Cotidiano

Desafios nada românticos da maternidade no século XXI

Mães reais contam os obstáculos que precisam passar na atualidade para deixar se serem invisíveis e maternar em paz

Daniela Galli - Hojemais Três Lagoas
08/05/21 às 07h00
Cristina, Henrique e Júlia

Em 2019 uma marca famosa de sapatos femininos fez uma campanha publicitária às vésperas do Dia das Mães enaltecendo o papel das “mães de planta”.

Dois anos depois, a mesma marca, na mesma data, colocou em suas redes sociais a foto de três mulheres que não são mães. A internet, é claro, reagiu e várias influenciadoras digitais comentaram sobre a invisibilidade materna em nossa sociedade. 

Uma delas foi Cristina Machado, que é consultora de amamentação em Porto Alegre-RS e mãe do Henrique de 12 anos e da Júlia de sete. Ela é conhecida nas redes sociais como a “musa das tretas e das tetas” e tem atualmente mais de 60 mil seguidores no Instagram. 

De posicionamento político e pessoal bastante claro, seu conteúdo, além de dicas de amamentação e de desmame, é voltado para mostrar as dificuldades reais de criar sozinha duas crianças com idades diferentes. 

Para ela, é importante “desromantizar” o que as mulheres aprendem sobre a maternidade. “Romantizar o ato de ser mãe é uma forma de opressão. Acreditar que basta amar o filho e os perrengues irão desaparecer magicamente nos faz ter receio de reclamar e demandar parceria e rede de apoio. É como se não dar conta da maternidade nos fizesse mães piores. Não é obrigação e nem amor a mãe trocar todas as fraldas”.

Recentemente os “perrengues” aos quais ela se refere extrapolaram as esferas da relação mãe e filhos e chegaram até a Justiça. Cristina foi denunciada ao Conselho Tutelar e ao Ministério Público do RS, pela escola privada do filho mais velho, devido ao baixo desempenho dele nas aulas remotas do ano passado. 
“Mas no fundo foi por eu ser uma mãe questionadora. Exigi o plano pedagógico transitório da escola e até hoje não recebi. Pedi que as reuniões fossem por e-mail e que, se fossem online, que eu pudesse gravar”.

No próprio documento que a escola enviou ao Conselho Tutetar, a consultura diz que consta esta explicação: mãe questionadora sobre as escolhas da escola, sobre exigência de presença e de desempenho que a escola exercia. “Ameaçaram reprová-lo, apesar de uma nota do Conselho Nacional de Educação recomendando o contrário no ano letivo de 2020.” O caso ainda está aberto.

A pandemia fez ainda, na opinião dela, com que o trabalho materno, principalmente daquelas que seguem “carreira solo”, aumentasse muito. “A maioria das mulheres que são mães ficaram desempregadas por que escolas e creches são redes de apoio sociais importantes. Antes do coronavirus as mulheres já realizavam 10 horas a mais de trabalhos domésticos do que os homens. Com o ensino remoto, que caiu no colo das mães, estamos acumulando ainda mais funções”. Ela lembra ainda que a situação é pior para as profissionais da educação do ensino fundamental que, em sua maioria, são mulheres e também são mães.

Fernanda, Lidiane e Ayla

MÃE DE VERDADE

A invisibilidade materna aumenta ainda mais quando a família é composta por duas mães. As servidoras públicas três-lagoenses Fernanda Aranha e Lidiane Teixeira ganharam Ayla durante a pandemia.

“Não tenho muita ideia de como é a maternidade antes da covid-19. Ser mãe já nos coloca em posição de isolamento social, mas passar por isso sozinhas reduziu muito a nossa rede de apoio. Tivemos que ponderar o custo benefício de muitas coisas como, por exemplo, possibilitar que nossa filha socializasse e interagisse com outras crianças. Optamos por não fazer por medidas de segurança”, explica Fernanda. 

Ayla foi gerada por Lidiane, o que fez com que Fernanda não tivesse o seu protagonismo reconhecido socialmente. “Em geral as pessoas validam a maternidade com o ato de gestar, amamentar, como se fossem regras para definir quem é mãe de verdade. Porém ser mãe não tem relação com nada disso porque pode ou não fazer parte do maternar”. 

Ela explica que, durante a gestação, as pessoas davam parabéns somente à mãe que estava grávida. “Esqueciam que estava do lado e que também seria mãe. Isso não acontece com um casal hétero”. E teve outras situações também. Durante um dos procedimentos médicos a secretária da clínica chamou Fernanda de “senhor” três vezes. 

“Uma vez, quando fomos levar Ayla para vacinar, cheguei com ela mamando e as pessoas ignoraram a existência da Lidiane. Depois nossa filha foi para o colo dela e eu deixei de existir. É estranha a dificuldade que as pessoas têm de dividir a atenção entre os cuidadores da criança, reforçando a ideia de que há uma mãe e que ela é quem tem toda a responsabilidade sobre a manutenção da saúde, alimentação e segurança da criança, isso não é uma regra na nossa família e não deveria ser em nenhuma, ninguém deveria ser obrigada a criar uma criança sozinha.”

