para outras cidades do interior, como Lins, São José do Rio Preto, Birigui e Bauru.

Em Araçatuba, Martinez explica que, mesmo ganhando mais espaço nos últimos tempos, o rock ainda encontra algumas dificuldades, principalmente na questão da divulgação. Para explicar sua afirmação, ele conta que esteve em uma exposição do Nirvana, em São Paulo, sobre a história da banda e do grunge. Lá, teve contato com uma cartilha que falava sobre as estratégicas que funcionaram e divulgaram o grunge em Seatle (EUA).

"Fazendo uma comparação esdrúxula com Seatle, Araçatuba tem bandas dispostas, existem casas de shows abertas, mas não existe uma mídia que faça essa ligação. Não que sem isso não possa crescer, porém, são coisas que facilitam essa escalada”.

O contrabaixista também é um dos organizadores do Festival Grunge, que neste ano completa a quarta edição e deve acontecer no dia 9 de novembro.

Valorizando os 90´s

Dona Odete já tem uma tradição de mais de 10 anos de rock (Foto: Flávia Baxhix)

Com repertório que valoriza a cena do rock nos anos 90, a banda Dona Odete , de Araçatuba, está há 13 anos representando o estilo no município, e também tocando em outras cidades, como Fernandópolis, Jales, Pereira Barreto, entre outras. São quatro músicos que integram o grupo: Carlos (contrabaixo), Marcus Andrei (bateria), Renan Koreia (guitarra) e Marcelo Andrade (vocal).

Neste final de semana, a banda deixa a cidade para se apresentar no Pará. O grupo fará dois shows; neste sábado, em Tucuruí, e no domingo, em Marabá. Esta é a terceira vez que os músicos se apresentarão em terras paraenses.

Além dos covers de Pearl Jam, Red Hot Chili Peppers, Foo Fighters e outros, a Dona Odete também tem seu trabalho autoral. Já são cinco músicas pré-produzidas de forma independente, conta Andrade, que podem ser ouvidas no canal.

Mesmo não tendo feito parte do repertório da banda nos últimos anos pela mudança de guitarristas, a ideia é voltar com os trabalhos autorais em breve.

Andrade também destaca a questão do público e a quantidade de espaços em Araçatuba para tocar. “Nos últimos anos, o público se dispersou um pouco. Há 10 anos o público era mais fiel, mas também tinha pouco lugar para tocar. Aumentou a quantidade de casas hoje. Então o público se dividiu”. Ele ainda ressalta que a banda tem se apresentado bastante no interior.

Na opinião dele, os sons autorais até encontram espaço em algumas casas na cidade, mas sempre acabam tocando menos em comparação às bandas que tocam músicas mais conhecidas. Para ele, o que está faltando em Araçatuba é um festival que reúna as bandas e as tribos do rock.

De pai para filho

Ovelhas Negras se apresentou no “Q Festival”, em 2018 (Foto: Marcelo Polako)

Ovelhas Negras é uma das bandas mais antigas de Araçatuba, iniciando a trajetória em 2004 e permanecendo sem parar até os dias atuais. O grupo foi idealizado pela dupla de vocais Valdomiro Maria e Júlio Rodolfo Maria, pai e filho, respectivamente.

“Ao lado do meu pai, tocando rock, eu vejo como uma celebração e valorizo cada segundo como se fosse o último. Quantos não gostariam de ter o pai ao lado para abraçar, de restabelecer a amizade com o pai? Eu tenho o privilégio de há 15 anos dividir os palcos com amigos e um deles ser o meu pai”, conta Rodolfo.

Após algumas formações, hoje a banda é composta também por Daniel de Moraes, na bateria, Marcelo Bordon, no contrabaixo, Leandro Lins e Marcelo Nara, nas guitarras.

No repertório, covers nacionais, como Raimundos, Titãs, Charlie Brown Jr., Plebe Rude, e internacionais, como Ramones, Rage, System of a Down, Foo Fighters. Em 2017, lançou seu primeiro EP (Extended play), a “O Rock Ainda Pulsa”, com as músicas “Tática de Guerra”, “Piercing”, “Rockstyle”, “A Culpa”, “Beba Sem Dó”, “Morto Arrependido” e “Toca Raul”.

Atualmente, Ovelhas Negras possui quatro faixas inéditas em fase de mixagem, com letras assinadas por Rodolfo. O single dessa nova remessa de canções é “Eterna Luta”.

Na trajetória, destaque para as participações em eventos, como o “Canibais M. C. Fest”, em São José do Rio Preto, “Um dia para fazer a diferença” da Rede Record; “Plis Rock”, em Penápolis, “Mega Moto Fest”, em Araçatuba, “Q Festival”, em 2018, também em Araçatuba.

Para o vocalista, o município vem numa crescente de estímulo ao rock´n´roll, em comparação com alguns anos atrás, por meio de espaços com propostas alternativas. “Falta ainda um intercâmbio entre bares regionais, no quesito interação, para turnês mais elaboradas”, define

Foco nos festivais 

Banda Cigarros Índios já possui três músicas autorais gravadas (Foto: Bruno Suart)

A banda Cigarros Índios trabalha algumas frentes que a diferencia no meio musical. Além do vocal feminino de Ana Lídia, o grupo tem focado em músicas autorais e participação em festivais.

