Economia

Empresa de Birigui se torna uma das maiores fabricantes de sofá do País e mira exportação

Indústria é o maior private label do setor moveleiro do País com apenas cinco anos de atuação; crescimento ficou acima de quatro dígitos nos primeiros quatro anos e se mantém ascendente

Aline Galcino - Hojemais Araçatuba
13/03/22 às 15h00

Com apenas cinco anos de atuação e crescimento contínuo, a Mundo Móveis, de Birigui (SP), já conquistou colocação no ranking dos cinco maiores produtores de sofás do Brasil e agora se prepara para exportação, mirando países da América, Europa e Oriente Médio.

É hoje o maior private label (expressão que significa “marca privada”) do setor moveleiro no Brasil, tendo 100% da produção comercializada pela Mobly, por meio de e-commerce, realidade que deve mudar nos próximos meses com o projeto de expansão da fábrica.

A trajetória e os números da empresa surpreendem. A indústria nasceu em novembro de 2016, em uma área de 75 metros quadrados, no bairro Jussara, em Araçatuba, onde dois funcionários produziam quatro peças por dia.

Hoje possui três unidades em Birigui, onde ocupa uma área fabril de cerca de 43 mil metros quadrados, além de polos de costura nas cidades de Votuporanga, Osvaldo Cruz e Auriflama. Emprega 500 funcionários diretos e cerca de 700 indiretos, e tem capacidade de produção e 1.100 peças por dia. Das unidades em Birigui saem, diariamente, 16 caminhões carregados de produtos.

Em cinco anos, confeccionou quase 1 milhão de sofás, que foram vendidos para todo o País. São cerca de 60 modelos e mais de 600 variações de cor e tamanho.

Por semana, são lançados dois novos produtos, mantendo o princípio de startup da empresa. Os modelos que caem no gosto do consumidor ficam. Os que não agradam, são retirados do catálogo. Na semana passada, o modelo mais procurado era o de living, que possui design diferenciado, é fixo e com pés palitos. Há um mês, o carro-chefe da produção era o retrátil reclinável compacto.

A empresa cresceu acima de quatro dígitos nos primeiros quatro anos e se mantém ascendente. Em 2020, enquanto vários setores amargavam prejuízos pela pandemia, a fábrica cresceu 230% na comparação com o ano anterior. No ano passado, cresceu mais 40% e a perspectiva para este ano é chegar aos 70%.

Hugo Batista (à esq.) e Diego Gewehr definem a Mundo Móveis como uma empresa com princípio de startup: testa muito e rápido e vende muito do mesmo (Foto: Aline Galcino/Hojemais Araçatuba)

O início

O CEO da empresa, Hugo Evandro Batista, 45 anos, acumula 21 anos de experiência no varejo. Antes de abrir a própria fábrica, atuou como representante de empresas como Casas Bahia, Magalu, Ricardo Eletro, B2W, Wallmart, entre outras.

“Quando ainda estava na representação, um diretor da Mobly deu a ideia de fazer um laboratório para desenvolvimento de produtos e me pediu dois modelos de sofá por mês para iniciar”, lembra Batista. O pedido fugia dos padrões da indústria moveleira nacional, que é considerada conservadora, com carência de lançamentos, mas se encaixava no perfil da Mobly, que era uma startup.

Batista criou dois produtos. Um não vendeu e outro, caiu no gosto do consumidor, com 211 peças comercializadas – o projeto inicial seria produzir 40 peças de cada modelo por mês.

Por ser final de ano (outubro de 2016), Batista não conseguiu encontrar fábrica que entregasse a encomenda. A sugestão de um fundador da Mobly foi que ele montasse uma. Em 30 dias, nasceu uma pequena indústria, em Araçatuba, que começou a fazer os sofás que tinha criado. “Vendemos 211, depois 420, 750, e os números foram aumentando absurdamente”, recorda.

Em Araçatuba, a fábrica tinha como meta a produção de 30 peças por dia, mas conseguiu atingir 25 peças/dia. A empresa já estava em cinco barracões para conseguir atender a demanda e surgiu a oportunidade de fazer uma fábrica de box baú (base de cama). Por isso, montou uma unidade em Birigui onde havia disponibilidade de grandes barracões desocupados por fábricas.

Olhar diferenciado

A proposta de atender uma startup era algo novo para Batista, pois esse tipo de empresa cria, testa e troca tudo muito rápido. Por isso, uma das filosofias da empresa era não empregar ninguém do setor de móveis, que tem perfil conservador.

