A notícia trazida pelo Hojemais Araçatuba no dia 1º de março de 2023, dando conta do furto de peças integrantes do acervo pertencente ao Museu Histórico e Pedagógico Marechal Cândido Rondon de Araçatuba, é retrato de uma crônica anunciada que já vem sendo escrita, pelo menos, desde 2021, com resenhas de vandalismo, invasão e furtos. É o retrato do que acontece quando patrimônios arquitetônicos e culturais são abandonados pelos agentes públicos.
Em 2016, estive no museu para uma visita movido pelo interesse em descobrir pistas sobre o povoamento indígena do noroeste/oeste paulista, mas, especialmente, interessado em conhecer o que o museu poderia guardar, em seu acervo, de elementos culturais dos caingangues, tradição dominante entre os povos que habitavam a região desde tempos remotos.
A visita foi acompanhada por estagiária, gentil e atenciosa, mas, infelizmente mal treinada para transmitir os saberes que o acervo possuía, fato que se revelou, em uma de suas frases, quando disse que os caingangues eram selvagens e violentos, e que matavam muita gente.
Dei prosseguimento à visitação e descobri fontes importantíssimas para o trabalho de pesquisa etnológica e histórica como peças indígenas, coleções de jornais e outros impressos de tempos antigos, acervo de peças domésticas de antigas famílias da região. Tudo guardado em um prédio sem condições materiais de preservação de material histórico e artístico sensível a ação do tempo.
Retornei ao museu em dezembro de 2022 e uma placa anunciava que se encontrava “fechado para manutenção” e, pior, tomei conhecimento que a tal “manutenção” havia sido começada desde minha última visita, em 2016. Ao longe não percebi nenhuma alteração estrutural no edifício, apesar de decorrido seis anos após minha primeira visita. Ao contrário: o telhado permanece em ponto de queda. E o acervo do museu, o bem mais precioso da memória de uma comunidade humana, onde andará? Ao que parece, bem longe da proteção e conservação por parte dos agentes responsáveis.
Museu e museus, e é preciso que fique claro de uma vez por todas, exercem funções essenciais numa sociedade humana. São lugares de memória que protegem e guardam experiências de gerações que viveram em diferentes temporalidades; são espaços que transmitem identidade de pertencimento às novas gerações através de suas coleções de objetos materiais e imateriais; lugares de memória de um povo além de lugar preferencial de investigação acadêmica através de pesquisas das ciências sociais e humanas.
A quem cabe a obrigatoriedade da criação e da manutenção dos espaços museológicos? Ao poder público em conformidade com os textos constitucional e legal. Contudo, o que se percebe é que aqueles que exercem os poderes não se entregam ao trabalho da preservação da memória deixando em “manutenção” por tempo a perder de vista patrimônio cultural, histórico e artístico pertencente a toda comunidade. Aos agentes públicos constituídos cabe o papel fundamental, em relação aos museus, de quebrar a ideia que predomina de muito tempo no meio social de que museu é lugar de “coisas velhas”.
Nesse sentido, o Museu Histórico e Pedagógico Marechal Cândido Rondon necessita, urgentemente, ser revitalizado, reformado, seu acervo catalogado e disponibilizado em sistema digital e devolvido à comunidade local para que esta possa desfrutar de um espaço riquíssimo em lembranças, em cultura, em arte e em história.
Afinal, os museus são espaços “de grandes novidades” e de integração entre antigas e novas gerações que habitam e compartilham experiências em uma comunidade. Não bastasse tal justificativa, o museu precisa, por meio das autoridades responsáveis, fazer jus à memória de seu patrono: Marechal Cândido Rondon.
