Cultura

Teatro antrofágico ou teatro on-line?

"Há quem não goste do termo teatro on-line, já que o teatro é por natureza a arte do encontro. Mas provamos que conseguimos nos encontrar no on-line. Há mais de um ano de pandemia, a arte tem resistido e se ressignificado para este novo formato possível"

Paula Liberati*
02/08/21 às 18h49

Deleuze realiza seu projeto filosófico na constituição de uma filosofia da diferença. Mas além da sua filosofia ter como conteúdo a afirmação da identidade da diferença, seu procedimento, seu modo de fazer, está sempre criando a diferença.

Sua leitura de filósofos, literatos, pintores ou cineastas é sempre organizada a partir de um ponto de vista, de uma perspectiva que faz o objeto estudado sofrer pequenas torções, a fim de ser integrado a suas próprias questões. E isso é o que atrizes e atores fazem.

Quanto mais referências temos, mais conseguimos inter-relacionar e conectar pensamentos. Seria Deleuze um antropofágico? Somos nós?

O movimento antropofágico, idealizado pelo modernista Oswald de Andrade e publicado como manifesto em 1928, tinha por objetivo repensar a dependência da cultura brasileira e por proposta assimilar outras culturas, não copiar. Mas assimilar. 

Tenho para mim a nítida imagem de comer, comer e comer de vários sabores e digerir dentro de mim, para depois soltar para o mundo a minha obra. Assim como os dadaístas fizeram. Assim como fez  Deleuze. A “Collagem" produz pensamento, criando os conceitos. Pois ao colar, já é diferente do original. 

Não se identificar totalmente com nada. Mas recortar o que me interessa. O que quero destacar.

Não seria isso a chave para nos tornarmos seres pesquisadores, contestadores, capazes de recortar o que nos serve mas descartar o que não nos representa? A unanimidade é burra. A adoração é perigosa.  Mais saudável é “antropofagizar".

Agora chegarei no ponto deste artigo: teatro on-line seria uma nova linguagem? Estamos fazendo e também pensando sobre. Há quem não goste do termo teatro on-line, já que o teatro é por natureza a arte do encontro. Mas provamos que conseguimos nos encontrar no on-line. Há mais de um ano de pandemia, a arte tem  resistido e se ressignificado para este novo formato possível. 

O teatro sendo antropofágico está comendo e bebendo dele mesmo e de outras linguagens,  recortando e colando, principalmente do audiovisual e eis que nasce o que ainda chamamos de teatro on-line. Uma experiência de vanguarda que nasceu das limitações impostas por um vírus. 

O encontro agora é on-line. Assim é que é possível o teatro agora. Assim é que faremos. E é justamente assim, que criamos uma nova linguagem neste vasto campo das artes. Como a limitação fez Glauber Rocha criar um cinema novo, hoje referência mundial, assim como todas as artes de vanguardas romperam seus axiomas servindo seu devir, nós, artistas, estamos aqui, on-line esperando vocês.

Presos e livres por estas janelas, estes quadrados on-line, palco- janela-casa.

(Foto: Clayton Khan/Divulgação)

*Paula Liberati é mãe, atriz, performer e adora se aventurar. Agora, estreia na direção de teatro. Eutonista em formação. Mas, antes de tudo, é uma apaixonada.

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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