Os primeiros contratados para a fábrica em Birigui eram do setor calçadista. Já na área de gestão, foram empregados profissionais da aviação, indústria mecânica, linha branca, entre outros setores, que segundo Batista, “têm margens pequenas e exige um olhar grande”.

Com o crescimento vertiginoso, houve a necessidade de uma melhoria de gestão. Foi quando Diego Gewehr, 35 anos, que é primo de Batista e hoje COO (diretor de operações) da Mundo Móveis, entrou no negócio. Era novembro de 2018.

Graduado em engenharia elétrica e eletrônica pela Unesp de Ilha Solteira, Gewehr atuou, por seis anos, na Infraero, onde desempenhou as funções de gerente e superintendente nos aeroportos de Brasília e Goiânia. Na estatal, teve a oportunidade de participar de uma consultoria (com uma das maiores do mundo no ramo) para reestruturação da gestão da empresa pública federal após o processo de concessão de aeroportos.

Essa consultoria foi primordial para a implantação de uma nova gestão da Mundo Móveis, que precisava ganhar escala.

Pandemia

Cerca de 85% da produção da Mundo Móveis hoje é sofás, que têm como diferencial o design moderno, com preço acessível, numa democratização da decoração. No entanto, a empresa também faz box (cama), guarda-roupa, cômoda e racks, e se prepara para confeccionar o colchão. Todos os itens vão para a Mobly, que sempre vendeu mais do que a fábrica conseguia produzir.

“Chegamos a ter 14 mil peças de backlog (atrasadas) e só em 2020, conseguimos equilibrar a equação produção versus vendas. Tínhamos planos de abrir para o mercado, quando veio a pandemia. No dia 16 de março de 2020, meu primo falou: ‘vamos quebrar’. Montamos um comitê de crise e no dia 2 de abril, 15 dias depois, as vendas já eram maiores do que no dia 16 de março”, cita o CEO.

O sucesso é atribuído à expertise das vendas no online e o consumo das famílias, que passaram a ficar dentro de suas casas e viram a necessidade de melhorias e mais conforto.

“Antes da pandemia, apenas 8% das vendas do mercado moveleiro eram online. O restante era em lojas físicas, que estavam fechadas. Hoje as vendas do setor na internet estão em torno de 18%”, compara Batista.

Exportação é a principal estratégia de crescimento

Na foto, sofá eco-friendly criado para exportação (Foto: Aline Galcino/Hojemais Araçatuba)

Além de iniciar há cerca de 20 dias uma força de vendas no mercado nacional, com a intenção de atender outras empresas além da Mobly, a Mundo Móveis trabalha com ações de comércio exterior, que são a principal estratégia de crescimento para 2022.

No ano passado, Hugo Batista e Diego Gewehr visitaram uma fábrica em Portugal, que é a segunda maior da Europa, e descobriram uma oportunidade fora do Brasil. Enquanto conheciam a indústria, viram empresas implorando para serem atendidas por ela. Ao fazer as contas com base no preço pago pelo produto, tiveram a certeza que o móvel brasileiro é competitivo lá fora.

Emirados Árabes

Neste ano, entre os dias 22 e 25 de fevereiro, a empresa participou de uma missão comercial em Dubai, nos Emirados Árabes, por meio do projeto Brazilian Furniture, que tem por objetivo incrementar a competitividade da indústria brasileira no mercado internacional. A iniciativa é da Abimóvel (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário) em conjunto com a Apex Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).

O evento foi realizado num hotel, com rodadas de negócios agendadas com clientes do Oriente Médio. Dos 33 clientes selecionados, 17 tinham interesse em comprar sofás. Foram 12 encontros com compradores, que resultaram em duas vendas imediatas.

Produtos

O portfólio da fábrica de Birigui atende o consumidor do Oriente Médio. Já na Europa e Estados Unidos, será preciso adaptar a ergonomia, com a confecção de sofás mais profundos. Para esses países, a Mundo Móveis criou um produto eco-friendly , cujo tecido e espuma são feitos a partir da reciclagem de garrafas PET e madeira com selo FSC (sistema de certificação florestal internacionalmente reconhecido).

Para atender esses novos clientes, a Mundo Móveis aposta na capacidade produtiva expansível sem precisar aumentar a planta. A indústria trabalha atualmente com um turno, sendo possível chegar a três, com contratação apenas de mais colaboradores.

A expectativa é que a primeira remessa para o exterior seja enviada no próximo mês.

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