Opinião

O que John Lennon provavelmente falaria para o mundo moderno beligerante?  

O segundo conflito mundial, sucedido entre 1939 e 1945, ceifou mais de 80 milhões de pessoas.

Francisco Estefogo
13/11/23 às 18h00

“Imagine”, canção escrita e cantada por John Lennon (1940-1980), atravessa gerações, entoando versos de paz e igualdade. Composta em 1971 e considerada como uma das 100 músicas mais tocadas do século XX, “Imagine” evoca um mundo de paz, sem fronteiras ou religião, tampouco fome e posses, quiçá ganância. Mais particularmente, um dos versos propõe um que não haja nenhum inferno abaixo de nós. Já faz 52 anos que o cantor inglês produziu essa obra irretocável e icônica, cantarolada nos mais infinitos recônditos do mundo, mas a humanidade apenas vocaliza a irretocável e utópica letra, sem grandes avanços na vida real. Em 1980, quando o ex-Beatle foi brutalmente assassinado em Nova York por um fã esquizofrênico, o mundo previamente sinalizava que, grosso modo, pouco ou nada tinha mudado em relação à escalada da violência no percurso da era moderna. Pelo contrário, o verdadeiro inferno estava por vir. E, lamentavelmente, chegou!

A hodiernidade ratifica a utopia cantarolada por “Imagine” uma vez que as nações estão cegamente chafurdadas nas trevas da penúria e da miséria, afora a mesquinhez e a cobiça, marcadamente governadas por retóricas nacionalistas, narrativas genocidas e ações beligerantes decorrentes de brigas territoriais, ambição por recursos naturais, aspectos religiosos e étnicos, assim como interesses puramente financeiros, dentre outros motivos profundamente complexos e labirínticos, embora muitas vezes, torpes. Possivelmente, John Lennon falaria na alvorada deste ciclo secular, dito “desenvolvido”, que a contemporaneidade belicosa e violenta padece de sonhadores que poderiam transformar a realidade, contrapondo, portanto, um momento da celebrada cantiga proliferadora da paz, ao afirmar, outrora, que ele não era o único sonhador. De fato, não era. Martin Luther King Jr. (1929-1968), um negro estadunidense que se tornou a figura mais proeminente e líder do movimento dos direitos civis, igualmente alvejado na sacada de seu aposento no Lorraine Motel, no Tennessee, também era um eterno idealista e visionário. Dentre alguns sonhos do seu icônico discurso proferido em agosto de 1963 para mais de 250 mil pessoas, o ativista político declama: “eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça”. Ironicamente, ambos sonhadores, que semelhantemente apregoavam fraternidade, justiça e igualdade, foram cruelmente fuzilados.

No que diz respeito aos infernos contemporâneos, magistralmente repudiados por “Imagine”, para citar apenas alguns dos episódios bélicos mais violentos da história, a I Guerra Mundial, ocorrida entre 1914 e 1918, dizimou em média 20 milhões de vidas, entre civis e militares. O segundo conflito mundial, sucedido entre 1939 e 1945, ceifou mais de 80 milhões de pessoas. Em tempos mais modernos, além da expulsão de armênios pelo Azerbaijão, que resultou em aproximadamente 600 baixas humanas, o confronto entre Rússia e Ucrania, iniciado em fevereiro de 2022, deixou mais de 70 mil mortos e perto de 120 mil feridos. Ademais, mais recentemente, a batalha no Oriente Médio abateu quase 10 mil palestinos, dos quais cerca de 65% são crianças e mulheres, e 1.500 israelenses, em menos de 1 mês. 

Mais particularmente, no que tange ao confronto entre Israel e a facção palestina Hamas, sobreleva ressaltar que a disputa entre os judeus e os árabes remonta ao século XIX, quando a criação de um estado judaico começou a se aventado. Em linhas gerais, questões profundas e herméticas atinentes à religião, à etnia e à disputa territorial encabeçam os motivos da contenda secular. O imbróglio é que ambos os lados reivindicam a soberania do seu próprio território, pois a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, áreas palestinas geograficamente separadas, estão incrustradas na zona israelense. No entanto, atualmente apenas Israel, com grande apoio dos EUA, exerce esse direito, embora alguns outros países reconheçam a Palestina como um Estado soberano. Dado esse abonado amparo, é patente conceber as nefastas consequências da rixa, pois como afirma Jean Paul Sartre (1905-1980), filósofo e escritor francês, “quando os ricos fazem a guerra, são sempre os pobres que morrem”.  As estatísticas fúnebres revelam o crescimento do poder bélico, certamente, das pátrias abastadas e, consequentemente, da quantidade de óbitos com o passar do anos, amiúde, desproporcional em relação aos países e regiões menores, mais pobres, menos desenvolvidos e desprovidos dos cruciais apoios dos ricos e poderosos Estados. Indubitavelmente, de modo algum nada justifica o extermínio de um ser humano, sobretudo de civis, regularmente inocentes. Nem de um lado, nem de outro. Nem do rico, muito menos do pobre.

Nos últimos 50 anos, a humanidade avançou sobejamente em relação à tecnologia, à comunicação, bem como à mobilidade, ao bem-estar e à produção de alimentos e bens de consumo, incluindo, infelizmente, os armamentos atômicos de matança incomensurável. No entanto, parece que resvalou na singela geração de sonhadores como Lennon e Luther King. Até porque sonhar denota uma das razões para ser eliminado, como se pode compreender a partir das mortes do cantor britânico e do líder pacifista americano, laureado com o Prêmio Nobel da Paz de 1964, louvável reconhecimento do combate à desigualdade racial.

Inobstante, Paulo Freire (1921-1997), educador e filósofo brasileiro, inspira-nos a resistir e ser sim sonhadores, por mais ameaças que possamos causar aos que não querem viver num mundo compartilhado de irmandade coletiva, como preconiza a emblemática pacífica “Imagine”. Diz o patrono recifense da Educação Brasileira: “ai daqueles e daquelas, entre nós, que pararem com a sua capacidade de sonhar, de inventar a sua coragem de denunciar e de anunciar. Ai daqueles e daquelas que, em lugar de visitar de vez em quando o amanhã, o futuro, pelo profundo engajamento com o hoje, com o aqui e com o agora, ai daqueles que em lugar desta constante viagem ao amanhã, se atrelem a um passado de exploração e de rotina”. Talvez, Freire estivesse profetizando quem seriam os próximos a jogar uma bomba num espaço indefeso e desvalido: os não-sonhadores (e opressores). 

“ Membro titular da Academia Taubateana de Letras, Francisco Estefogo é pós-doutor em Linguística Aplicada pela PUC-SP e professor do programada de Linguística Aplicada da UNITAU. Ademais, é pós-doutorando em Filosofia da Linguagem pela PUC-SP e pela UNIFESP”

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação

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