Em 2019 uma marca famosa de sapatos femininos fez uma campanha publicitária às vésperas do Dia das Mães enaltecendo o papel das “mães de planta”.
Dois anos depois, a mesma marca, na mesma data, colocou em suas redes sociais a foto de três mulheres que não são mães. A internet, é claro, reagiu e várias influenciadoras digitais comentaram sobre a invisibilidade materna em nossa sociedade.
Uma delas foi Cristina Machado, que é consultora de amamentação em Porto Alegre-RS e mãe do Henrique de 12 anos e da Júlia de sete. Ela é conhecida nas redes sociais como a “musa das tretas e das tetas” e tem atualmente mais de 60 mil seguidores no Instagram.
De posicionamento político e pessoal bastante claro, seu conteúdo, além de dicas de amamentação e de desmame, é voltado para mostrar as dificuldades reais de criar sozinha duas crianças com idades diferentes.
Para ela, é importante “desromantizar” o que as mulheres aprendem sobre a maternidade. “Romantizar o ato de ser mãe é uma forma de opressão. Acreditar que basta amar o filho e os perrengues irão desaparecer magicamente nos faz ter receio de reclamar e demandar parceria e rede de apoio. É como se não dar conta da maternidade nos fizesse mães piores. Não é obrigação e nem amor a mãe trocar todas as fraldas”.
Recentemente os “perrengues” aos quais ela se refere extrapolaram as esferas da relação mãe e filhos e chegaram até a Justiça. Cristina foi denunciada ao Conselho Tutelar e ao Ministério Público do RS, pela escola privada do filho mais velho, devido ao baixo desempenho dele nas aulas remotas do ano passado.
“Mas no fundo foi por eu ser uma mãe questionadora. Exigi o plano pedagógico transitório da escola e até hoje não recebi. Pedi que as reuniões fossem por e-mail e que, se fossem online, que eu pudesse gravar”.
No próprio documento que a escola enviou ao Conselho Tutetar, a consultura diz que consta esta explicação: mãe questionadora sobre as escolhas da escola, sobre exigência de presença e de desempenho que a escola exercia. “Ameaçaram reprová-lo, apesar de uma nota do Conselho Nacional de Educação recomendando o contrário no ano letivo de 2020.” O caso ainda está aberto.
A pandemia fez ainda, na opinião dela, com que o trabalho materno, principalmente daquelas que seguem “carreira solo”, aumentasse muito. “A maioria das mulheres que são mães ficaram desempregadas por que escolas e creches são redes de apoio sociais importantes. Antes do coronavirus as mulheres já realizavam 10 horas a mais de trabalhos domésticos do que os homens. Com o ensino remoto, que caiu no colo das mães, estamos acumulando ainda mais funções”. Ela lembra ainda que a situação é pior para as profissionais da educação do ensino fundamental que, em sua maioria, são mulheres e também são mães.