Formado por quatro integrantes, Ana, Tico Beatbox (bateria / beatbox), Herivelto Medeiros (contrabaixo) e Ricardo Storti (guitarra / backing vocal), a Cigarros já possui três músicas gravadas para o EP, são elas “Gravidade”, “Ontem” e “Outro Alguém”, além de mais três músicas em processo de mixagem e masterização, explica Storti.

O músico conta que a banda também tem se concentrado em festivais. Neste domingo (14), eles integram o line-up do Rock Rio Pardo, no mesmo dia cantora Pitty. Ele ainda destaca que tocarão em mais dois festivais grandes, mas que ainda não podem divulgar.

“Estamos com foco total nos festivais fora da cidade, porque conseguir entrar nesse circuito é difícil. Nós fazemos toda nossa produção, alimentamos nossos canais, fazemos as inscrições e contatos em festivais, cuidamos da imagem. Hoje, a banda virou uma empresa”.

Para Ricardo, o rock em Araçatuba esbarra em alguns entraves. Um deles é o público. “Temos as casas que fomentam e dão espaço semanalmente e que de alguma maneira tentam fazer a circulação de público e banda. Mas temos cada vez menos público. É difícil fazer uma bilheteria legal”, afirma Storti.

Outra situação que ele cita é a desunião dos grupos de rock, tanto no País, como regionalmente. Segundo o músico, as bandas estão mais preocupadas em fazer seu trabalho individual. “A gente é um pouco assim também, focamos mais no nosso trabalho para tentar viabilizar”.

A Cigarros surgiu em 2012, dando espaço para artistas diversos, como Marisa Monte, Amy Winehouse, Maria Rita, Nina Simone, misturando com Hendrix, Zeppelin e outros ícones do rock.

Jornalista cria documentário sobre o rock na cidade

Renato Costa entrevistou grandes nomes, como Eloy Casagrande (Foto: Arquivo Pessoal)

O jornalista Renato Costa, de Araçatuba, produziu o “Araçatuba Depois da Meia-Noite: Documentário sobre o Rock”. O trabalho audiovisual, que foi feito como projeto de conclusão de curso na graduação, no final de 2018, pode ser transmitido no canal independente Curta!.

Segundo Costa, o material já estava com a emissora e nesta última quinta-feira (11) foi enviado o DVD para a Ancine, no Rio de Janeiro, para obtenção do CPB (Código de Produto Brasileiro). A partir disso, ele acredita que poderá submeter o material a veiculação na TV.

O documentário, além de abordar o aspecto histórico do ritmo, traz detalhes do rock no contexto local. “Foi a partir do comentário de que Araçatuba não tinha rock, que me veio a ideia de fazer esse documentário pra mostrar que não é exatamente assim”.

O jornalista entrevistou profissionais e músicos da cidade, como o empresário Sig Wagner (Motor Rock Pub & Dive Bar), o professor Carlos Eduardo Marotta Peters, o vocalista Brunno Carvalho, que se enquadra também no pop rock, e o músico Daniel Freitas, que tem um museu itinerante de música em Araçatuba e idealizador do Batucando, de Araçatuba.

Costa também colheu informações de outros profissionais de outros locais, como o jornalista especializado em cobertura cultural Júlio Maria, do jornal O Estado de S. Paulo, e o músico Eloy Casagrande, do Sepultura.

De acordo com ele, em Araçatuba o rock se manifesta mais por meio de bandas que produzem covers, porque acabam não encontrando muito espaço para autorais. “O comércio da música autoral é mais difícil. Porém, em Araçatuba, vemos muito investimento nisso, mesmo que não tenha muito retorno”.

O documentário tem 25 minutos e está disponível on-line, no YouTube. No sistema de busca, basta digitar o nome completo do trabalho. O jornalista Renato Costa, de Araçatuba, produziu o “Araçatuba Depois da Meia-Noite: Documentário sobre o Rock”. O trabalho audiovisual, que foi feito como projeto de conclusão de curso na graduação, no final de 2018, pode ser transmitido no canal independente Curta!.

Segundo Costa, o material já estava com a emissora e nesta última quinta-feira (11) foi enviado o DVD para a Ancine, no Rio de Janeiro, para obtenção do CPB (Código de Produto Brasileiro). A partir disso, ele acredita que poderá submeter o material a veiculação na TV.

O documentário, além de abordar o aspecto histórico do ritmo, traz detalhes do rock no contexto local. “Foi a partir do comentário de que Araçatuba não tinha rock, que me veio a ideia de fazer esse documentário pra mostrar que não é exatamente assim”.

Entrevistas

O jornalista entrevistou profissionais e músicos da cidade, como o empresário Sig Wagner (Motor Rock Pub & Dive Bar), o professor Carlos Eduardo Marotta Peters, o vocalista Brunno Carvalho, que se enquadra também no pop rock, e o músico Daniel Freitas, que tem um museu itinerante de música em Araçatuba e idealizador do Batucando, de Araçatuba.

Costa também colheu informações de outros profissionais de outros locais, como o jornalista especializado em cobertura cultural Júlio Maria, do jornal O Estado de S. Paulo, e o músico Eloy Casagrande, do Sepultura.

De acordo com ele, em Araçatuba o rock se manifesta mais por meio de bandas que produzem covers, porque acabam não encontrando muito espaço para autorais. “O comércio da música autoral é mais difícil. Porém, em Araçatuba, vemos muito investimento nisso, mesmo que não tenha muito retorno”.

O documentário tem 25 minutos e está disponível on-line, no YouTube

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