Lidiane diz que gostaria que fosse diferente. “A situação exige uma nobreza na aula para entender que a Fernanda é a mãe da Ayla. Tivemos que lidar com a ‘licença paternidade’ dela de 20 dias, e ela estava amamentando. Ela se preparou durante toda a gestação, seguiu um protocolo de amamentação para posteriormente ser tratada como um pai”. A Receita Federal, segundo ela, também não reconhece duas mães. Os campos de preenchimento de documentação não descreve “filiação” e sim “nome do pai” e “nome da mãe”.


Giovanna, Maju e Martin

“MENAS MAIN”

Vez ou outra nas redes sociais de Cristina (@plantãomaterno) o termo “menas main” é usado como uma forma de brincadeira, com aqueles que tentam invalidar ou diminuir algumas práticas maternas. É como se, por exemplo, aquela mãe que deixa o filho com os avós para sair à noite fosse menos mãe, ou uma mãe ruim, do que aquela que abre mão da balada para ficar com a cria. 

“A maternidade romantizada faz com que a gente se sinta a pior pessoa do mundo quando começam a aparecer as dificuldades. Faz parecer que a mãe não tem o direito de estar cansada, de querer passar um tempo sozinha, de cuidar de si mesma”, opina Fernanda.

“As mulheres precisam saber que a amamentação vai doer fisicamente a ponto de você quase desistir. Vai ter hora que você vai estar feliz porque teve um parto lindo, cinco minutos depois você enlouquece por que o filho está chorando, porque você não dorme, ele não está ganhando peso. O puerpério também não é nada bonito. E por mais que se negue e faça vista grossa, vou seguir dizendo é exaustivo e merecemos respeito e atenção”, diz Lidiane.

COMO TRANSMITIR ISSO?

A professora Giovanna Paula Coelho dos Santos também concorda que estes conceitos devem acabar. “É uma forma de trazer aos homens/pais a obrigação de criar junto, além de mostrar que mulheres são “multi”: mães, profissionais e livres para viver uma vida sem cobranças exclusivas advindas da maternidade.

Mãe da Maju de cinco anos e do Martin de dois, ela conta que, depois que aprendeu a ser mãe, sempre foi sincera com eles. “Explico que a mamãe também precisa de um banho sossegado, uma refeição quente ou até mesmo não fazer nada sem interrupção. Mas são crianças e nada é fácil. Uma forma que encontramos foi deixar a Maju passar vários dias com a avó que mora em outra cidade. Ser rede de apoio é fundamental para a saúde da mãe e dos filhos”.

Como os filhos de Cristina são um pouco mais velhos, ela consegue lidar de outra forma. “Promovo pequenos atos de independência deles, exigindo que façam que façam tarefas domésticas de acordo com a idade. Digo sempre que os amo, mas que tenho outros interesses além da maternidade. 

Lidiane e Fernanda tentam incutir a não-romantização para as amigas que estão grávidas ou pensando na ideia, além de acolher aquelas que já são mães. “Não julgar a maternidade da outra e não ter medo de dizer que nem tudo são flores já é um passo incrível. Queremos passar isso para a nossa filha de forma natural. Ela vai saber o quanto é amada, mas também que ser mãe é trabalhoso e desafiador.”

SER MÃE É...

Para Giovanna, ser mãe é pesado. “Consegui descobrir a potência que uma mulher tem, mas a maternidade me mostrou também o quanto somos apagadas e silenciadas da sociedade. Sou totalmente contra discursos de ‘uma mulher só se torna completa quando se é mãe. Eu se pudesse escolher, escolheria ser pai (nessa sociedade machista e racista)”.

Cristina diz que ter filhos deveria ser uma escolha e não acontecer de forma compulsória. “Nosso papel é criar pessoas para o mundo e não para a gente. Isso deve acontecer com afeto, cuidado, resiliência, disciplina, parceria e respeito”.
Fernanda ressalta que é muito bom poder compartilhar a maternidade. “Esta é a experiência mais desafiadora e rica que já vivi. E eu sou muito abençoada”. Já Lidiane resumiu tudo em três palavras que, para ela, são as mais importantes. “Amor, dedicação e luta”.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
 RECOMENDADO PARA VOCÊ
 EM DESTAQUE AGORA
VEJA TODOS OS DESTAQUES
 ÚLTIMAS EM COTIDIANO
Franquia:
Três Lagoas MS
Franqueado:
Empresa Jornalística e Editora Hojemais Ltda.
01.423.143/0001-79
Editor responsável:
Daniele Brito
materia03@hojems.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2021 - Grupo Agitta de Comunicação.