A suspensão de aulas de um curso preparatório para carreiras militares virou caso de polícia na região de Araçatuba (SP). Vários boletins de ocorrência foram registrados por pessoas que dizem ter sido enganadas pela empresa Epcom Cursos, com sede em Mogi das Cruzes (SP). O colégio onde eram ministradas as aulas também procurou a polícia, pois não recebeu o aluguel referente a dois meses e não consegue mais contato com os responsáveis pela empresa.
Conforme relato das vítimas, a Epcom fez ampla divulgação de seu serviço, por meio de redes sociais, no segundo semestre do ano passado, e promoveu um encontro em Araçatuba para explicar o funcionamento de um curso preparatório para jovens com interesse em ingressar na carreira militar, como Exército, Marinha, Aeronáutica e Polícia Militar.
O encontro foi realizado em um hotel de Araçatuba, com participação de centenas de pessoas - entre jovens e seus responsáveis. Os presentes receberam informações sobre o pagamento. O curso custava R$ 1.650, à vista, ou dez parcelas de R$ 169,00 se o pagamento fosse feito com cartão de crédito. Nessa segunda opção, os estudantes ganhariam seis meses de curso, uma camiseta, duas apostilas e não precisariam pagar a matrícula. A preparação teria duração de 18 meses.
As aulas eram presenciais, realizadas aos sábados em salas alugadas em um colégio de Araçatuba e ocorreram normalmente de outubro do ano passado até fevereiro deste ano. Neste mês, após o Carnaval, não houve mais aulas e os responsáveis pelo curso sumiram.
Alerta
A aposentada Juliana Antunes Rios de Lima, de Birigui, conta que foi uma das primeiras a desconfiar que podia ter caído num golpe. Ela estranhou o fato de a filha, de 17 anos, estar tendo apenas matérias de português, matemática e inglês, e ter recebido mensagens do curso falando de mudança de salas e de professores.
“Fui até o colégio e conversei com a responsável. Depois, comecei a pesquisar sobre essa empresa e encontrei vários relatos semelhantes, de outros lugares, onde a empresa também teria sumido”, conta. O mesmo problema é enfrentado por alunos e pais de cidades como São José do Rio Preto, Lins, Catanduva, Presidente Prudente e outros estados, como Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul.
O caso foi divulgado no Facebook, na página QAP Birigui , e outras vítimas da região começaram a aparecer. Um grupo de WhatsApp foi montado visando unir forças.
Sonhos
Marli Aparecida Bellini, moradora de Glicério, está neste grupo. Ela participou com a sobrinha, de 14 anos, do encontro promovido pela empresa no hotel e deu a maior força para que a menina se inscrevesse no curso.
“O hotel estava cheio, com equipe preparada. Fizeram uma apresentação de encher os olhos de quem estava no local e em nenhum momento deixaram parecer que poderia haver algo errado”, conta.
A matrícula da sobrinha foi feita com cartão de crédito - seis parcelas de R$ 169,00 já foram pagas. As aulas começaram na semana seguinte à palestra e ocorreram até o final de fevereiro. “Só após as mensagens de mudança de salas, de professores, é que o alerta acendeu”, disse.
No sábado (16), ela e um grupo de pais estiveram na escola onde eram dadas as aulas e depois procuraram a polícia para registrar um boletim de ocorrência em conjunto. Uma ação judicial coletiva também está em estudo.
“Além do prejuízo material, com gastos em mensalidade e transporte, imagina como está a cabecinha desses jovens com tantos sonhos jogados em vão?”, ressalta.
Sem aluguel
Mantenedor do colégio onde as aulas eram ministradas, Márcio Henrique Gimenez Cardoso, conta que está na mesma situação dos pais, pois a empresa “sumiu” sem pagar dois meses de aluguel.
“Eles sempre atrasaram o pagamento, mas em janeiro, o atraso foi maior. Achamos estranho, mas não suspeitamos de nada até que os pais nos procuraram e explodiu essa bomba”, diz. O colégio também registrou boletim de ocorrência nesta segunda-feira (18).
Cardoso afirma que não tinha conhecimento da metodologia ou da parte administrativa da Epcom, pois só cedeu, por meio de contrato, o local para as aulas, e agora não consegue contato com a empresa.
De acordo com o mantenedor, no início, a Epcom utilizava duas salas. No entanto, vários alunos foram desistindo do curso e as aulas foram concentradas em uma única sala, porém em três horários (três turmas).
Atuação
A informação levantada pelas vítimas é de que a empresa faz ampla divulgação desse curso preparatório para carreiras militares, instala-se em alguma cidade de alcance regional e depois de alguns meses some sem dar satisfação e sem entregar o que prometeu. O golpe tem continuidade com um novo nome, em uma nova localidade.
A reportagem tentou contato com a empresa, pelo telefone disponível no CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica), porém as ligações não foram completadas.