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Desemprego e renda afetam mais mulheres negras

Mulheres negras registram piores resultados em emprego, renda e informalidade

Thais Constantino - Hojemais Três Lagoas 
05/06/26 às 14h49
Foto: Reprodução (Agência Brasil)

Apesar dos avanços registrados recentemente no mercado de trabalho brasileiro, com redução das taxas de desemprego e aumento da renda média dos trabalhadores, as mulheres negras jovens continuam sendo o grupo mais afetado por desigualdades em indicadores como desocupação, informalidade, desalento e rendimento.

Os dados fazem parte de um relatório produzido pela Rede Multiatores MUDE com Elas, elaborado pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert) com base em informações da PNAD Contínua 2025 , pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que monitora o cenário do trabalho no país.

De acordo com o estudo, embora tenham ocorrido avanços em aspectos como escolaridade e renda, persistem barreiras estruturais que afetam principalmente mulheres entre 14 e 29 anos.

Entre adolescentes de 14 a 17 anos, a taxa de desocupação entre mulheres negras alcança 24,7%, índice 1,4 vez superior ao observado entre homens brancos da mesma faixa etária. Já entre jovens de 18 a 24 anos — período considerado pelos pesquisadores como decisivo na transição entre escola e mercado de trabalho — a desigualdade aumenta. Nesse grupo, a taxa de desocupação das mulheres negras chega a 16,5%, percentual 1,6 vez maior do que o registrado entre homens brancos.

Na faixa etária de 25 a 29 anos, o cenário continua desfavorável. A taxa de desocupação entre mulheres negras é de 10,3%, praticamente o dobro da observada entre mulheres brancas e 2,8 vezes superior à dos homens brancos.

Segundo a coordenadora da Rede Multiatores pelo Ceert, Shirley Santos, os avanços no mercado de trabalho não foram distribuídos de forma igualitária.

“O mercado de trabalho melhorou, mas não melhorou de forma igual para todas as pessoas. Isso evidencia que o problema não está apenas no acesso à educação, mas também nos mecanismos estruturais de exclusão que continuam operando no mercado de trabalho e na sociedade brasileira. Envolvem racismo estrutural, segregação territorial, desigualdade no acesso às redes de oportunidade, discriminação nos processos de contratação e promoção, além da sobrecarga histórica do trabalho de cuidado”, afirma.

A pesquisadora destaca ainda que o território onde a pessoa vive influencia diretamente suas oportunidades profissionais. Moradoras de regiões periféricas enfrentam obstáculos relacionados à mobilidade urbana, acesso à infraestrutura, qualidade dos serviços públicos e inserção em redes profissionais.

Diferenças aparecem também na renda

O estudo mostra que a desigualdade também se manifesta no rendimento e no acesso ao trabalho formal. Em 2025, o rendimento médio das mulheres negras representou apenas 46,5% da renda recebida pelos homens brancos, mantendo uma diferença de 53,5% que praticamente não sofreu alterações nos últimos anos.

No quesito informalidade, 39,1% das jovens negras ocupadas trabalham sem vínculo formal, índice cerca de 10 pontos percentuais superior ao registrado entre mulheres brancas. Apenas os jovens homens negros apresentam situação mais vulnerável nesse indicador, com taxa de informalidade de 44,2%.

Outro dado preocupante está relacionado ao desalento, condição em que a pessoa deixa de procurar emprego. As mulheres negras representam 38,7% dos jovens desalentados do país, enquanto os homens negros correspondem a 36,1%. Entre aquelas com idade entre 25 e 29 anos, a participação sobe para 44,2%.

Quando a análise se concentra na Região Metropolitana de São Paulo, as diferenças permanecem evidentes. Jovens mulheres negras recebem, em média, R$ 2.236 por mês, enquanto homens brancos alcançam rendimento médio de R$ 3.926. Na faixa de 25 a 29 anos, os valores passam para R$ 2.569 entre mulheres negras e R$ 5.323 entre homens brancos.

Para Shirley Santos, os dados estatísticos ajudam a revelar parte das desigualdades, mas não conseguem captar integralmente todas as formas de exclusão enfrentadas diariamente.

“Os microdados permitem observar parte dessas desigualdades quando cruzamos raça, gênero, renda, escolaridade e território. Mas a experiência acumulada pelas organizações da sociedade civil também é fundamental para compreender dimensões que muitas vezes os dados quantitativos não conseguem capturar integralmente, como os mecanismos subjetivos de exclusão e os impactos cotidianos do racismo institucional”, destaca.

Estudo aponta necessidade de políticas estruturantes

O relatório ressalta que políticas de cotas raciais têm papel importante na redução das desigualdades, mas não são suficientes para solucionar o problema na velocidade necessária.

Segundo a pesquisadora, é fundamental investir em ações voltadas à permanência educacional, mobilidade social, proteção social e ampliação do acesso de pessoas negras a cargos de liderança e tomada de decisão.

Entre as iniciativas apontadas como positivas estão as políticas de cotas raciais e sociais em universidades e concursos públicos, programas de permanência estudantil, ampliação do acesso a creches e políticas de cuidado, programas de qualificação profissional direcionados à juventude negra, metas de diversidade e inclusão nas empresas, fortalecimento da educação para as relações étnico-raciais, políticas territoriais voltadas às periferias urbanas, incentivos à formalização do trabalho e programas de transferência de renda associados à inclusão produtiva.

O estudo também destaca a importância de políticas públicas de reparação e mecanismos de financiamento voltados à redução das desigualdades.

“O enfrentamento das desigualdades raciais exige investimento público, compromisso institucional e participação social. Uma transição justa — seja no mercado de trabalho, na educação ou na agenda climática — só será efetiva se enfrentar as desigualdades estruturais que organizam a sociedade brasileira”, conclui Shirley Santos.

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